Laís Corrêa de Araújo

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Laís Corrêa de Araújo (1928 – 2006) foi uma poeta, crítica, tradutora e jornalista mineira. Estreou com o livro de Caderno de poesia (1951), dando início a uma considerável produção poética, seguido de O signo e outros poemas (1955), Cantochão (1967), Maria e companhia (1983), Decurso de prazo (1988) e Pé de página (1995). Publicou ainda Murilo Mendes: Ensaio Critico, Antologia e Correspondência, obra marcada pelo seu diálogo com o poeta. Foi uma das fundadoras do Suplemento Literário de Minas Gerais, assumindo, na década de 60, o cargo de membro-fundador de redação do jornal, ao lado de Murilo Rubião e Ayres da Matta Machado Filho.

Uma das principais vozes da poesia feminina de Minas Gerais, Laís Corrêa de Araújo foi a única mulher presente na Semana de Poesia de Vanguarda, realizada em Belo Horizonte em agosto de 1963, reunindo integrantes do movimento da Poesia Concreta e da revista Tendência. Ao lado de Affonso Ávila, Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, Benedito Nunes e Luiz Costa Lima, discutiam a articulação de uma frente ampla de poesia de vanguarda que pudesse conciliar proposta de inovação e experimentação estéticas com um programa de intervenção crítica na realidade nacional.

Segundo a crítica Maria Esther Maciel, no ensaio presente em Inventário, obra que reúne poemas publicados em livro entre 1951 e 2002 (Editora UFMG, 2004), a dicção poética de Laís nunca se confinou ao horizonte do que se convencionou chamar de poesia feminina, o que não indica, entretanto, um alheamento estético da poeta a questões relativas à sua experiência enquanto mulher. “Pelo contrário, temas relacionados ao corpo, ao desejo, à memória e ao cotidiano familiar são recorrentes em sua poesia, só que atravessados pelos movimentos da ironia, da metalinguagem, da experimentação de formas e da lucidez crítica”.

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Poemas de Laís Corrêa de Araújo

 

Marca

Uma ferida é
e me causa nojo
espalha um soro acre
em minha face
de vergonha
Eu me envergonho pois,
sempre há a ferida
embora não doa nada
não doa mais a cicatriz
antiga e invisível
sob o pó do tempo —
é uma ferida sempre
e exala ocre cheiro
do desgosto e desgaste.

 

Auto-retrato

O que eu era fui
fluída fugidia fumaça
fui e era
não ao perfeito ser

Vislumbro o que fui
ou só vislumbre o outro é
ostensiva fragmentação
de bem moldada forma

no barro adâmico
de sonho e sono fui
derrapante à erosão
era fui ser não sei

a chuva corre em mim
esta que era, fui
brasa evaporada
sob as gotas do medo

 

Acerto final

De que valeu ter sido mudo
escudo baço crispado
e agora surdo surdir
esconso em berço de seios
deposta a sereia sem volteios
surdo e quem sabe cego
do inútil resfolego a busca
do sumo absoluto do acaso
ser dois em um ou vulto
de papier machê no esforço
de sobrenadar o poço o açude
à descoberta do fundo
palha de milho ou alcatifa
De que valeu dizer ou não dizer
ouvir não entender
enxergar e não crer?

A medida é o dedal
onde brindar a fala o ouvido
a vista
e cair na real.

 

Adeus

É assim que eu te digo adeus:
como uma menina que mora na beira
da estrada e abana a mão para o trem.

Apenas te vi.
E te digo adeus porque não
apanho rosas.

 

Footing

Quem dá mais
por um corpo valendo
15 16 17 18 19
20 anos?

Quem dá mais
por uma carne intacta
com todos os seus pertences?

Nesse pregão
ninguém paga o preço
de uma aliança.

 

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Nenhuma casa é segura

Mural de Nemesio Antunez

Alejandro Zambra

É fácil se apaixonar por Zambra. É fácil ler todos os romances de Zambra e se apaixonar por Zambra. É fácil ler os romances de Zambra porque: 1) a linguagem é estupidamente simples; 2) são curtos, muito curtos; 3) são de uma leveza narrativa incrível; 4) têm sido editados, aqui no Brasil, desde 2012, em belos volumes pela Cosac Naify. Formas de voltar para casa, o maior até agora (160 pp.), dá continuidade ao projeto de edição brasileira das obras do chileno, depois de Bonsai e A vida privada das árvores, e a editora já divulgou que publicará em breve o livro de contos/novelas Meus documentos. As edições não trazem nenhuma fotografia de Zambra, mas é fácil de encontrar no Google, imprimir, emoldurar e colocar do lado da cama.

Formas de voltar para casa lida com os desafios de se voltar para casa, a construção e não somente, de todas as formas que isso vai se apresentando aos personagens do livro, de todas as formas que isso se apresenta a nós. Voltamos ao terremoto de 13 de março de 1985, mas também às tensões da ditadura no Chile, em uma narrativa ágil, como a dos primeiros livros. A questão nem é quem fica ou não do lado de Pinochet, mas a inocência e a culpa de quem ignora essas questões. Raúl, o homem solitário da vila, que se esconde por trás de uma identidade que não a sua, é apenas um ponto de encontro entre o narrador e Claudia, que precisa voltar, anos depois, para que o romance funcione. “É mais fácil entender assim. É melhor pensar que tudo isso foi uma história de amor”, mas os romances de Zambra nunca são uma história de amor. Quer dizer, todos precisam de uma história de amor porque, no fim, são sempre sobre a perda. Os romances de Zambra, e Formas de voltar para casa principalmente, são construídos através do desejo.

Em dois planos o narrador-personagem desenvolve a narrativa e mostra a fratura dessa construção: “Voltei ao romance. Ensaio mudanças. Da primeira para a terceira pessoa, da terceira para a primeira, até para a segunda”. O livro, que é sobre os pais, mas também sobre Eme, é em tudo sobre o escritor. Para escrever sobre Eme, a ex-mulher, é preciso reabitar a casa, em uma tentativa de reconciliação que nunca será possível, como a prosa não é possível e se torna ritmos, cadências:

É melhor não sair em nenhum livro
As frases que não nos queiram abrigar
Uma vida sem música e sem letra
E um céu sem essas nuvens que agora
Você não sabe se estão indo ou vindo
Essas nuvens quando mudam tantas vezes
De forma que ainda parecemos estar
Morando no lugar que abandonamos
Quando ainda não sabíamos os nomes
das árvores
Quando ainda não sabíamos os nomes
dos pássaros
Quando o medo era o medo e não existia
O amor pelo medo
Nem o medo pelo medo
E a dor era um livro interminável
Que um dia folheamos só para ver
Se no final apareciam nossos nomes.

É preciso, antes de tudo, sair da casa. E uma vez é por todas. É preciso retornar, depois de algum tempo, porque estamos sempre voltando pra casa, e confrontar a literatura dos pais com a literatura dos filhos. Uma hora é preciso, agora sim, saber se os pais apoiavam ou não Pinochet, mesmo que a ditadura não seja sua, mesmo que você nem tivesse nascido. Os anos 70 e 80 chilenos constantemente são recuperados na prosa dos contemporâneos e com Zambra acontece de maneira sutil e profunda. A ditadura acompanha cada movimento do livro, mesmo que disfarçada, ou discutida em voz baixa (sempre discutida em voz baixa) enquanto o pai dorme e mãe e filho fumam na sala. É preciso sermos todos personagens secundários.

Visitar a casa do passado não é voltar ao passado – é bom que não nos enganemos, mas é para isso que servem os álbuns de fotografia, “para nos fazer acreditar que fomos felizes quando crianças. Para nos demonstrar que não queremos aceitar o quanto fomos felizes”. Formas de voltar para casa não é um livro sobre a casa, tampouco sobre a ditadura. Pode ser que nos engane e alguns pensem que é uma espécie de ensaio autobiográfico que culmina na construção de um romance, construção tal esmiuçada nas partes 2 e 4 do livro, mas não. Acredito que, muito mais que as revoluções e as tensões entre o voltar e o estar, mais do que as tentativas de um corpo de habitar e ser habitado por uma casa, é um livro sobre o sossego, deste que existe quando não há mais retorno. O livro de Zambra é um ensaio contundente sobre amadurecer e não caber mais nas roupas dos pais. Pode ser que as revoluções, como diz um poema da Matilde Campilho, sejam mesmo o lugar certo para a descoberta do sossego: “talvez porque nenhuma casa é segura / talvez porque nenhum corpo é seguro / ou talvez porque depois de encarar uma arma / finalmente seja possível entender / as múltiplas possibilidades de uma arma”.

X

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Formas de voltar para casa
Alejandro Zambra
Cosac Naify
160 páginas

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(Publicado originalmente na edição #01 da revista OGaribaldi)

Poemas de Alice Sant’Anna

Foto de Alexandre Sant'Anna

Foto de Alexandre Sant’Anna

Alice Sant’Anna nasceu em 1988 no Rio de Janeiro. Em 2008, publicou seu primeiro livro de poesia, Dobradura (7 Letras). Em 2012, lançou, em parceria com Armando Freitas Filho, a plaquete independente Pingue-Pongue. Seu livro Rabo de baleia (Cosac Naify) recebeu o prêmio APCA de título de poesia de 2013. Em dezembro de 2014, lançou outra plaquete, “Ilha da decepção”, com fotografias de seu pai, Alexandre Sant’Anna. Abaixo, três poemas novos.

*

 e um dia as formigas despencaram
da árvore como se estivessem maduras
uma chuva de formigas
e achamos que aquilo era tão especial
que merecia ser comemorado
na frigideira com manteiga
as saúvas crocantes
comprei um perfume só porque
se chamava água pura
e a graça era pagar caro
por um frasco de vidro
escrito em linhas finas água pura
ficamos em silêncio no telefone
ele perguntou qual era a palavra
eu não sabia qual era a palavra
por isso demorei cinco dias para responder
falei de longas caminhadas pela cidade
não contei que na calçada havia uma fruta
sem casca toda mordida por formigas
uma pêra um banquete
não disse que o som é uma frequência
que na inércia viaja de um lado
para o outro e rebate e pode
perder a força
mas não morre nunca
ainda não sei bem o que isso quer dizer
tudo o que falamos fica pra sempre
fluindo no ar como água?
(como é o cheiro da água pura?)
talvez o som volte mais tarde
e nos pegue de surpresa?
o amigo dela é obcecado pelo movimento
das formigas, o movimento
que olhando de fora parece
assustado ou aleatório mas que nos bandos
internamente faz sentido
e dentro do apartamento por causa do vale
às vezes se escuta uma pessoa falando lá de longe
em casa do outro lado do morro
uma frase baixinha um sussurro
de um vizinho distante
ficamos quietos por tempo demais
com medo de dizer a coisa errada
no telefone não tinha como saber
se você me olhava nos olhos

*

ilhas diomedes

falamos sobre o percurso até o fracasso
ou sobre como falar em fracasso talvez
já seja um passo adiante
um passo adiante do fracasso
o passo não sei bem em que direção
lá perto do polo norte
você sabia que tem duas ilhas
uma grande e uma pequena
as ilhas diomedes ou as ilhas do amanhã
separadas pela linha que corta o fuso
a linha que divide o ontem do hoje
numa distância de apenas um quilômetro
conversávamos perto de uma palmeira
iluminada por baixo que cobria
uma constelação, o céu estranhamente claro
porque choveu nos últimos dias e agora
lá está saturno, como você sabe
que é saturno? só sei reconhecer
as três marias e mesmo assim
depois tentei fingir que não ouvia
o tiroteio do outro lado da montanha
tiros ou fogos como dizer a diferença
pensei em fechar a janela mas mudei de ideia
e no lugar escancarei o vidro
o vidro não suavizaria o baque
como por exemplo estar de óculos num acidente
os óculos protegeriam os olhos
ou pelo contrário os estilhaços
da lente entrariam na retina? o que dói menos?
o cinto de segurança como uma marca
para sempre cruzando o peito
uma faixa de miss ou de presidente
o dedo gira na borda do copo
um pingo no vestido
vinte e três horas separadas por uma linha
onde quem sabe algum dia
talvez construam uma ponte
um túnel um ferryboat
um trem um voo uma ciclovia
uma avenida uma estrada um voo
um balão um bom par de tênis já servia

*

baixo gávea

você está mais magra
a qualquer momento o cordão
vai arrebentar de tão velho
se alguém puxasse mesmo
que de leve já era
mas ela sempre foi magra
ficamos marcados para sábado
ninguém me chamou? não é isso
daquela vez também
ninguém me convidou para o café
não li a segunda parte, mas a primeira
me fez mal fisicamente falando
não posso andar com vocês
não tenho pós-graduação
pra citar deleuze, falar em epistemologia etc.
mas vocês já se separaram?
a menina vem pra cá nesse fim de semana
no fundo não estou assim tão a fim
você está com uma cara
parece que alguém que você queria
que viesse não veio
apareceu tanta gente
e é sempre assim
a gente só lembra de quem não veio
você que está sumida
não te vejo faz quantos meses
essa viagem não te fez bem, está magra demais
e por que não deu certo? achei que fosse
durar, todo mundo achou
então marcamos sábado
ou domingo não lembro
trabalho perto de você, vamos combinar
a gente sempre aprende
alguma coisa qualquer coisa
no carnaval duzentas mil pessoas no aterro
ela disse que queria ficar só comigo
eu e ela e eu
falei que aquilo não tinha como
em pleno carnaval aquela gente toda
bateu uma saudade
não bolei nenhum plano b
mas fica bem, você está bem?
vou comemorar amanhã com a minha mãe
talvez alguma coisa na minha casa
você tem que conhecer minha casa
minha casa já está com cara de casa

*

O milagre da poesia juizforana

Anelise Freitas entrevista Iacyr Anderson Freitas

Iacyr Anderson Freitas salienta “que Juiz de Fora tem uma tradição poética vigorosa”, pra logo em seguida completar, afirmando como essa tradição se pautou em “um verdadeiro milagre”, já que “efetivamente esse patrimônio” nunca foi reconhecido. O poeta nasceu em Patrocínio do Muriaé (MG) em 1963. Entre seus livros publicados encontramos poesia, ensaio e contos. Já concorreu a vários prêmios literários de importância nacional e no exterior; sua obra também foi traduzida para diversas línguas. Seu último livro, Ar de Arestas (Escrituras; Funalfa, 2013), figurou entre os vinte e dois livros mais votados do ano no Portugal Telecom, um dos maiores prêmios de literatura em língua portuguesa. O poeta repetiu o feito de 2008, quando Quaradouro (Nankin Editorial; Funalfa, 2007) ficou entre os doze títulos mais votados no mesmo prêmio.

O escritor também falou a Um Conto sobre a poesia feita em Juiz de Fora, durante os anos 80, quando publicações como o folheto Abre Alas e a revista D´Lira agitavam a cena poética da cidade (poética no sentindo mais amplo, pois coabitavam artistas variados). Com o mesmo carinho do poeta Iacyr Anderson Freitas convido vocês a lerem a entrevista que segue abaixo:

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Quando falamos sobre a geração de poetas dos anos 80 (principalmente no que tange ao folheto Abre Alas e à revista D´Lira), em Juiz de Fora, seu nome é constantemente lembrado. Entretanto, em outra entrevista, você alega não saber “tecer qualquer comentário equilibrado sobre o que se passou na cidade naquele período”. Portanto, mesmo que de maneira desequilibrada, gostaria de saber como você define a sua participação naquele momento marcante para a poesia local.

Eu não consigo definir minha participação naquele momento. Aliás, creio que a vida é mesmo infensa a definições. Como sempre digo nos cursos que ministro, matamos o que definimos. Talvez felizmente. Retomando o fio da meada: participei dos conselhos editoriais da revista d’lira e do folheto abre alas, mas confesso que não tive como me dedicar muito às tarefas de edição. Perto dos trabalhos desenvolvidos pelo Zé Santos e pelo Mutum (o falecido José Henrique da Cruz), por exemplo, a minha contribuição efetiva era uma equação cujo resultado tendia a zero. Na época, eu cursava Engenharia Civil na UFJF, tendo aulas de segunda a sábado, as mais das vezes das sete da matina às seis da tarde. Durante um bom tempo fui Diretor de Cultura do DCE e me dediquei, ainda, à militância estudantil. A ditadura militar estava nos estertores – como o próprio país, aliás – e ninguém imaginava como a situação política brasileira poderia superar, sem sequelas, quase vinte anos de repressão e descalabro. De quebra, eu lutava muito, financeiramente falando, para me manter em Juiz de Fora, pois meus pais não tinham recursos e a carga horária da UFJF não me permitia trabalhar. Passando esse período a limpo, mais de trinta anos depois, vejo que tudo ali foi muito fértil e rico, mas também muito difícil. Por conta de todas essas dificuldades, minha participação naquele momento em Juiz de Fora, seja como poeta ou editor, foi muito modesta. Continuar lendo

Ismar Tirelli Neto

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Ismar Tirelli Neto é poeta e ficcionista. Nasceu a 1985, no Rio de Janeiro, e publicou os livros synchronoscopio Ramerrão, ambos pela editora 7Letras. O texto a seguir é inédito.

 

Os Piores Anos de Nossas Vidas (Aproximações)

I.

_____Por um breve período de tempo, ei-lo o homem que se debruçava sobre a amurada e via a água colear um antigo slogan revolucionário, se bem me lembro, “é preciso explorar sistematicamente o acaso”. Segue-se a este outro breve, espocado homem, homem sentado a um banco de praça, homem que em sua grande maioria vem se dedicando única e exclusivamente à tarefa um tanto árdua de voltar a si –, isto já faz quantos anos? Ora

II.

_____Nicolau é mesmo de uma indelicadeza imperdoável quando

III.

_____Ressalva, ao pé de Dagmar (ao pé de Dagmar serve-se de mais um copo de sangria, ressalva), que não acredita nem em reproduções de quadros nem em poemas traduzidos, porque “a arte é muito ciumenta, há que buscá-la em casa”. De resto, trata-se de encontro amplamente documentado, um grande acontecimento para o cinema, um grande acontecimento para o “mundo cultural”, um grande acontecimento para

_____poucos

_____anos depois

IV.

_____Ela abandona a União Soviética em definitivo – segundo artigo que traduzi ano passado, pouco depois de conhecer Daniel, isto já faz quantos anos?, pouco depois de conhecer Daniel, Dagmar abandona a União Soviética em circunstâncias “menos que idílicas”. Mesmo hoje em dia, não é incomum que se rejeite sua produção no exílio como autoindulgente

V.

_____Triste, genuinamente enraivecido porque não consegue pensar em termo mais bíblico para “autoindulgente”

VI.

_____Agora meditemos um pouco nisso. Meditemos um pouco nas recusas que não nos envaidecem

VII.

_____É preciso fazê-lo, é preciso fazê-lo sem emporcalhar a água. Reconstrói passo a passo uma velha e esboroada fantasia: dirigir-se continuamente às escusas do outro, sendo as escusas do outro aquilo que –, no outro –, trama continuamente às voltas com tentar tornar o exílio em

_____método

VIII.

_____Não é sem alguma vergonha que me pego fazendo agora essas ponderações. Ontem, ao telefone com Daniel, tive ocasião de concluir que estou fazendo tudo errado (novamente). Eis a hipótese –, a hipótese –, a hipótese –, que desencadeou todo o processo: embora não tenha feito outra coisa ao longo do verão afora minutar neste caderno de maneira mais ou menos fidedigna o pouco que lhe costuma acontecer a cada dia, é certo que não encontraria o que dizer caso alguém lhe pedisse para descrever o que de fato está se passando neste exato momento:

IX.

_____Uma parede branca à minha frente é dizer a vizinhança do outono é dizer o que se passa comigo neste exato momento com a maior frontalidade possível dirigir-se àquele outro no outro àquele outro no outro àquele outro até mesmo em Daniel aquele outro encruado no outro que precisa sempre tomar o voo das nove e meia urgentemente

X.

_____De resto, pensei que a renúncia papal acabaria por devolver à ordem do dia os insultos do espírito. Acreditei (ingenuamente, concedo) que esta seria minha segunda grande chance

XI.

_____Meus amigos, inteligentes e cínicos como médicos legistas, pendem para o cinema. Dizem: “cinema”, dizem: “há mais cinema nisto do que naquilo outro”. Certamente desejariam ouvir que me circunstanciei com a cidade novamente, à força de uns quantos passeios pela Urca ao anoitecer ou golpes de vento à boca da Cinelândia. Poderia, então, ocupar o lugar que me reservam à mesa, suspirar de cansaço diante do rocambole – afinal, ninguém tem dinheiro, – afinal, seremos nós os aventureiros? perdoarão um dia o nosso recato? – afinal, os aventureiros grassam. Contudo, falando estritamente, não me foi dado ver coisa alguma desse deserto, dessa terrível, terrível lentidão – aparecem-me sem propriamente imagem, ainda e talvez permanentemente irrepresentáveis, o que também não quer dizer muita coisa. A propósito

XII.

_____Daquela sequência de “Nostalgia” em que o Erland Josephson ateia fogo às vestes, diremos apenas que já falta pouco para o fim do verão, pode-se afrouxar. Este, como se sabe, foi um bocado pior do que o anterior – que, por sua vez, foi um verdadeiro inferno comparado ao de ’79 – que eu já julgava ter esgotado todo o cristianismo de minha outrora mansíssima natureza, que

XIII.

_____Isto vai retrocedendo, retrocedendo, até já não fazer mais sentido algum propalar por aí asneiras como este realmente não foi o nosso ano.

_____É vergonhoso, sim, vergonhoso

_____como falar de grandes vacâncias dentro de uma cabeça, vergonhoso como descobrir à base da nuca uma nova e diminuta dor que só vibra inconteste quando rimos ou engolimos um pouco de saliva,

_____vergonhoso como voltar de uma longa viagem de mãos abanando

Frank O’Hara

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Frank O’Hara nasceu em 1926 em Baltimore, nos Estados Unidos. Estudou piano desde pequeno e, em 1946, como ex-combatente da Marinha, foi fazer um bacharelado em música em Harvard. Algum tempo depois mudou-se de modo definitivo para Nova York. “Quando nós todos”, diz O’Hara em uma entrevista, “chegamos ou emergimos como poetas em Nova York, no meio e no final dos anos 50, os pintores eram os únicos interessados em qualquer tipo de poesia experimental, ao contrário dos literatos”. Sua vida em Nova York é quase inseparável de sua relação com a pintura. Além da cidade, do concreto, o metrô – “Eu mal desfruto de uma folha verde a menos que saiba que tem um metrô por perto, ou uma loja de discos, ou qualquer outro sinal de que as pessoas não se arrependem totalmente da vida” – ele era um entusiasta da experimentação realizada pelo grupo de pintores representativo do que se tornou conhecido como Expressionismo Abstrato. O’Hara e amigos poetas, como John Ashbery, Barbara Guest, Kenneth Koch e James Schuyler, fizeram suas primeiras leituras públicas no Cedar Bar, que era o bar dos pintores, e em galerias de arte. Posteriormente ficaram conhecidos como a New York School of Poetry. Além de poesia, escreviam críticas de arte e realizavam colaborações de diversos gêneros com os artistas. Segundo a crítica americana Marjorie Perloff, noções da arte como processo e do quadro como superfície, inspiradas principalmente pela Action Paiting, influenciariam a forma da poesia de O’Hara, na qual procedimentos sintáticos e prosódicos criariam uma poesia “de muita velocidade, abertura, flexibilidade e de desafio a expectativas”.

Mas há também um importante influência da música, sobretudo de vanguarda. John Ashbery conta que em 1952 eles assistiram juntos a um concerto do pianista David Trudor tocando “Music of changes” de John Cage. Sobre a música que este apresentava, Ashbery comenta na introdução aos Collected Poems de O’Hara: “Tanto na época como hoje em dia o mecanismo do método me escapa; o que importava era que elementos do acaso pudessem se combinar para produzir um trabalho tão bonito e tão claro. Para nós foi mais uma prova, talvez uma prova definitiva, não de que ‘qualquer coisa vale’, mas de que ‘qualquer coisa pode surgir.’”

O’Hara publicou poucos livros em vida. Muitos de seus poemas sobreviveram apenas porque foram copiados em cartas ou porque foram encontrados espalhados pelas gavetas de sua casa por seus amigos. De todo modo, em 1966, ao morrer subitamente em um acidente de carro em Fire Island, já havia uma espécie de culto em torno de sua figura. O estilo de alguns de seus poemas – que o próprio O’Hara cunhara de “I do this I do that” (“Eu faço isso eu faço aquilo”) – já era copiado pelos poetas da segunda geração da New York School. São poemas de ocasião, muito alertas ao ambiente circundante, supostamente escritos de forma rápida, em momentos os mais triviais, como o intervalo do almoço – daí o título de um de seus livros, Lunch poems (1964). No entanto, como escreveu o músico Morton Feldman: “Estes poemas, tão coloquiais, tão conversacionais, ainda assim parecem nos alcançar de um algum outro lugar, infinitamente distante.” Talvez porque, como nos revela um olhar mais atento, O’Hara frequentemente intercala considerações “coloquiais” ou “cotidianas” com apontamentos mais marcadamente líricos, filosóficos ou fantasiosos. Seja como for, é uma poesia que nos lança em certo estado de atenção, e cuja leveza e movimento são, ainda hoje, capazes de surpreender.

Beatriz Bastos

 

02

Frank O’Hara traduzido por Beatriz Bastos

 

Today

Oh! kangaroos, sequins, chocolate sodas!
You really are beautiful! Pearls,
harmonicas, jujubes, aspirins! all
the stuff they’ve always talked about

still makes a poem a surprise!
These things are with us every day
even on beachheads and biers. They
do have meaning. They’re strong as rocks.
.

Hoje

Oh! cangurus, paetês, milkshakes!
Que beleza! Pérolas, gaitas
jujubas, aspirinas! todas essas
coisas sobre as quais sempre se fala

ainda fazem de um poema uma surpresa!
Estão conosco todos os dias mesmo
em casamatas e catafalcos. São coisas com
sentido. São fortes feito pedra.

*

Poem

Instant coffee with slightly sour cream
in it, a phone call to the beyond
which doesn’t seem to be coming any nearer.
“Ah, daddy, I wanna stay drunk many days”
on the poetry of a new friend
my life held precariously in the seeing
hands of others, their and my impossibilities.
Is this love, now that the first love
has finally died, where there were no impossibilities?
.

Poema

Café solúvel com um pouco de creme
azedo, um telefone para o além
que não parece se aproximar nem um pouco.
“Ah, papai, eu quero ficar vários dias bêbado”
da poesia de um novo amigo
minha vida suspensa precariamente em atentas
mãos alheias, as impossibilidades deles e minhas.
É isso o amor, agora que finalmente morreu
o primeiro amor, em que não havia impossibilidades?

*

Avenue A

We hardly ever see the moon any more
_________________________so no wonder
_____it’s so beautiful when we look up suddenly
and there it is gliding broken-faced over the bridges
brilliantly coursing, soft, and a cool wind fans
_____your hair over your forehead and your memories
_____of Red Grooms’ locomotive landscape
I want some bourbon/ you want some oranges/ I love the leather
_____jacket Norman gave me
______________________and the corduroy coat David
_____gave you, it is more mysterious than spring, the El Greco
heavens breaking open and then reassembling like lions
__________________________in a vast tragic veldt
_____that is far from our small selves and our temporally united
passions in the cathedral of Januaries

_____everything is too comprehensible
these are my delicate and caressing poems
I suppose there will be more of those others to come, as in the past
_________________________ so many!
but for now the moon is revealing itself like a pearl
________________________to my equally naked heart

.

Avenida A

Nós quase não vemos a lua hoje em dia
__________ então não é a toa que
é assim tão bonita quando de repente olhamos para cima
e lá está ela de rosto rachado deslizando sobre as pontes
como uma caçadora luzente, suave, e um vento agita
_____os cabelos na sua testa e suas lembranças
_____da paisagem com locomotiva de Red Grooms
eu quero um bourbon/ você quer laranjas/ eu adoro a jaqueta
_____de couro que o Norman me deu
_____e o casaco de veludo que o David
deu para você é mais misterioso que a primavera, os céus
de El Greco se abrem depois se recombinam feito leões
_________ em uma vasta e trágica savana
_____distante das nossas pequenas vidas e de nossas paixões
temporariamente unidas na Catedral dos janeiros

_____tudo é por demais compreensível
estes são meus poemas delicados e carinhosos
suponho que ainda virão muitos daqueles outros, como no passado
_________________ foram tantos!
por ora a lua desnuda-se como uma pérola
_______________ tão nua como o meu coração

 

Beatriz Bastos nasceu em 1979 no Rio de Janeiro. Publicou Pandora – Fósforos de Segurança, em coautoria com Fernanda Branco (Editora Azougue, 2003) e Da Ilha  (Editacuja, 2009). É professora e tradutora. Concluiu recentemente sua tese de doutorado, “Traduzindo poesia: Adília Lopes e Frank O’Hara”, na  PUC-Rio.

 

4

Frank O’Hara traduzido por Ismar Tirelli Neto

 

Autobiographia litteraria

When I was a child
I played by myself in a
corner of the schoolyard
all alone.

I hated dolls and I
hated games, animals were
not friendly and birds
flew away.

If anyone was looking
for me I hid behind a
tree and cried “I am
an orphan”.

And here I am, the
center of all beauty!
writing these poems!
Imagine!

.

Autobiographia litteraria

Quando eu era pequeno
brincava a um canto
do pátio do colégio
completamente só.

Odiava bonecas e a mim
os jogos não me apeteciam, animais
não eram simpáticos e pássaros
voavam pra longe.

Se alguém procurasse
por mim escondia-me atrás
de uma árvore e berrava “Sou
órfão”.

E cá estou eu, o
centro de toda a beleza!
escrevendo esses poemas!
Imagine!

*

My heart

I’m not going to cry all the time
nor shall I laugh all the time,
I don’t prefer one “strain” to another.
I’d have the immediacy of a bad movie,
not just a sleeper, but also the big,
overproduced first-run kind. I want to be
at least as alive as the vulgar. And if
some aficionado of my mess says “That’s
not like Frank!”, all to the good! I
don’t wear brown and grey suits all the time,
do I? No. I wear workshirts to the opera,
often. I want my feet to be bare,
I want my face to be shaven, and my heart –
you can’t plan on the heart, but
the better part of it, my poetry, is open.

.

Meu coração

Não vou chorar o tempo inteiro
tampouco rirei o tempo inteiro,
não prefiro uma “corrente” a outra.
Antes teria o imediatismo duma fita ruim,
não só as despretensiosas, mas também as super
produções de primeira linha. Quero ser
pelo menos tão vivo quanto a vulgária. E se
algum aficionado da minha bagunça disser “Isto
não parece o Frank!”, tanto melhor! Eu
não uso paletós marrons e cinzas o tempo todo,
uso? Não. Uso camiseta de operário para ir à ópera
com freqüência. Quero meus pés descalços,
quero meu rosto barbeado, e meu coração –
não se pode planejar com o coração, mas
o que nele há de melhor, minha poesia, está aberto.

*

Memorial Day 1950

Picasso made me tough and quick, and the world;
just as in a minute plane trees are knocked down
outside my window by a crew of creators.
Once he got his axe going everyone was upset
enough to fight for the last ditch and heap
of rubbish.
XXXXXXXXXXXThrough all that surgery I though
I had a lot to say, and named several things
Gertrude Stein hadn’t had time for; but then
the war was over, those things had survived
and even when you’re scared art is no dictionary.
Max Ernst told us that.
XXXXXXXXXXXXXXHow many trees and frying pans
I loved and lost! Guernica hollered look out!
but we were too busy hoping our eyes were talking
to Paul Klee. My mother and father asked me and
I told them from my tight blue pants we should
love only the stones, the sea and heroic figures.
Wasted child! I’ll club you on the shins! I
wasn’t surprised when the older people entered
my cheap hotel room and broke my guitar and my can
of blue paint.
XXXXXXXXXXAt that time all of us began to think
with our bare hands and even with blood all over
them, we knew vertical from horizontal, we never
smeared anything except to find out how it lived.
Fathers of Dada! You carried shining erector sets
in your rough bony pockets, you were generous
and they were lovely as chewing gum or flowers!
Thank you!
XXXXXXXXXXAnd those of us who thought poetry
was crap were throttled by Auden or Rimbaud
when, sent by some compulsive Juno, we tried
to play with collages and sprechstimme in their bed.
Poetry didn’t tell me not to play with toys
but alone I could never have figured out that dolls
meant death.
XXXXXXXXXXOur responsabilities did not begin
in dreams, though they began in bed. Love is first of all
a lesson in utility. I hear the sewage singing
underneath my bright white toilet seat and know
that somewhere sometime it will reach the sea:
gulls and swordfishes will find it richer than a river.
And airplanes are perfect mobiles, independent
of the breeze; crashing in flames they show us how
to be prodigal. O Boris Pasternak, it may be silly
to call to you, so tall in the Urals, but your voice
cleans our world, clearer to us than the hospital:
you sound above the factory’s ambitious gargle.
Poetry is as useful as a machine!
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXLook at my room.
Guitar strings hold up pictures. I don’t need
a piano to sing, and naming things is only the intention
to make things. A locomotive is more melodious
than a cello. I dress in oil cloth and read music
by Guillaume Apollinaire’s clay candelabra. Now
my father is dead and has found out you must look things
in the belly, not in the eye. If only he had listened
to the men who made us, hollering like stuck pigs!

.

Memorial Day 1950

Picasso fez-me rápido e turrão, e o mundo;
bem como num instante plátanos são postos abaixo
do lado de fora da minha janela por uma trupe de criadores.
Quando ele começou a trabalhar o machado todos se aborreceram
o bastante para lutar pela última ravina e monte
de lixo.
XXXXXXPor toda aquela cirurgia pensei
que tinha um bocado a dizer, e nomeei diversas coisas
que Gertrude Stein não tivera tempo de nomear; mas depois
a guerra acabou, aquelas coisas tinham sobrevivido
e mesmo quando se está com medo a arte não é dicionário.
Foi Max Ernst quem nos disse.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXQuantas árvores e frigideiras
amei e perdi! Guernica gritou cuidado!
mas estávamos ocupados com a esperança de que nossos olhos
estivessem falando com Paul Klee. Meus pais perguntaram e eu
de minha apertada calça azul lhes disse que deveríamos
amar apenas as pedras, o mar e as figuras heróicas.
Criança transviada! Vou dar nas tuas tíbias! Não
me surpreendi quando os mais velhos adentraram
meu quarto de hotel barato e quebraram meu violão e minha lata
de tinta azul.
XXXXXXXXXXNaquela época todos nós começamos a pensar
com as próprias mãos e mesmo com elas manchadas
de sangue, distinguíamos entre horizontal e vertical, nunca
sujamos nada a não ser para descobrir como vivia.
Pais do Dada! Vocês carregaram brilhantes jogos de montar
em seus bolsos puídos e ossudos, vocês foram generosos
e eles eram tão adoráveis quanto chiclete ou flores!
Grato!
XXXXXXE aqueles dentre nós que achavam a poesia
uma merda foram sufocados por Auden ou Rimbaud
quando, a mando de alguma Juno compulsiva, tentamos
brincar de colagem e canto falado em suas camas.
A poesia nunca me mandou evitar os brinquedos
mas sozinho eu jamais teria descoberto que bonecas
significam a morte.
XXXXXXXXXXXNossas responsabilidades não principiaram
em sonho, embora principiassem na cama. O amor é acima de tudo
uma lição de utilidade. Ouço a canção do esgoto
por debaixo do assento brilhoso e branco de minha privada e sei
que em algum momento em alguma parte ele encontra o mar:
gaivotas e peixes-espada o pensarão mais rico que um rio.
E aviões são móbiles perfeitos, independentes
da brisa; quando caem em chamas nos ensinam
a prodigalidade. Oh Boris Pasternak, pode parecer tonto
chamar-te, tão alto nos Urais, mas tua voz
limpa o nosso mundo, mais límpida para nós que o hospital:
soas por sobre o ambicioso gargarejo da fábrica.
A poesia é tão útil quanto uma máquina!
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXVeja meu quarto.
Cordas de violão seguram retratos. Não preciso
de um piano para cantar, e nomear as coisas não passa
da intenção de fazê-las. Uma locomotiva é mais melodiosa
que um violoncelo. Trajo-me em panos d´óleo e leio música
sob o barrento candelabro de Guillaume Apollinaire. Agora
meu pai é morto e descobriu que não se deve olhar as coisas
nos olhos, e sim na barriga. Se ao menos tivesse atentado
aos homens que nos fizeram, berrando como porcos emperrados!

 

Ismar Tirelli Neto é poeta e ficcionista. Nasceu a 1985, no Rio de Janeiro, e publicou os livros synchronoscopioRamerrão, ambos pela editora 7Letras.

03

 

Frank O’Hara lê “The Day Lady Died” e “Song”

 

Gravado em 5 de Março de 1965, no apartamento do poeta em Nova Iorque, o vídeo abaixo traz O’Hara lendo dois poemas do livro Lunch poems, “The Day Lady Died” e “Song”, transcritos a seguir.

 

The Day Lady Died

It is 12:20 in New York a Friday
three days after Bastille day, yes
it is 1959 and I go get a shoeshine
because I will get off the 4:19 in Easthampton
at 7:15 and then go straight to dinner
and I don’t know the people who will feed me

I walk up the muggy street beginning to sun
and have a hamburger and a malted and buy
an ugly NEW WORLD WRITING to see what the poets
in Ghana are doing these days
_____________________I go on to the bank
and Miss Stillwagon (first name Linda I once heard)
doesn’t even look up my balance for once in her life
and in the GOLDEN GRIFFIN I get a little Verlaine
for Patsy with drawings by Bonnard although I do
think of Hesiod, trans. Richmond Lattimore or
Brendan Behan’s new play or Le Balcon or Les Nègres
of Genet, but I don’t, I stick with Verlaine
after practically going to sleep with quandariness

and for Mike I just stroll into the PARK LANE
Liquor Store and ask for a bottle of Strega and
then I go back where I came from to 6th Avenue
and the tobacconist in the Ziegfeld Theatre and
casually ask for a carton of Gauloises and a carton
of Picayunes, and a NEW YORK POST with her face on it

and I am sweating a lot by now and thinking of
leaning on the john door in the 5 SPOT
while she whispered a song along the keyboard
to Mal Waldron and everyone and I stopped breathing

*

Song

Is it dirty
does it look dirty
that’s what you think of in the city

does it just seem dirty
that’s what you think of in the city
you don’t refuse to breathe do you

someone comes along with a very bad character
he seems attractive. is he really. yes. very
he’s attractive as his character is bad. is it. yes

that’s what you think of in the city
run your finger along your no-moss mind
that’s not a thought that’s soot

and you take a lot of dirt off someone
is the character less bad. no. it improves constantly
you don’t refuse to breathe do you

 

As leituras acima fazem parte do vigésimo episódio da série USA: Poetry (1966), dedicado a Frank O’Hara, disponível aqui.

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Poemas inéditos de Prisca Agustoni

prisca_agustoni_web

Fotografia de Lara Toledo

Prisca Agustoni nasceu em Lugano (Suíça italiana) em 1975, e viveu vários anos em Genebra. Mora no Brasil, em Juiz de Fora, desde 2002. Transita entre vários idiomas, traduzindo textos literários e produzindo seus próprios textos em italiano, português e francês. Publicou livros na Suíça, em Portugal, na Itália e no Brasil. Sua mais recente publicação é Poesia scelta (2000-2012), editada em Bolonha (Itália) pela Editora Ladolfi. Os poemas a seguir fazem parte do livro Casa dos ossos, que sairá no próximo ano pela Sans Chapeau.

1.

essa escrita que diz e preenche
o vazio das noites em que muitas estrelas
e diversas línguas não traduzem
o que importa o que realmente importa
para que o estômago não arda mais
e coisas e novas palavras encontrem
em seu ossário razão e paz

.

2.

sou cinderela que quebra
o pacto mas quando quer voltar
enfim descalça
o cetro encantado cega
e entrelaça as sendas, assim
eu paro perdida abro os olhos
no meio do caminho da vida

.

3.

dentro da noite,
pouco antes do presságio,
abrir a porta
definitiva
da floração corporal:

despidos de nós
celebramos por horas
nossa túmida tragédia

.

4.

: quebrou-se o feitiço
como varinha mágica
que gira no ar sem rumo,
rompida a cortiça do sorriso:
o amor um laço que aperta
e asfixia algo que não
se sabe o que é

.

5.

a casa hospeda sombras
atrás das varandas
onde plantas e flores descobrem
cruéis brotos de candor,
enquanto no porão
sílabas de vidro
sugam a luz que virá:

tantas e tantas portas
e nenhuma chave

.