Thaís Gulin revendo amigos

*

por Otávio Campos

                É quinta-feira, 06 de outubro de 2011. O local é o Espaço Sérgio Porto, no Humaitá (Rio de Janeiro), conhecido principalmente pelas performances poéticas lideradas por Chacal no CEP 20.000. O auditório está cheio, o palco está arrumado e, após 30 minutos de atraso, a banda entra no palco. Thaís ainda não sobe, mas o show começa, com a instrumental The Glory Hole. Os acordes fortes, talvez levemente pesados, remetem ora a um frevo, um pouco de tango, e a platéia já começa a ficar hipnotizada. Um show começando sem o cantor poderia não dar muito certo, mas esse não, esse é diferente. A banda mostra que tem personalidade e maturidade o suficiente para não ser somente uma banda que acompanha Thaís Gulin, mas é a banda, indispensável para a cantora. Mantendo o timbre pesado, Thaís entra em cena e “se me der na veneta eu mato” canta Revendo Amigos, composição de Waly Salomão e Jards Macalé (que, por sinal, estava na platéia impaciente com o atraso da moça). Poucos cantam, ninguém fala, ninguém pisca, a jovem dos cabelos cor de abóbora ocupa todos os cantos do auditório com sua voz firme e sua segurança, mesclada com alguns sorrisos tímidos. E lá vai ela, indo, matando, morrendo e voltando pra curtir. Água, música alegre e dançante de Kassin é a próxima e é nessa que a curitibana se joga, gesticula e coloca alguns mais desinibidos para dançar. Depois de uma breve fala, Thais continua sua apresentação com História de Fogo, já conhecida na voz de Otto e que a moça gravou no seu primeiro disco, arrancando alguns risos envergonhados da velha guarda que acompanhava o show, quando entoou “ajoelha, me chupa e agradece”. Tudo muito bem, até a próxima música, Horas Cariocas, composição da própria. Thaís, imperceptivelmente, começa a cantar no tempo errado. Normal, afinal, é algo que pode acontecer com qualquer cantor? O que fazer numa situação como essa? Continuar cantando, é claro, até a banda se acertar e os espectadores nunca perceberão o que aconteceu. Mas Gulin não, Gulin está a vontade, cantando para amigos, mostrando para o Rio de Janeiro um dos melhores discos dos últimos tempos e prefere, sem rodeios, parar a música e recomeçar: “Vamos começar de novo? É que eu entrei na nota errada, mas agora vai”. Honestidade, em primeiro lugar. Talvez seja essa a palavra que melhor descreva o show. Thaís foi honesta desde a composição do disco até a apresentação do mesmo, se desculpando pelo atraso e deixando todos que estavam assistindo confortáveis como ela. A palavra assistir possivelmente não cabe muito bem aqui. Assistir carrega uma carga semântica de passividade e, o que menos a platéia era nesse show, era passiva. Na canção de Tom Zé Ali Sim, Alice, a cantora pediu para todos cantarem junto o sotaqueado “a-hã” que ecoa na música. Cinema Americano (coisa linda), Little Boxes (releitura preguiçosa e simpática da canção de Malvina Reynolds), De Boteco em Boteco (junto de Uemerson, meu uísque, de Nelson Sargento) preenchem linearmente a apresentação. O ápice do show, seguramente, foram as músicas mais conhecidas pela platéia, que entoou com palmas e algumas lágrimas descuidadas: Cama e Mesa, Garoto de Aluguel (gravada também no primeiro disco da cantora) e Augusta. Thaís samba no samba e bebe carnaval pelo Rio de Janeiro e joga esse misto de influências no Sérgio Porto. O dueto gravado com Chico Buarque (no disco de ambos), Se eu soubesse, ganha nesse show uma versão com uma resposta dada pela namorada do maior cantor da MPB, O amor, declaração apaixonada, que a moça fez questão de dizer que era dela. Após a animada ôÔÔôôÔôÔ (faixa título do disco), o show “termina” com outra parceria com Kassin, a magnífica Frevinho. Mas, como é de praxe, palmas e pedidos de “mais um”, Gulin e banda voltam cinco minutos depois, surpreendendo a todos com um bis que, aparentemente seria de Cinema Americano. Aparentemente porque após a primeira estrofe da música, Thaís emenda a animadíssima Big Butts, rebola, sacode e coloca de pé os mais animados. É interessante que, após a música em inglês, Thaís volta pra Cinema Americano¸ terminando com “Prefiro os nossos sambistas…”. Pra fechar de verdade sua apresentação, a retomada de Água levanta mais um pouco de pessoas, e é acompanhada por casais dançando forró/tango/xaxado/não importa o quê.

                No camarim, Thaís bebe com calma sua cerveja. Cercada de pessoas que não param de elogiá-la, a menina (que não aparenta ter mais de 20 anos) mantém um sorriso reluzente nos lábios. Eu e Danilo Lovisi entramos, interrompemos a conversa e ela nos recebe com o mesmo sorriso e com a mesma naturalidade que conversa com os conhecidos. Depois de darmos um exemplar da Um Conto, Thaís tenta fazer a melhor pose pra foto com a revista e nos deixa à vontade, como foi durante o show todo. Conversamos algumas amenidades e somos velhos conhecidos. Percebemos então, que o que Gulin fez no palco, no disco, no Rio, no camarim, foi rever os amigos, todos eles, até os que ela nunca conheceu.

Você pode encontrar o novo disco da Thaís Gulin, ôÔÔôôÔôÔ, para download no site da Discoteca Nacional. E a canção “Água”, no site da cantora.

*A foto que ilustra essa resenha encontra-se no facebook da Thaís.