O milagre da poesia juizforana

Anelise Freitas entrevista Iacyr Anderson Freitas

Iacyr Anderson Freitas salienta “que Juiz de Fora tem uma tradição poética vigorosa”, pra logo em seguida completar, afirmando como essa tradição se pautou em “um verdadeiro milagre”, já que “efetivamente esse patrimônio” nunca foi reconhecido. O poeta nasceu em Patrocínio do Muriaé (MG) em 1963. Entre seus livros publicados encontramos poesia, ensaio e contos. Já concorreu a vários prêmios literários de importância nacional e no exterior; sua obra também foi traduzida para diversas línguas. Seu último livro, Ar de Arestas (Escrituras; Funalfa, 2013), figurou entre os vinte e dois livros mais votados do ano no Portugal Telecom, um dos maiores prêmios de literatura em língua portuguesa. O poeta repetiu o feito de 2008, quando Quaradouro (Nankin Editorial; Funalfa, 2007) ficou entre os doze títulos mais votados no mesmo prêmio.

O escritor também falou a Um Conto sobre a poesia feita em Juiz de Fora, durante os anos 80, quando publicações como o folheto Abre Alas e a revista D´Lira agitavam a cena poética da cidade (poética no sentindo mais amplo, pois coabitavam artistas variados). Com o mesmo carinho do poeta Iacyr Anderson Freitas convido vocês a lerem a entrevista que segue abaixo:

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Quando falamos sobre a geração de poetas dos anos 80 (principalmente no que tange ao folheto Abre Alas e à revista D´Lira), em Juiz de Fora, seu nome é constantemente lembrado. Entretanto, em outra entrevista, você alega não saber “tecer qualquer comentário equilibrado sobre o que se passou na cidade naquele período”. Portanto, mesmo que de maneira desequilibrada, gostaria de saber como você define a sua participação naquele momento marcante para a poesia local.

Eu não consigo definir minha participação naquele momento. Aliás, creio que a vida é mesmo infensa a definições. Como sempre digo nos cursos que ministro, matamos o que definimos. Talvez felizmente. Retomando o fio da meada: participei dos conselhos editoriais da revista d’lira e do folheto abre alas, mas confesso que não tive como me dedicar muito às tarefas de edição. Perto dos trabalhos desenvolvidos pelo Zé Santos e pelo Mutum (o falecido José Henrique da Cruz), por exemplo, a minha contribuição efetiva era uma equação cujo resultado tendia a zero. Na época, eu cursava Engenharia Civil na UFJF, tendo aulas de segunda a sábado, as mais das vezes das sete da matina às seis da tarde. Durante um bom tempo fui Diretor de Cultura do DCE e me dediquei, ainda, à militância estudantil. A ditadura militar estava nos estertores – como o próprio país, aliás – e ninguém imaginava como a situação política brasileira poderia superar, sem sequelas, quase vinte anos de repressão e descalabro. De quebra, eu lutava muito, financeiramente falando, para me manter em Juiz de Fora, pois meus pais não tinham recursos e a carga horária da UFJF não me permitia trabalhar. Passando esse período a limpo, mais de trinta anos depois, vejo que tudo ali foi muito fértil e rico, mas também muito difícil. Por conta de todas essas dificuldades, minha participação naquele momento em Juiz de Fora, seja como poeta ou editor, foi muito modesta. Continuar lendo

Um Conto | Edição 20

02

carta encontrada num sebo de estrada. se é que existem, os sebos de estrada.

prefiro observá-los, daqui, ao invés de ler o que escrevem: há tanto poema na nesga de sol que toca os óculos daquele homem, no rodar o anel daquela, nos sete degraus que seguram o chão dos pés d’um outro ali. daqui detrás das estantes desse sebo – e do alto das minhas olheiras, faço silêncio: foram tantos os que partiram esse mês. não é abril, nem fevereiro, muito menos agosto o mais cruel dos meses, como ouço falarem: é que acontece, às vezes, partir. eu mesmo, toda noite, parto. mas antes observo Ernesto no seu jardim de sombras. elas giram, em círculos, as sombras. daqui jogo pedras que somem na queda, silenciosamente. não rebatem na grama, no rio ou no chão: do momento onde não mais me pertencem, são breu. não percebo e não quero perceber os limites entre meu corpo e a pedra, que, de propósito, deixo cair (e não ouço, nunca, o baque). não leio, como disse, nem escrevo: porém anoto o que mais escuto e vejo. ter vem sendo uma palavra muito maior do que ser. e ser, sem repetições diárias, tem sido difícil. quando imagino que dos meus sapatos reverberam círculos feito pedra caída no lago (sem baque), tento respirar o máximo que posso antes que o ar termine quando o círculo imaginário tocar os limites da cidade, do país e dessa pedra flutuante que chamamos terra. feito Lino, o peixe de Patrícia, treinando respiração dentro d’água, eu vivo. no limite do verbo e o que dele, no fim, sobra, procuro a presença. mesmo que sintética, apertada como um torniquete úmido de sangue; mesmo que resumida, assisto. assisto a esse filme procurando por ela, a vida, ou por uma nesga, um baque surdo. daqui não escrevo, não leio. daqui recuo. e observo o que escrevem (principalmente quando não o fazem).

Danilo Lovisi

Paris, 20 de Agosto de 2014

*

Participaram da Um Conto – Revista de Literatura, n.20, Agosto de 2014, Danilo Lovisi, Laura Assis e Otávio Campos, no Conselho Editorial. Com poemas de Ernesto von Artixzffski, Bruna Werneck, Luca Argel, Patrícia Lino e Paulo Henriques Britto. Conto de Daniela Lima e ilustrações de Marianna Arcuri. As fotografias, na versão digital, são de Ana Clara Nunes Roberti. A revisão e arte final (versão física) são de Anelise Freitas.

Para ler a versão digital da revista, clique na imagem da capa abaixo. Para baixar o arquivo em .pdf, clique aqui.

A versão física será distribuída em breve e atualizaremos com o endereço dos locais onde estará disponível.

capa2

Poemas de Anelise Freitas

Anelise Freitas estuda Letras na Universidade Federal de Juiz de Fora. Publicou os livros Vaca contemplativa em terreno baldio e O tal setembro. É uma das organizadoras do Eco Performances Poéticas e fundadora do movimento/revista/blog Os 4 Mambembes. Ultimamente tenta voltar para casa, pelo menos em versos, enquanto constrói o conceito e escreve seu terceiro livro, com título provisório de sozé.

Abaixo, 4  poemas inéditos:

o poema #01

       queimar
a matéria
que não líquida
nem sólida
……arder

zôrei
aqui não é lugar
pra ficar vai longe se
retirando daqui
amanhã bem cedo para
de chamar

(um sopro de-
forma o fogo)

antes de apagar
passar os dedos sem
queimar
a matéria da chama
que não líquida
nem sólida
zôrei

*

o poema #02

where do the dreams of babies go
‘cause you know they’re all so good
and they’re also gone so fast

: começa, e eu nem tirei a blusa
a minha cabeça se enterra
e a sua bunda movendo pra frente

digo que preciso chorar enquanto
penso de pernas abertas
em como aquela canção vai terminar

e choro e você põe fora
pra gozar

*

​o agora

that hallowed be thy name
porque é difícil estar
sempre um passo atrás
do rabo, quem julga
(?), por fim, o que é sagrado

never say that name in vain
because todo mundo vai
estar atrás, e é você mesmo que diz
balançando a voz
(!): a briga não é parada

want to touch the skin
mas espera lá, vê bem:
só vale a pena quando é de verdade
mamãe te diz e eu falo grosso
(.) tom de pele não faz vigor

will hurt, baby: and anybody cares
que o rio volta na chuva
e a boca está bem perto
do rabo (;) aperta o passo, alonga
a língua e toca​

*

o babalawo

òsùmàrè
òsùmàrè
seis meses homem
seis meses mulher
òsùmàrè

na ponta do pé,
balança a serpente
òsùmàrè
òsùmàrè
búzios coloridos
òsùmàrè

seis meses homem
seis meses mulher

Um Conto – 16ª edição

Foto: Anelise Freitas

Foto: Anelise Freitas

Nossa décima-sexta edição já está nas ruas e agora vocês conferem um pouco sobre a vida e obra (ui) dos colaboradores desse mês. Temos desde escritos vindos de terras lusitanas à poemas produzidos em contextos nômades, sem contar nos que vieram de cidades mil pelo Brasil (rimou, ui). Além disso, clicando na imagem acima (ou aqui) vocês podem ler a edição na íntegra e compartilhá-la pelas interwebs.

EDSON BUENO DE CAMARGO

edson bueno

Edson Bueno de Camargo – Santo André – SP, 1962, mora  em Mauá – SP. Poeta, pedagogo, fotógrafo extemporâneo e entusiasta de arte-postal.  Publicou: cabalísticos Orpheu – Editora Multifoco – Rio de Janeiro – 2010; De Lembranças & Fórmulas Mágicas, Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2007; O Mapa do Abismo e Outros Poemas, Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2006,  Poemas do Século Passado-1982-2000, participou de algumas antologias poéticas e publicações literárias diversas: Babel Poética, Zunai, Germina, Meiotom, Confraria do Vento,  O Casulo, Celuzlose, entre outras.  http://umalagartadefogo.blogspot.com

MARCUS VIN G

markus

Paulistano, 22 anos, louco por animações vintages e terror

GIL T. SOUSA

Gil T. Sousa (1957) nasceu e reside  em Vila Nova de Gaia e é Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Jornalismo do Porto. Escreveu: poemas (2001) e falso lugar (2004) e água-forte (2007) edições privadas do autor. Nos anos 90 participou em leituras públicas de poesia, 4.ªs-feiras do pinguim café no Porto e na Casa Fernando Pessoa em Lisboa, no âmbito dos encontros promovidos pelo canal de poesia de irc do qual foi um dos fundadores. É autor dos blogues: poesia, falso lugar e exercícios de esquecimento, onde escreve e divulga poesia regularmente desde 2004.

CARLA DIACOV

carla diacov

sou carla diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci (09/04/1975) e moro em São Bernardo do Campo e brinquei na praça-dos-meninos. morei a Londrina e ela a mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de forma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. babando.

MIRIANNE S.

mirianne

Mirianne mora e trabalha temporariamente em um navio de cruzeiro. Fica correndo pra lá e pra cá em um buffet, junto de indonesianos, indianos, italianos, brasileiros, etc. Nas raras horas vagas, lê um livro de cabeceira com contos clássicos ingleses até o sono vir. É formada em Psicologia e dona do blog O Céu É Vermelho. Contribuiu com um poema no Coletivo Declame Para Drummond 2012. Gosta de massas.

 ANELISE FREITAS

anelise freitas

Anelise Freitas nasceu na cidade mineira de Lima Duarte. Reside em Juiz de Fora/MG desde 2007 e acumula conhecimento sobre a cidade desde 2004. Publicitária por formação, poeta e graduanda do curso de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora/UFJF. Nascida em 87, sob o signo de sagitário, já publicou em periódicos como o Caderno Encontrare, jornal Plástico Bolha e revista Um Conto. Editou e redigiu durante um ano O Jornal, publicação independente, divulgada em Lima Duarte/MG. Em 2011lançou seu primeiro livro Vaca contemplativa em terreno baldio (Aquela Editora), com poemas do blog homônimo;  expôs seus poemas no IV Festival Mulheres no Volante e participou, como convidada, da mesa redonda da  IV Semana de Letras da UFJF, ao lado dos poetas Lucas Viriato e Nicolas Behr. Em 2012 participou da Exposição de Poesias do Dia Internacional das Mulheres, promovida pelo Coletivo Maria Maria/UFJF e ministrou a Oficina de Criação Literária, no V Festival Mulheres no Volante. Desde 2010 é uma das organizadoras do evento ECO – Performances Poéticas, que acontece há cinco anos na cidade de Juiz de Fora/MG, promovendo encontros mensais entre poetas consagrados, novos escritores e o público.

DANILO LOVISI

danilo lovisi

Danilo Lovisi nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1991. Ainda não morreu. É graduando em Letras e coedita o zine/blog literário Um Conto desde meados de 2011. Não tem livros publicados mas costuma fazer, vez ou outra, sua Chaleira Muda falar. Recebe cartas no endereço lovisi.danilo@gmail.com

Sorteio #04: Vaca contemplativa em terreno baldio, de Anelise Freitas

Chegou a hora. Como anunciamos nos posts abaixo, o nosso mês vai começar com o primeiro sorteio do ano. Estamos sorteando desde hoje até segunda (23/04) um exemplar autografado do livro Vaca contemplativa em terreno baldio, de Anelise Freitas (veja a entrevista com a autora aqui). Quem pode participar? Todos aqueles que curtirem nossa fanpage no facebook, irem na aba “Sorteios” e clicarem em “Quero participar”.

 Sobre o livro:

Mais do que a subjetividade, talvez seja a intimidade o eixo principal da poesia de Anelise Freitas. Em sua etimologia, “íntimo” significa o que “atua no interior” e é justamente essa a natureza das principais imagens de Vaca contemplativa em terreno baldio. A irreverência do título denuncia o humor que perpassa muitos dos textos, mas deixa evidente também a perspectiva da observação que marca a obra, apoiada na vivência do amor, do sexo, da poesia e da contemplação da vida em todas as suas complexidades.

(Fonte: Site d’Aquela Editora)

Então é isso, galera. Foi dada a largada! Que vença o melhor (ou com mais sorte).

Link da promoção: http://migre.me/8Jh3j

 

 

RESULTADO:

A ganhadora foi Luciene Loures.

Eis o endereço do sorteio: http://sorteie.me/fb/dPX

Entrevista Anelise Freitas

Mineira de Juiz de Fora, a publicitária Anelise Freitas lançou no fim do ano passado o livro de poemas Vaca contemplativa em terreno baldio. Colaboradora de nossa primeira edição, Anelise nos concedeu essa entrevista por e-mail, na qual fala sobre seu livro, seu processo criativo, suas influências e seus possíveis planos para o futuro. Confira:

Quando surgiu a ideia do livro?

Eu já me proponho ao exercício da escrita desde 2002, quando descobri o poeta Augusto dos Anjos. Muitas coisas eu só sabia dizer através de palavras e toda a minha escrita era semelhante a do poeta paraibano. A maioria dos escritos daquela época se perderam e serviram mais como um primeiro degrau da escada. Mas desde aquela época eu já pensava em ver as minhas coisas impressas, em um conjunto.

Conforme o tempo passou a minha escrita evoluiu, assim como a minha leitura, a minha vida… Conheci muita gente bacana! Houve uma época em que a escrita era menos esporádica e foi mais ou menos na mesma época em que conheci o poeta Tiago Rattes (em meados do ano de 2005) e começamos a conversar bastante sobre poesia. Entretanto posso dizer que o livro começou a tomar corpo quando comecei a freqüentar o Eco, pois ali encontrei gente que estava disposta a conversar, expor, se entrosar… tudo em prol de um bem comum.

A primeira versão do livro tinha mais de cem páginas e com a ajuda de André Capilé e do Luiz Fernando Priamo (aka Mirabel) eu fui moldando. Logo depois a Laura Assis, editora do livro, entrou na história. Primeiramente era só colaboração, pois eu estava pensando em lançar o livro de maneira independente, mas depois a história mudou e chegou ao livro. A Laura sempre foi muito prestativa e eu tenho que registrar o meu agradecimento, sempre!

De certa forma eu acho que o livro é uma espécie de portfólio do poeta. Acho que o livro deve fechar um ciclo e foi exatamente isso que aconteceu. Eu precisava parir aquilo pra poder engravidar de novo!

Por que Vaca contemplativa em terreno baldio?

Eu publicava em um blog chamado Ex-Cluída. Mas era muito difícil explicar como era o link e também era pouco atrativo. Principalmente porque o nome foi um espirro, pois eu queria fazer um blog, mas não tinha um nome. Eu fui fazer um curso, que a priori, não me animava nem motivava. Eu passava as aulas na faculdade de comunicação lendo, escrevendo e olhando pela janela. Um dia uma amiga me disse que eu parecia uma vaca contemplativa e eu atinei para uma coisa: as vacas passam muito tempo pastando. Realmente parece que elas ficam ali, contemplando em um terreno baldio. Virou o nome do blog! Mas não seria o nome do livro de jeito nenhum, pois eu havia pensado em In Publicáveis. Entretanto na mesma época que comecei a moldar o livro a poeta Ana Beatriz (Ana B.), que conheci no CEP 20000, estava se preparando pra lançar um livro chamado Impublicáveis. Daí o nome do blog virou o nome do livro, mas nem tudo que está no blog está no livro. Eu adorei!

Desde quando esses poemas vêm sendo produzidos?

Como eu disse, já escrevo há pelos menos 10 anos. Entretanto muita coisa se perdeu. O poema mais antigo – dos que estão no livro – é o Primícias. Lembro de que aos 18 anos eu o mostrei ao Tiago Rattes, que ficou muito animado. Mesmo assim, na versão final, ele é bem diferente do original. A maioria surgiu nos últimos 4 anos.

Os poemas do livros, de uma certa maneira, se complementam e dialogam entre si – ou seja, não destoam num mesmo contexto. Você diria que o livro tem uma estética própria?

Então, acho que ficou bem amarradinho porque peguei textos dos últimos anos de composição. Depois que conheci meu marido e tive meu filho a minha escrita mudou bastante. E ter conhecido o pessoal do Eco – organização e freqüentadores – me fez muito bem. Posso dizer que sem passar por essa experiência meu livro seria completamente distinto e mesmo sendo impossível prever, creio eu, seria um livro menos rico que o Vaca.

Na realidade quando eu penso sobre o livro eu vejo que tem muita coisa que casa e tem muita coisa que destoa e, sinceramente, não sei se ele tem uma estética própria.

Fazer poesia erótica é confortável pra você?

Sim, porque é natural. Na realidade o que me deixa desconfortável é a situação que se criou sobre os poemas eróticos. Eu não pretendo ficar marcada por eles, não é meu objetivo. Eles estão lá porque fizeram (e fazem) parte de um momento poético que vivi e brotou no papel. Não estão lá só para chamar a atenção, mas sim porque existe algo além de um palavrão, de um gozar… não é pra ser escandaloso.

O poeta Anderson Pires e a Laura Assis são dois dos que conseguem perceber a minha escrita muito bem. Quando conversamos, eles sabem, claramente, que por trás de um cu ou de uma boceta existe um comprometimento e que não é superficialidade. Pra ser precisa: 20% do livro é isso, mas tem outros 80% que eu gostaria que as pessoas conhecessem. Até porque não quero que criem expectativas de um próximo livro com essa temática. Quero ser livre nesse sentido.

Em uma primeira análise, parece que o livro se divide em duas partes: uma primeira mais “leve”, que fala, por exemplo, sobre a concepção da poesia (como em “Filho de palavras” e “De como aprendi a poetar”) e a segunda parte, iniciando com “Primícias”, onde já há uma alusão mais direta ao ato sexual. Foi proposital?

Meu livro tinha 4 divisões: a primeira era À, com poemas dedicados; Pro Haikai o Parta, que eram aqueles poemas menores que entraram no livro (e gerou muita polêmica, pois o Capilé disse que não eram haikais e eu dizia que sabia disso e por isso havia dado aquele nome); Erótica, com os poemas eróticos, obviamente e a Segunda Metade, que eram os poemas que não entravam em nenhuma outra divisão anterior. Mas começou a ficar complicado e achamos melhor tirar.

Mas observando o livro parece que a subdivisão continuou de certa forma. Como eu disse, os poemas são dos últimos 4 anos – época em que conheci meu marido e tive um filho. Logo tem muito disso no livro.

Porém, o poema de abertura do livro é “Pornô” que, praticamente, é um soco no estômago. Por que a escolha desde poema pra iniciar o livro?

Eu quis começar com o Pornô pra quebrar o clima de primeira. Na realidade a ordem dos poemas é uma ordem que eu gosto de ler, simplesmente! Voltando na pergunta anterior: eu não queria nem dividir por “estilo” nem misturar tudo, então coloquei numa ordem que gostasse. E tem também o trabalho do diagramador, ou seja, muita coisa tem que se adequar ao formato do livro, a arte, entre outras coisas.

Bukowski aparece em dois poemas do livro: “Hollywood”, “a experiência beat” e “All Cool”, uma paródia do nascimento de Afrodite. Qual a relação da sua poesia com o escritor?

O velho safado é um antigo amigo. Já leio a obra dele há pelo menos oito anos. Não consigo me recordar como tomei conhecimento, mas 3:30 A.M. Convrsation foi um dos primeiros poemas dele que eu li. Posteriormente tive contato com a prosa, mas eu sempre desconfiei dele, se aquilo não era forçado. Mas já era tarde demais, ele já havia me marcado. O que me encanta é a despretensão dele.

“Hollywood” quase não entrou no livro. Em que momento você percebeu que ele estava “pronto” para ocupar uma página?

Eu não tive um estudo acadêmico na área de literatura, então meu conhecimento é empírico. Nas conversas com amigos da área eu percebo as coisas, pesco nomes e uma infinidade de coisas pra pesquisar posteriormente. Eu, obviamente, já conhecia os beats, mas só depois de algumas conversas com amigos resolvi ir pesquisar um pouco mais e comecei a ler. E fiz uma série de composições, mas achei que era uma cópia dos beats. A Laura Assis me convenceu de que aquilo era uma composição minha sobre a obra dos beats e não uma cópia. Depois fiquei feliz, pois o poema que entraria não era tão bom.

Você comentou que fechou um ciclo com o Vaca… Que ciclo foi esse e em qual você se encontra agora?

O Vaca era um livro que precisava existir, principalmente pra que não ficasse com muito texto na gaveta e fosse acumulando. Mas ele só saiu porque achei que tinha algo nele, não só pra abrir espaço em casa. Acho comum a angústia do primeiro livro, de que ele saia perfeito – mas nada é perfeito. Depois de reunir os textos que achava necessário eu fui buscar o nome. Quando estava tudo casado fomos pra parte burocrática e da arte do livro, mas nesse ponto o ciclo já havia se concretizado. Quando o livro ficou pronto na minha cabeça eu já havia me desgarrado daquilo tudo! Amo cada poema que está nele, mas atualmente eu estou livre para qualquer ideia que venha a minha cabeça, mas uma coisa eu já percebi na minha escrita: sou muito intimista. Quero sempre poder escrever – pois é isso que me faz bem, que me aconchega – mas escrever livremente, sem amarras estilísticas ou seja lá o nome que se dê a isso…

Você também escreve prosa? (Se sim, por que escolheu a poesia?)

Olha, escrevo, de certa forma, bastante prosa-poética. Contos, romances… não posso dizer que escrevo. Não é questão de gosto, é porque a poesia brota pra mim, simplesmente. Atrevo-me nos contos, mas escrevi apenas uns cinco… Raramente gosto do resultado. Não tenho boas ideias para contos. Não os escrevo em demasia porque me maravilho com aqueles que dominam a arte e não quero estragar uma coisa que acho tão bela. Mas se você me perguntar se quero escrever poesia pro resto da vida eu lhe responderei não, não quero escrever somente poesia. Embora minha produção seja basicamente de poesia sinto aflorar em mim o bichinho da prosa, e pretendo exercitá-lo. Mas demorei alguns anos pra mostrar meus poemas, e receio que vá acontecer o mesmo com a minha prosa.

Como é ser uma escritora publicada?

Ah, é bom. Um cara do Ceará comprou o livro. Imagina quantas pessoas podem ler isso através dele? Produzir pra guardar não faz muito sentido! Escrever só pra desopilar? Diário, eu acho. Não sou tão pretensiosa a achar que meus versos vão mudar o mundo, mas um cara no Ceará comprou e gostou. Muita gente lê e curte. De alguma forma aquilo toca alguém. Quantos autores me tocaram, me sensibilizaram, fizeram algo de mim. Se vai ser bom ou não… tem que jogar na roda e pagar pra ver. Mas eu não tenho medo. Disso não!

Você acha que é possível viver de literatura?

Sim, claro! Chacal é a prova viva disso. Mas é difícil. Sou realista, não penso em viver de literatura no sentido financeiro – até gostaria, mas… – e sim no sentido de viver com, para a literatura. Poder dedicar meu tempo e trabalhar com literatura é o que realmente quero.

Como funciona seu processo de criação? Você escreve todo dia? Você está escrevendo alguma coisa agora?

Olha, desde que comecei a escrever o único longo período que não consegui criar nada foi durante a gravidez. Mas era coisa bem resolvida pra mim, pois eu acreditava que a grande poesia estava acontecendo dentro de mim e eu foquei demais na gravidez e no meu filho, Augusto. Depois do lançamento eu parei um pouco, até porque estávamos divulgado o livro e eu não estava pensando em outra obra. Daí comecei a escrever compulsivamente e percebi que aquilo estava voltado pro tempo que passei na minha cidade natal (voltei para Lima Duarte no ano de 2011 e ainda não sei se foi um bom período, pois lancei livro, entrei pro ECO, mas lá foi meio tenso e não cabe tudo aqui) e hoje, tudo que tenho e sou, é um pouco pela minha volta. Mas, sinceramente, fico feliz de ter voltado pra Juiz de Fora. Então, resumindo (?) eu estou escrevendo pra um novo projeto – mas não é pra agora, nem vou mostrá-lo ainda.

Quanto ao meu processo: não escrevo diariamente, apenas quando brota. Nem sempre vem pronto, e é preciso moldar; outras vêm tudo mastigado. Na realidade eu escrevo quando tenho vontade, mas não forço. A pressão estraga tudo! Mas não preciso formular na cabeça o poema pronto… as vezes basta a ideia. Eu acho muito complicado falar sobre o processo poético, porque ele depende de um monte de variáveis.

Mesmo ainda não tendo nem um ano da publicação de seu primeiro livro, você já pode adiantar se há a possibilidade de um próximo?

Possibilidade sempre existe, claro. Como eu disse, já estou trabalhando em algo novo, mas no meio do caminho posso descobrir que não é isso e findar. Prefiro não adiantar nada!

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Ficou interessado no livro? Vaca contemplativa em terreno baldio pode ser adquirido no site d’Aquela Editora. Quer concorrer a um exemplar autografado? Aguarde que daqui a pouco sortearemos.