Esc #22 – Os ritmos do corpo e do espírito

Uma aproximação à música de Cheikn Lô

CheikhLo-QA-Interview

por Prisca Agustoni*

É com grande felicidade que, no sofrido e demorado percurso de reconhecimento recíproco e de trocas simbólicas entre o continente africano e o continente americano, decorrente de séculos de colonização e escravidão, assistimos ao surgimento de figuras como o músico, filho de senegaleses, porém nascido em Burkina Faso, Cheikh N’Digël Lô, mais conhecido como Cheikh Lô. Um músico que – por ter crescido em uma comunidade culturalmente híbrida e dominando vários idiomas, entre os quais o wolof, o bambara e o francês –, incorpora na sua atividade criativa um vasto painel de influências e de ritmos. Um músico que, por fim, faz do trânsito entre as diferentes culturas que o habitam (musicalmente e geneticamente) desde a infância – ou que ele adquiriu ao longo dos anos – uma maneira de multiplicar os olhares sobre aquilo que ele considera o cerne da sua vida: a essencial interação entre a fé, a vida e a música.

Essa interação se torna evidente ao repararmos no trabalho de pesquisa estética elaborado pelo artista, cuja marca fundamental presente na sua música é a de uma convergência de ritmos e influências plurais a serviço de uma mensagem de profundo cunho espiritual, e aqui entendo a mensagem não apenas na sua acepção mais comum, como “letra” – eu não entendo o bambara ou o wolof, o que não me impediu de perceber o desprender-se de um canto e de uma atmosfera atravessados pela fé.

A fina tessitura entre musicalidades como o souk zairense, o m’balax senegalês, o afro-beat do nigeriano Fela Kuti, a música bambara tradicional do Mali, e ritmos como o flamenco, o reggae, o soul, a guajira cubana e, mais recentemente, a “harmonia da percussão brasileira”[1], faz dos trabalhos de Cheikh Lô um originalíssimo palimpsesto em que múltiplos referentes e signos culturais se sobrepõem, representações em que o ser africano ou afro-descendente implica muito mais na marca registrada no espírito de uma população que sofreu e resistiu, do que nas marcas visíveis na pele. Isto está registrado na homenagem que o músico presta ao seu continente, no último CD Lamp Fall: “O tema do álbum é a África, minha África. Trata-se de um apelo contra a guerra e a pobreza. Mas também em favor do amor, da religião e da espiritualidade”.

Lamp Fall - 2005

Lamp Fall – 2005

Outros elementos presentes na música de Cheikh Lô, que dizem respeito a um espaço simbólico de imaginação e de representação, possibilitam a existência de uma zona “cosmopolita” e fronteiriça que põe em diálogo signos contemporâneos originados em contextos que mantêm ligações com o manancial rítmico do continente africano, o seu embrião, embora tenham se tornado realidades independentes e totalmente “outras”, capazes de interferir nesse rico manancial africano e de constituírem uma fonte de inspiração “às avessas”. É o caso do son cubano, que está na raiz do Bolero Zairense, ritmo que Cheikh identifica como um dos mais importantes na sua formação de músico: “escutava todo tipo de música e em particular o Bolero Zairense, que encontra suas raízes no Son Cubano. A música cubana estava em alta na África ocidental durante os anos cinqüenta, quando meus irmãos maiores começaram a dançar com as namoradas na música de El Pancho Bravo, e eu podia mimar exatamente as letras em espanhol, mas não podia lhe dizer o que significavam”[2].

O caminho que leva esse músico senegalês que idolatra o flautista cubano Ricardo Egües, fundador da Orquestra Aragón, a fazer hoje uma música que integra pitadas de swing à James Brown e a aproximar matrizes africanas tradicionais com ousados arranjos funky, sem nunca perder a marca característica de profunda espiritualidade que atravessa toda sua musica, aliada a mensagens vinculadas ao contexto social africano, tem trilhas próprias, demoradas, silenciosas, trilhas que o levaram a transcorrer períodos no Mali, no Senegal, onde reside atualmente, em Paris, em Londres, em Cuba e, mais recentemente, em Salvador da Bahia, para gravar, junto com os percussionistas do Ilê Aiyê, segmentos do seu álbum mais recente, Lamp Fall. Álbum este que – após a estréia espetacular de Cheikh Lô em 1995 com Né la thiass (produzido por Youssou N’Dour) – em minha opinião, a obra-prima do músico – e após a esperada confirmação internacional obtida em 1999 com Bambay Gueej, apresenta a calma e a maturidade de um artista que chega ao ápice de uma carreira fiel aos seus princípios, capaz de investigar e de se surpreender com outros universos sonoros, se encantar com eles e, o que é fundamental, degluti-los e devolvê-los, disfarçados, no interior da sua música, revelando uma atitude estética muito cara a Oswald de Andrade.

Bombay Gueej - 1999

Bombay Gueej – 1999

O álbum Lamp Fall apresenta uma pluralidade de ritmos que se entrelaçam à maneira das roupas em patchwork que o próprio músico veste, ou dos dreadlocks que contornam seu rosto, como símbolos da fé que ele professa na fraternidade religiosa islâmica Baye Fall. Desta maneira, o ritmo passa a ser considerado como um circuito comunicativo camaleônico, um solo fértil e compartilhado por todos aqueles que nele fazem transitar signos da diáspora negra. Da mesma forma, se a letra continua profundamente vinculada a problemáticas “locais” e a serviço da comunidade – como a fome, a guerra, a religião -, os arranjos, inesperados, tornam-se instrumentos de ruptura, nos quais é possível gravar novos códigos, novos deslocamentos, não relacionados unicamente ao universo simbólico da origem.

Esses deslocamentos provocam zonas de estranhamento e de encantamento, e formam aquilo que o teórico cubano Benítez-Rojo chamou, no que tange à literatura diaspórica, de “máquina especializada para produzir bifurcações e paradoxos” (1998, p.38), esplendorosos paradoxos, acrescento eu, de polirritmia. De fato, parece-me evidente que a polirritmia presente nos álbuns de Cheikh Lô representa a ponte que da África nos traz à América, passando de raspão pela Europa, e permite – por causa desse trânsito – que a África freqüente e se sinta finalmente à vontade em países como Brasil e Cuba.

A música de Cheikh Lô nos prova, uma vez mais, que a África é aquele patchwork de identidades e temporalidades sobrepostas, que fazem da raiz “afro” um elemento extremamente escorregadio – como qualquer conceito que diz respeito à identidade – por ser detentor de muitos rostos e ritmos, tanto nos próprios países africanos, como na sociedade de um Brasil que, mais do que nunca, está à procura da(s) sua(s) identidade(s) provisória(s).

Cheikn Lô

Cheikn Lô

[1] Ver no encarte do mais recente CD, “Lamp Fall”, A World Circuit Production, 2005.

[2] Ver no encarte do CD Bambay Gueej, World Circuit, 1999. A tradução é nossa.

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https://i0.wp.com/www.cronopios.com.br/site/images/iex/junho2011/prisca1.jpg*Prisca Agustoni
 nasceu em Lugano, na Suíça italiana, onde cresceu. Morou em Genebra por muitos anos, para cursar a Faculdade de Letras e Filosofia. Na cidade de Calvino fez teatro, se abriu para o mundo, publicou seus primeiros textos e fincou raízes. Outras raizes ela transplantou para o Brasil, em Juiz de Fora, onde mora desde 2002. Aqui ela trabalha como tradutora, além de se dedicar à escrita poética e narrativa.

– Confira as outras Escolioses de Novembro:

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Um Conto – Edição de Novembro

A edição de novembro já está disponível para leitura online há algum tempo (corre aqui), mas agora vocês poderão conhecer um pouco mais sobre os responsáveis pela nossa décima quarta edição (!), que traz escritos que dialogam entre os quadros usando da prosódia das sutilezas, dos detalhes diminutos, das cores que se transformam no momento em que se dão. Sem mais, ei-los:

ALEX SENS

Alex Sens Fuziy nasceu em Florianópolis em 1988, é escritor e revisor freelancer. Publicou contos e arranhões poéticos em sete coletâneas, resenhas literárias e críticas em revistas e jornais. Atualmente vive no lado mineiro da Serra da Mantiqueira onde escreve seu primeiro romance adulto, cercado por névoas cinzentas, chuvas frias, nove cachorros, tucanos de bico verde, taças de vinho, canecas de chá e pedaços de chocolate amargo. Alex participa dessa edição com um conto.

JOÃO LIMA

João Lima tem 24 anos e é jornalista formado pela PUC-Rio. Tem um livro publicado, a coletânea de poesia Cartilha, e um conto incluído na antologia A polêmica vida do amor, ambos lançados pela editora carioca Oito e Meio. Desde 2010, mantém o blog para folhearJoão participa dessa edição com um poema.

ANDRÉ FOLTRAN

André Foltran é natural de São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Têm crônica publicada no livro “VII Prêmio Valdeck Almeida de Jesus”, poemas nas antologias “II TOC 140 – Os Cem Melhores Poemas do Twitter”, “Versos Soprados Pelos Ventos do Outono”, “O Livro do Amor”, além de vários textos em sites, blogs e revistas literárias. Entre um escrito e outro mantém quase vivo o seu blog Caderno. André participa dessa edição com poemas.

FARLEY ROCHA

Farley Rocha, 1982, é mineiro da cidade de Espera Feliz, no sopé da Serra do Caparaó. É professor de Língua Portuguesa e Literatura, poeta e cronista do site Portal Espera Feliz. Edita a página virtual Palavra Leste e em 2011 publicou em formato bookblog seu primeiro livro de poesias Mariposas ao Redor. Atualmente trabalha em seu próximo livro, Livre Livro Leve, a ser lançado a qualquer momento. Farley participa dessa edição com um poema.

SÉRGIO SANSIL

Sérgio dos Santos Silva é formado em Produção de Vídeo pelo Centro de Ensino Vasco Coutinho em Vila Velha E.S e Pedagogia pela UFES. É poeta, pesquisador acadêmico do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da mesma universidade e roteirista de cinema (curtas e documentários). Trabalha atualmente na rádio universitária FM E.S, Programa Afrodiáspora. Seu trabalho na rádio pode ser conferido, aos domingos (de 16h às 18h), aqui. E sua produção poética, aqui. Participa dessa edição com um poema.

KARLINE BATISTA

Karline Batista quer poetizar o mundo e não mede esforços para isso. Às vezes um de seus versos vão parar em cadernos de amigos, noutras vezes caem na rede ou participam de projetos mirabolantes como exposição em árvores… Vale tudo! Pois o que esta aracatiense lá do Ceará quer mais é espalhar as suas poesias e sua Fênix por aí. Karline volta a colaborar conosco com mais um poema.

Edição virtual: Um Conto 14

Eis mais um número da nossa revista de literatura. Como de praxe, vocês podem ler aqui, no conforto do computador, a mesmíssima edição que está rolando nas ruas. A única diferença, é claro, é que não há o “charme” das nossas dobraduras super originais (haha). Quem quiser adquirir o exemplar impresso é muito simples: basta nos enviar um e-mail solicitando o número desejado, ou, se você é de Juiz de Fora, pode nos procurar na Faculdade de Letras da UFJF e na Livraria A Terceira Margem. O preço continua simbolicamente sendo um real (ou um conto, para os mais chegados).

Nessa edição temos os desenhos de Guilherme Portes, poemas de João Lima, Farley Rocha, Sérgio Sansil, Karline Batista e André Foltran. O conto que dá corpo à A4 vem do nosso primeiro assinante, Alex Sens Fuziy, que orgulhosamente passou de leitor mensal a colaborador mais que bem-vindo.

Então, é isso. Para ler a edição virtual é só clicar na imagem abaixo. Boa leitura.

Esc #21 – O amor como objeto de consumo

Reflexões sobre Amor e Consumo em Sleeping Beauty de Julia Leigh

por Danilo Lovisi

A realidade contemporânea, abarrotada de informações, inovações, e promotora da coisificação do homem e do seu entorno, produz no interior deste ser uma inquietação sem origem evidente. E essa inquietação é, talvez, uma necessidade de preenchimento do vazio construído nessa realidade do excesso, do acúmulo, do desperdício. O sujeito contemporâneo, inserido no meio urbano e numa sociedade capitalista, tem, em sua vida, a necessidade de preencher este vazio, e o faz consumindo algo. Todavia, este consumo não está estritamente relacionado à compra e venda de produtos no mercado capitalista, pois há aqui um consumo da necessidade, que irá prover – ou não – o preenchimento, mesmo que efêmero, deste vazio interior; o preenchimento desta vida escassa. Mas que produtos seriam estes capazes de preencher um vazio, uma necessidade existencial?

Para responder esta pergunta, é interessante trazer à tona as relações do tema trabalhado com o filme Sleeping Beauty (Beleza Adormecida, no Brasil). A história, resumidamente, se consiste na vida de uma bela jovem universitária que, vista numa situação de grande necessidade financeira, passa a trabalhar para uma misteriosa agência, que contrata garotas para satisfazerem desejos velados de clientes de altas classes sociais. À princípio, visto apenas por essa perspectiva superficial, o filme não parece desenvolver questões mais subjetivas e profundas, o que é um engano, pois, no decorrer do enredo, a personagem principal (Lucy), evoluindo de posto, passa a atuar numa função mais restrita, peculiar e intrigante: ela deve tomar um chá especial, que irá fazê-la entrar em sono profundo por algumas horas. Neste interim, os clientes estarão livres para fazer o que desejarem com a jovem, havendo apenas uma regra: não pode existir penetração. E há um cliente que, ao utilizar este serviço, apenas deita na cama para dormir algumas horas ao lado de Lucy. E é aqui que pode se estabelecer uma relação com um conceito mais diferenciado de consumo, pois não há ali uma satisfação carnal: gasta-se e consome-se o momento, não o corpo.

Mas para chegar até este posto, a jovem trabalhou em outras áreas da empresa, como quando atuou servindo jantares, em companhia de várias outras garotas, para senhores da alta sociedade. Porém não se tratava de um serviço comum, visto que todas as garotas trabalhavam seminuas, com vestimentas fora do padrão, e algumas tinham que ficar em posições peculiares, servindo de objetos de voyeurismo. Ora, o preenchimento do vazio inquietante destes senhores provém, então, do estranho, do bizarro, e não do já conhecido e também já escasso – como suas vidas – sexo.

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Esc #20 – Entre quatro paredes

Um papo sobre quartos

 

por Otávio Campos

Acredito que uma das partes mais difíceis em uma mudança é “desmontar” o quarto e erguê-lo de novo em outro ambiente. Como estou às vésperas de uma mudança, comecei a pensar hoje no que fazer com as coisas do meu quarto. Ter que encaixotar os milhares de livros, separar as fotos, arrumar as roupas e, claro, deixar para trás o que já não é mais útil. Pensando nisso, passei a observar mais atentamente o meu quarto e percebi que, de alguma forma, as coisas que eu vim jogando nele durante esses dois anos que estou aqui, se encaixam e possuem uma harmonia engraçada – como um prato verde sobre minha caixa da Tropicália, na frente do meu mural de fotos, que, por sua vez, fica do lado de uma caixa de sapatos, na qual está o LP do Chico sobre e serve de apoio para alguns livros, tudo isso em cima da minha escrivaninha. O resultado é uma bagunça um painel das minhas influências, que se estende pelos demais cantos do pequeno cômodo.  Agora eu já não sei se as coisas que faço e escrevo são reflexo do meu quarto ou se são refletidas na concepção deste.

Nessa perspectiva, passei a analisar, a caráter de curiosidade apenas, os quartos de alguns escritores famosos e vi que o espaço coincidia na maioria das vezes com as obras literárias dos autores. Vejamos só: Virginia Woolf possuía uma quarto que mesclava elementos de “classe”, como uma lareira, com alguns tantos mais “despojados”. Além disso, é cheio de detalhes, com vários livros que a autora encapou com papéis coloridos.

Algumas pessoas afirmam que o quarto de Alexander Masters reflete seu processo de produção. O autor acordava e já começava a escrever. O crocodilo sobre sua cama, além de ser um talismã, serviu para ilustrar a capa de seu livro Stuart: uma vida revista.

O quarto de Henry David Thoreau reflete a mesma humildade simplicidade presentes em seu livro Walden.

Em contraponto, temos esse quarto luxoso, com um vermelho quente e tons escuros, que só podia pertencer a Victor Hugo, claramente influenciado pelo Romantismo.

Por último, tem esse quarto simples que pede um aconchego, do Mário Quintana.

Enquanto procurava por essas coisas, encontrei o site Writers’ House, que mostra não apenas o quarto, mas a casa toda de diversos escritores, desde Agatha Christie a Fernando Pessoa.

Bom, a dúvida continua a mesma: o quarto influencia na escrita ou a escrita influencia no quarto? Creio que na segunda começo a colocar as minhas coisas nas caixas e desmontar esse meu retrato que veio se formando nesses anos. A forma que ele vai tomar na minha casa nova pode ser bem parecida com essa ou destoar totalmente. Não sei, mas acho que observando a concepção do meu “lar” desde o início posso encontrar essa resposta. Quem sabe, ficar dormindo com um olho aberto e perceber as coisas, magicamente, se encaixando e reconstruindo o painel.