Fragmentações e deslocamentos: A outra praia, de Gustavo Nielsen

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O premiado autor argentino Gustavo Nielsen aparece pela primeira vez no Brasil em tradução de Henrique Schneider com o vencedor do Clarín de Romance 2010 A outra praia. Possivelmente um dos melhores (quiçá o melhor) romances estrangeiros publicados no país este ano. Certamente, o mais misterioso.

Desde a epígrafe fica claro quem será o protagonista desse romance: “Assim é a fotografia: não sabe dizer o que mostra.” (Roland Barthes). Pois bem, nosso personagem principal é a fotografia. Mas não estamos falando de um livro experimental em fragmentos fotográficos, mas de uma narrativa linear (ou quase) que envolve todos seus personagens ao redor da arte da escrita de luz.

Em um primeiro momento, somos apresentados a dois casais de amigos, que assistem a projeções em slides de fotografias de desconhecidos, o que os leva a inventar histórias sobre a vida daquele homem e daquela mulher presentes nas imagens. Da mesma forma, fazemos nós leitores, tentando desvendar quem são esses que se sentam e discutem sobre registros da vida de estranhos. Descobrimos, no capítulo seguinte, que um dos homens do casal, Antônio, o qual lidera os desdobramentos narrativos, é um fotógrafo profissional que está passando por um momento de crise na sua vida. Não se sente pertencente à própria família. Sua mulher e filha são para ele completamente estranhas e, visando um sentido para sua existência, se refugia na fotografia. Em uma de suas voltas pela cidade, fotografando estranhos, impressiona-se com certa jovem (que, não sabe como, mas tem certeza que seu nome é Lorena) com a qual utiliza praticamente um rolo de negativo. A partir daí a misteriosa moça se torna para ele uma obsessão, colocando-o quase em um surto. Para ajudá-lo nessa crise, seu amigo Zopi o acompanha até uma casa de praia, onde passam uns dias longe de tudo para tentar colocar as coisas no lugar. No entanto, as coisas parecem piorar, pois Antônio sente cada vez mais a necessidade de rever Lorena, intensificando com o sentimento da presença da mesma naquela casa de praia.

Depois de uma conversa profundamente existencial e filosófica entre Antônio e Zopi (de onde podemos retirar a excelente constatação “Aceitar que a pré-cognição existe e aceitar que essa vida já foi vivida.”) o livro se desloca para uma outra constituição narrativa. Perde um pouco seu caráter realista descritivo e flerta com o fantástico. Somos apresentados a outra dimensão e outros personagens: a também fotógrafa Lorena (sim, a que foi fotografada por Antônio) e seu namorado, o escritor de livros de terror, Gustavo. Menos da metade do livro é dedicada a essa “outra” narrativa, que se inicia com o escritor tentando produzir um novo romance na casa de praia. A casa de praia é a mesma de Zopi e Antônio, porém já é outra, visto que se situa em outro tempo e outro espaço. Todavia, Antônio e Gustavo se encontram, o que rompe com todo o sentido da realidade tanto do escritor quanto do fotógrafo. Tal tensão (e confusão na mente do leitor) permeia todos os momentos finais da narrativa e vai se dissolvendo até o derradeiro desfecho, com o encontro físico (ou quase) de Antônio e Lorena (que possuem muito mais ligação do que aquele imaginava) na casa de praia.

Praticamente uma ode à fotografia (o que deixa os leigos, com eu, confusos em momentos que descrevem a prática da revelação dos negativos), no entanto obter apenas essa leitura é algo que empobrece o romance. A outra praia consegue a façanha que nenhum outro livro contemporâneo havia conseguido até então: ser ao mesmo tempo uma narrativa profunda, filosófica e ter aquela pegada de mistério que faz com que o leitor devore o livro atrás de uma “solução”.

Otávio Campos

A outra praia
Gustavo Nielsen (trad. Henrique Schneider)
Dublinense176 páginas

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