Esc #26 – escoliose

desolationpor Sérgio Tavares

não há nada mais patético, para um homem de cinquenta anos, do que bater uma punheta. talvez apenas se esse homem for casado. quando um homem decide se casar, ele faz um pacto consigo de que não precisará recorrer à autoinduções para obter prazer; é o encerramento dos vícios da adolescência. o casamento é a complicação do gozo, pois se confere à execução de dois o que pode ser bem-feito solitariamente. a questão é que não é um ato compulsório. eis a minha sugestão, portanto: durante a cerimônia, quando o padre discorre sobre as obrigações do matrimônio, o impedimento da punheta deveria estar entre o ser eternamente fiel e o altruísmo. não há nada mais leal. a permissão do sexo é a peculiaridade do casamento. é o que o distingue do namoro e do noivado, com seus estranhamentos e negociações. na verdade, é tão óbvio que sequer está no contrato nupcial. o grande problema é que, só algum tempo depois de assinado, é que se descobre que é um contrato extinto. desculpe-me as comparações medonhas, mas sou um advogado com um pau flácido na palma da mão.

estar casado há vinte e oito anos é um exercício do qual se lembra, mas não o corpo não consegue se entender com a vontade. e isso não é mau. a vida passa a ser mais prosaica, encadeada por tarefas reprisadas, sem a obrigação de conceder ao outro as suas escolhas. a desistência entre duas pessoas é um dos atos mais saudáveis. o terrível é o sexo. tentar competir a necessidade de ejacular contra a falta de inspiração. com o tempo, o sexo deixa de ser um acordo, para ir se tornando um jogo que requer a disposição do oponente, até a anuência atingir o valor de algo exótico, inusitado, uma viagem planejada durante muito tempo para o lugar mais próximo do mundo. às vezes, acontece de se chegar lá. o triste é descobrir que, a cada incursão, nada é o mesmo, que o cenário vai sendo falido por um tipo de fenômeno polar.

então estou sentado na ponta do vaso, com o pau na mão, cogitando tocar uma punheta. é quase meia-noite e, depois de circular o dia inteiro por cartórios e fóruns, não me resta energia para fantasias de alto de nível. espremo o pau, pensando na minha esposa. não o casca que restou, e sim a mulher de outrora: fogosa, que fazia um espetacular boquete e valorizava as preliminares. estou forçando a mente faz alguns minutos, e parece não está dando resultado. eu poderia trazer escondido uma revistinha, mas, se já não me motiva a punheta, estou velho demais para agir clandestinamente. apago tudo. desocupo a mão, a enfio debaixo da bunda e espero até não sentir mais o fluxo do sangue. com os dedos dormentes, volto a envolver o pau e começo a perseguir uma série de mulheres que gostaria de estar comendo agora. tento a rua, a padaria onde tomo café, mas acabo no escritório. alguma advogada, as recepcionistas, a copeira não, porra… a estagiária, sim a estagiária! vinte aninhos, pernas lisas trabalhadas em halteres, a pele dourada em sessões praianas. bunda durinha, seios fartos moldados no tecido fino da blusa social, acusando o frio do ar-condicionado. foda-se, se ela é filha do Humberto! penso na estagiária e começa a funcionar.

esgano a cabeça do pau, me valendo do restante da sensação de dormência, e fricciono pele contra pele, para cima e para baixo. isso, minha filha, senta aqui ao meu lado, que quero lhe mostrar uma coisa, vai, pega! isso, para cima e para baixo. as mãos pequenas e amáveis da estagiária fazem com que, tão logo, ela tenha um dínamo entre os dedos, um vulcão prestes a irromper. estou tão duro, que o pau empina além da circunferência da barriga. continuo. a cena se desenvolve numa ordem aleatória de idas e vindas na minha cabeça. quando parece estar no fim, os fatos voltam para um momento que não existia. fecho os olhos, já não existe o banheiro. sinto os espasmos, a quentura na pélvis. sinto o fluxo e me inclino para ampará-lo com uma tira de papel higiênico, quando um ferrão incandescente me penetra no meio das costas, travando o corpo. feito um manequim desabo no chão, incapaz de me erguer. torto, espero o pau murchar e grito socorro.

escoliose, aponta para as folhas de raio-X presas num painel luminoso. estamos separados por uma mesa de carvalho, grande no peso e na idade. sobre o tampo, a miniatura de uma coluna espinhal traz o logotipo de um laboratório farmacêutico na base. as paredes estão enfeitadas com imagens emolduras de vértebras e diplomas desenhados por letras cursivas douradas. do outro lado, o ortopedista. um sujeito baixo e acima do peso, cavanhaque bem cuidado e cheiro de alfazema. você nunca sentiu dores antes? Continuar lendo

Da arte das armadilhas, de Ana Martins Marques

A poesia contemporânea brasileira vem passando por uma fase promissora (pelo menos acreditamos) e revela diariamente nomes que vêm surgindo na internet e publicados por pequenas editoras. O mais interessante nessa nova jogada é que (de uma forma ou de outra) as publicações e consequentes reverberações fogem do fixo eixo Rio – São Paulo. É o caso da poeta Ana Martins Marques, vencedora por duas vezes do prêmio Cidade de Belo Horizonte de Literatura, que estreou no mercado editorial com seus poemas premiados no livro A vida submarina (Scriptum, 2009). A repercussão de seu primeiro trabalho chamou a atenção do poeta Armando Freitas Filho e expôs Ana aos holofotes do mundo das letras.

Em seu segundo trabalho, Da arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011), Marques retoma alguns temas do livro anterior e se mostra capaz de suportar as expectativas depositadas nela ao longo dos anos. Da arte é um daqueles livros que não se pode ler deitado: talvez sentado, mas às vezes é inevitável dar um pulo, um soco no joelho e gritar: é isso! A mineira dispõe em versos a honesta poesia sentimental contemporânea, que passa por assuntos como abandono, solidão e observações íntimas – como é o caso da primeira parte do livro: “Interiores”, na qual há um movimento duplo de internalização do meio (no caso, a casa e seus arredores) e exteriorização do eu. Pode-se observar este movimento nos poemas que se seguem:

CÔMODA

E dela
o que restou
senão
sobre a cômoda
um par de brincos
que talvez não sejam dela?

TORNEIRA

Quem abre a torneira
convida a entrar
o lago
o rio
o mar

VARAL

Suas camisas
colorem
o vento

*

Seus jeans
atualizam
a paisagem

*

Sua camisa branca
rendida
com
ao fundo
a noite
ampla

“Da arte das armadilhas”, segunda seção do livro, parece manter esse mesmo eu, que agora já busca outros espaços de composição poética, como a mitologia (em poemas como Carta a Safo, Mitológicas, Ícaro (1) e (2) e Penélope). Observa-se poemas já mais preocupados com a forma, que beiram uma metapoesia, mas ainda passando pelo corpo e suas insinuações:

A descoberta do mundo

Procuro alcançar-te
com palavras
com palavras
conhecer-te

como quem
com uma lanterna e um mapa
crê empreender
a descoberta do mundo

levanto-me
estou sozinha no escuro
com dois pés
no cimento frio

(onde estás
no que escrevi?)

A linguagem simples e acessível ajuda na retirada da poesia do pedestal hermético no qual esteve por tanto tempo mantida. Ler os poemas de Ana Martins Marques assemelha-se (até certo ponto) à leitura de uma prosa bem colocada, disposta em versos, mas com uma apuração “teórica” e formal capaz de inseri-la (com excelência) no universo lírico. A máscara vestida nesse livro (ou talvez persona, visto que parece ser um mesmo personagem que se deixa mostrar em todas as páginas) é uma espécie de Penélope (citada diversas vezes, da mesma forma que em A vida submarina) que, cansada de esperar também sai para ver:

Três postais

AMAZONAS

O mundo cheio
vazio

À beira da água
as núpcias da anta
e da vitória-régia

Peixe luminoso
água escura

Na primeira parada do barco
um enxame
de crianças antigas

SÃO PAULO

Depois de um tempo
todas as coisas ficam marcadas
como se estivessem
impregnadas de veneno

Há um tempo em que os lugares
são limpos e novos
abertos como clareiras
mas já não é este o tempo

Sobre cada lugar se sobrepõe
a experiência do lugar
como um selo
num cartão postal

Por exemplo
hoje sempre que sobrevoo
São Paulo
penso que em algum apartamento
desta cidade interminável
você
fumando
de óculos
exerce seu direito
inalienável
de não mais pensar
em mim

BELO HORIZONTE

[1]

Um dia vou aprender a partir
vou partir
como quem fica

[2]
Um dia vou aprender a ficar
vou ficar
como quem parte

Mas ainda é a mesma que fica, na tensão de um Odisseu que pode ou não voltar, confundindo entre poemas lembranças e perda.

Cinema

Encontramos na rua
uma fileira de cadeiras
de um velho cinema
levamos para casa
colocamos na varanda
passamos toda a tarde
bebendo e fumando
assistindo passar
um dia qualquer

 

A partilha
……………………d’après Joan Brossa, Pequena apoteose

Eu
e você

ao menos este poema
dividimos
meio a meio

Otávio Campos

  • Da arte das armadilhas
  • Ana Martins Marques
  • Companhia das Letras, 2011, 86 páginas

Um Conto 17

Já está nas ruas nossa edição de número 17. Publicada no fim de abril, a nova Um Conto conta (trocadilho infeliz) com os poemas de Cinta Moraes, Iago Passos, Nuno Rau, Anderson Pires da Silva Otávio Ferreira. O conto é de Ana Maria Vasconcelos e as ilustrações são de Géssica Leine.

Percebe-se, nessa edição, uma aproximação semântica de quase todos os quadros, passando, principalmente pelo amor e sua concretização. Está curioso? Para ler nossa edição online é só clicar na imagem abaixo. Agora, se você quer ter a experiência de desdobrar e ler sua própria Um Conto, você pode ir até a livraria A Terceira Margem e adquirir seu exemplar. Se você não é de Juiz de Fora, pode no enviar um e-mail (revistaumconto@gmail.com) que mandamos para você esta maravilha em forma de zine.

Boa leitura.

Um Conto 17