Um Conto Indica: Dom La Nena

dom et le soleil
Um Conto Indica (ou UCI, para os íntimos) finalmente voltou e trazemos pra vocês, nossos leitores imaginários, uma moça ainda não muito conhecida aqui no Brasil, mas que vem recebendo comentários mui buenos em outros países. Dom La Nena é violoncelista, é compositora, é brasileira e é de Porto Alegre, mas tem em sua formação pessoal e artística vivências em tantos outros países que suas identificações de origem geográfica e cultural são, de fato, mutáveis.

E esse desapego geográfico aparece na canção “No meu país”, do seu disco de estreia, Ela, já lançado na Europa e EUA mas não ainda por aqui (está previsto para julho). “Não venho daqui, não venho de lá/ Não venho de nenhum lugar”, sussurra Dom nos nossos ouvidos, acompanhada de simples acordes de piano, violão e, claro, cello. A letra (bem simples) e o clipe, (também simples, e que você verá logo aqui abaixo) juntos, formam uma espécie de cartão postal saudoso, descrevendo que “no meu país/ se é feliz” e que “os homens são de qualquer cor”. Esse cartão, enviado para um amigo que ficou na Europa, mesmo que super romântico, é sincero.

Sinceridade esta que, em entrevista ao Jornal Zero Hora, Dominique reconhece: “Minha música também termina sendo uma mistura de todos esses países e gêneros musicais juntos, por isso também é difícil para mim catalogá-la em música “world”, “brasileira” ou “folk”. Penso que a principal qualidade do disco é que ele é sincero, sem ser fake, sem tentar imitar”, – conclui.

http://www.domlanena.com/

Esc #25: A presença na ausência

escnão é
a falta
nem
a existência

é a
presença
na
ausência.

Larissa Andrioli – “Negação”

Uma das coisas que sempre me chamou mais atenção na ficção literária, sem dúvida, foi a constituição dos personagens. Mais do que a própria trama em si, eles são o que há de mais intrigante e fascinante na literatura. Como agem, como são descritos, se têm nome ou não, como eles se mantêm (ou não) dentro de seu universo particular criado, como interagem entre si, etc. Por outro lado, este interesse está profundamente ligado ao que eu penso do trabalho do autor. Ou seja, ver como o escritor pensa e age para criar os mais inusitados tipos de personas e se elas funcionam bem ou não dentro da história ou da trama. Ultimamente, venho me interessando mais profundamente por um tipo nada usual: a personagem ausente.

Se eu me referir aqui sobre um Nick Carraway poucos devem se lembrar do livro em que ele aparece e é protagonista. Porém, se eu disser sobre Gatsby, tenho certeza que todos vão saber que estou dizendo sobre o romance O grande Gatsby, mesmo sendo o narrador e um dos protagonistas o tal Nick Carraway. Tudo bem que isso se deve ao fato de Gatsby já aparecer logo no título do romance, demonstrando sua importância dentro do mesmo. Mas, se formos pensar, é Nick quem está consco desde o primeiro momento. São as ações dele que são descritas, aparecendo Gatsby apenas já decorrido mais de um terço do livro. Me refiro à presença física, pois as primeiras palavras do narrador já mencionam Gatsby – por isso o personagem é tão importante. O que temos é a construção da personagem ausente, uma boa sacada do Fitzgerald para criar o clima de tensão e suspense em torno do personagem título do livro.

O que constitui, afinal, o personagem ausente? Carol Bensimon elencou essas seis categorias:

a) A personagem ausente é constantemente referida pelas outras personagens.

b) A personagem ausente pode ser evocada através de objetos, como fotografias.

c) A personagem ausente é parte da história, mas não da trama.

d) A personagem ausente não está em cenas, mas está em sumários.

e) A personagem ausente não age, mas sua ausência motiva os outros personagens a agirem.

f) A personagem ausente, portanto, faz parte do conflito da narrativa.

Pensando nisso, e levando ao extremo a ausência-parcial produzida por Fitzgerald, a autora construiu Antônia, protagonista de Sinuca embaixo d’água, morta em um acidente de carro e, portanto, ausente durante toda a trama. O irmão Camilo, o amigo Bernardo o dono do bar frequentado pela jovem, Polaco, são os principais responsáveis por manter Antônia presente durante toda a trama. Sua morte e a maneira como as pessoas ao seu redor lidam com ela é o que move o conflito da trama.

A ausência da personagem não leva, como se pode pensar, ao esvaziamento de sentido das relações. Há durante toda a trama uma produção de sentido dentre tal ausência que resulta em uma produção de presença. O movimento de retirada da personagem e a percepção disso pelos outros, configura o deslocamento de um objeto que, por ser percebido e causar a ausência, é colocado na posição de matéria (ou seja, resulta em presença). O mesmo efeito pode-se notar com a personagem Jingle Jangle do livro/filme/movimento Os famosos e os duendes da morte, de Ismael Caneppele e Esmir Filho. Os personagens vivem tentando se equilibrar no mundo após a morte da protagonista. A não aceitação desse fato e a procura do sentido são as responsáveis pela bela frase (clichê do filme): “Estar perto não é físico”. E a produção de presença atinge um limite que ultrapassa o livro ou o filme, mas chega até nós, seja pelo flickr ou pelo canal do youtube de Jingle Jangle.

Jingle Jangle, a personagem ausente de Os famosos e os duendes da morte

Jingle Jangle, a personagem ausente de Os famosos e os duendes da morte

O que move a constituição dessas tramas não é, portanto, uma presença, mas o sentimento da falta. As personagens, mesmo ausentes, continuam ali, porque fazem parte não da trama, mas da história. E aí vem a parte mais interessante: como fazer com que os outros personagens sejam responsáveis por construir este protagonista? Aí entra meu fascínio, o escritor se coloca num jogo em que deve dividir a autoria de um personagem a outros criados por ele mesmo. Desse modo, a personagem ausente, nada mais é do que um personagem, dentro da própria narrativa. Quase um personagem dentro do personagem. Confiamos não nele, mas nos papéis que deixou para trás, nas fotografias em que ele aparece, no livro que ele sublinhou e na presença que ele tem sobre os outros personagens.

É perceptível que esse meu fascínio não é assim tão simples e vai muito além da passividade de observar um personagem moldando o outro. Nós, leitores, entramos nesse jogo, tomando parte da falta e construindo, também, essa presença na ausência. 

Da 16ª edição: indicações literárias

franco

As usual (ui), pedimos sempre aos colaboradores das edições da Um Conto algumas indicações literárias para seus possíveis leitores imaginários. Abaixo vão algumas delas (bem sucintas, aliás) que vão de Hermann Hesse a Kafka! E como fazíamos antes, linkamos (no título das obras) os melhores preços. Boa leitura, folks!

hesseMirianne S. indica O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse: “Um jogo do qual um grupo fechado de intelectuais participa. Não, não se trata apenas disso o livro de Hesse. Vislumbra uma dada comunidade, sintetiza-a em reflexões contínuas e depois começa tudo de novo. O resultado é uma colcha de retalhos e apontamentos sobre intelectualidades, espiritualidade e a inter-relação entre matemática, música e filosofia. Cabe ali algum universo.”

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Edson Bueno de Camargo indica Cabalísticos, de… Edson Bueno de Camargo, e se justifica: “(…) se não for cabotinismo de minha parte, meu último livro.”

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prosa-do-observatorio-julio-cortazar_MLB-O-166751754_1565 Carla Diacov indica Prosa do Observatório, de Júlio Cortázar, e é sucinta quanto aos motivos: ” (…) na minha opinião, inclusive pelo título, dispensa qualquer comentário sobre.”

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 Marcus Vin G indica Walt Disney – O Triunfo da Imaginação Americana, de Neal Gabler, e é direto: “apenas genial.”

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A Metamorfose Anelise Freitas indica A Metamorfose, de Kafka: “muita filosofia e sociologia em poucas páginas.”

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O_SILENCIO_TANGE_O_SINO_1300360504P Danilo Lovisi indica O silêncio tange o sino, de Mariana Botelho: “Porque o livro tange, feito um sino inerte, dentro de mim. Sempre. “

Um Conto – 16ª edição

Foto: Anelise Freitas

Foto: Anelise Freitas

Nossa décima-sexta edição já está nas ruas e agora vocês conferem um pouco sobre a vida e obra (ui) dos colaboradores desse mês. Temos desde escritos vindos de terras lusitanas à poemas produzidos em contextos nômades, sem contar nos que vieram de cidades mil pelo Brasil (rimou, ui). Além disso, clicando na imagem acima (ou aqui) vocês podem ler a edição na íntegra e compartilhá-la pelas interwebs.

EDSON BUENO DE CAMARGO

edson bueno

Edson Bueno de Camargo – Santo André – SP, 1962, mora  em Mauá – SP. Poeta, pedagogo, fotógrafo extemporâneo e entusiasta de arte-postal.  Publicou: cabalísticos Orpheu – Editora Multifoco – Rio de Janeiro – 2010; De Lembranças & Fórmulas Mágicas, Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2007; O Mapa do Abismo e Outros Poemas, Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2006,  Poemas do Século Passado-1982-2000, participou de algumas antologias poéticas e publicações literárias diversas: Babel Poética, Zunai, Germina, Meiotom, Confraria do Vento,  O Casulo, Celuzlose, entre outras.  http://umalagartadefogo.blogspot.com

MARCUS VIN G

markus

Paulistano, 22 anos, louco por animações vintages e terror

GIL T. SOUSA

Gil T. Sousa (1957) nasceu e reside  em Vila Nova de Gaia e é Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Jornalismo do Porto. Escreveu: poemas (2001) e falso lugar (2004) e água-forte (2007) edições privadas do autor. Nos anos 90 participou em leituras públicas de poesia, 4.ªs-feiras do pinguim café no Porto e na Casa Fernando Pessoa em Lisboa, no âmbito dos encontros promovidos pelo canal de poesia de irc do qual foi um dos fundadores. É autor dos blogues: poesia, falso lugar e exercícios de esquecimento, onde escreve e divulga poesia regularmente desde 2004.

CARLA DIACOV

carla diacov

sou carla diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci (09/04/1975) e moro em São Bernardo do Campo e brinquei na praça-dos-meninos. morei a Londrina e ela a mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de forma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. babando.

MIRIANNE S.

mirianne

Mirianne mora e trabalha temporariamente em um navio de cruzeiro. Fica correndo pra lá e pra cá em um buffet, junto de indonesianos, indianos, italianos, brasileiros, etc. Nas raras horas vagas, lê um livro de cabeceira com contos clássicos ingleses até o sono vir. É formada em Psicologia e dona do blog O Céu É Vermelho. Contribuiu com um poema no Coletivo Declame Para Drummond 2012. Gosta de massas.

 ANELISE FREITAS

anelise freitas

Anelise Freitas nasceu na cidade mineira de Lima Duarte. Reside em Juiz de Fora/MG desde 2007 e acumula conhecimento sobre a cidade desde 2004. Publicitária por formação, poeta e graduanda do curso de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora/UFJF. Nascida em 87, sob o signo de sagitário, já publicou em periódicos como o Caderno Encontrare, jornal Plástico Bolha e revista Um Conto. Editou e redigiu durante um ano O Jornal, publicação independente, divulgada em Lima Duarte/MG. Em 2011lançou seu primeiro livro Vaca contemplativa em terreno baldio (Aquela Editora), com poemas do blog homônimo;  expôs seus poemas no IV Festival Mulheres no Volante e participou, como convidada, da mesa redonda da  IV Semana de Letras da UFJF, ao lado dos poetas Lucas Viriato e Nicolas Behr. Em 2012 participou da Exposição de Poesias do Dia Internacional das Mulheres, promovida pelo Coletivo Maria Maria/UFJF e ministrou a Oficina de Criação Literária, no V Festival Mulheres no Volante. Desde 2010 é uma das organizadoras do evento ECO – Performances Poéticas, que acontece há cinco anos na cidade de Juiz de Fora/MG, promovendo encontros mensais entre poetas consagrados, novos escritores e o público.

DANILO LOVISI

danilo lovisi

Danilo Lovisi nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1991. Ainda não morreu. É graduando em Letras e coedita o zine/blog literário Um Conto desde meados de 2011. Não tem livros publicados mas costuma fazer, vez ou outra, sua Chaleira Muda falar. Recebe cartas no endereço lovisi.danilo@gmail.com

Um Conto 16

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Depois de um breve recesso, voltamos às nossas atividades normais com uma edição linda, tanto no formato quanto no conteúdo. Pra você que ainda não leu, já adiantamos que é aquele número de te fazer sentir em casa. Como poetas “convidados”  temos Edson Bueno de Camargo, Gil T. Souza, Carla Diacov e Mirianne S. O Quadro VI e o Conto que dá corpo à essa edição são para marcar território e mostrar que a gente não apenas lê, mas também sabe fazer boa literatura. Respectivamente pertencem à Anelise Freitas, que já é quase um membro da nossa equipe (e comenta sobre sua participação nessa edição e as motivações do poema aqui), e ao Danilo Lovisi, que todo mundo tá cansado de saber quem é, mas que só agora nos deu a oportunidade de conferir suas produções em prosa. A ilustração que aparece na capa e no Quadro II foi gentilmente cedida pelo ilustrador e design Saint Markus (dê uma conferida no trabalho dele aqui) para dar esse tom tão… tão… esse tom bacana à revista.

Enfim, chega de conversa e vamos conferir a maravilha que está esse número. Como? Você pode adquirir um exemplar físico da revista nos enviando um e-mail que mandamos para qualquer parte do Brasil. Se você for de Juiz de Fora, pode nos encontrar na Livraria A Terceira Margem ou em uma banquinha na noite (que divulgamos com antecedência na nossa fanpage). Agora, se você quer ler no “conforto” do computador, sem o charme das dobraduras, é só clicar na imagem abaixo.  Boa viagem.

edição 16