Yvette Centeno

Yvette Centeno (ou Y. K. Centeno) é natural de Lisboa e Professora Catedrática da Universidade Nova, onde fundou o Gabinete de Estudos de Simbologia. Publica desde os anos 60 obras de poesia, teatro, ficção e ensaio, de que se destacam os estudos relativos à obra de Fernando Pessoa, autor de que é considerada especialista. Parte da sua obra foi traduzida em França, Espanha e Alemanha. Entre os autores que traduziu contam-se Shakespeare, Goethe, Stendhal, Brecht, Celan e Fassbinder.

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EM SETEMBRO, NO ALGARVE

Deito-me no muro do quintal.
Aguardo o pôr do sol
quando os pássaros cantam
e a terra exala um cheiro quente
a caruma e a tojo.
No meio das árvores
a romãzeira florida parece descansar.
Chegou ao fim do seu dia.
Olho o sol.
E eu
quando chegarei eu?

 

MORANGOS SILVESTRES

Cóleos begónias avencas
aprendo o nome das plantas
e de manhã como fruta
(não era o que dizias?)
antes de tomar café.

Mas a seguir ao café
sobra-me um dia comprido.
Não sei que fazer sem ti
(não há morangos silvestres)

não sei que fazer comigo.

 

A ÁRVORE

Chegaste
com a tua tesoura de jardineiro
e começaste a cortar:
umas folhas aqui e ali
uns ramos
que não doeram…
Eu estava desprevenida
quando arrancaste a raiz.

 

O AMOR ACONTECE UMA VEZ E NÃO SE DÁ POR ELE. Ou não se tem coragem suficiente força para sofrer para fazer sofrer para sofrer mais e mais ainda e ficar depois irremediavelmente sozinha com os olhos cheios de lágrimas o peito cheio de lágrimas todo o corpo fechado sobre imagens, recordações fechadas na cabeça. Importância da Imagem. Tudo o que vive vive nos olhos e fica fechado por dentro da cabeça. E uma cabeça é uma coisa frágil. A cabeça é um mundo, mas é uma coisa tão frágil. Ao mesmo tempo fechada e sem fronteiras. Os limites do mundo (do meu mundo) são os limites da minha própria cabeça. Ainda não os conheço. Yahvé Dieu fit à l´homme ce commandement: Tu peux manger de tous les arbres du jardin. Mais de l’arbre de la onnaissance du bien et du mal tu ne mangeras pás, car, le jour où tu en mangeras, tu mourras certainement. Revelação: o conhecimento está relacionado com a morte. Du fruit de l’arbre qui est au milieu du jardin, Dieu a dit: Vous n’en mangerez pás, vous n’y toucherez pás, sous peine de mort. Mas de que morte se trata? Yahvé Dieu dit: Voilà que l’homme est devenu comme l’un de nous, pour connaître le bien et le mal! Qu’il n’etende pás maintenant la main, ne cueille aussi de l’arbre de la vie, n’en mange et ne vive pour toujours! Il bannit l’homme et il posta devant le jardin d’Eden les chérubins et la flame du glaive fulgurant pour garder le chemin de l’arbre de vie. O conhecimento está relacionado com a morte. Tudo se encontra reunido num centro e o centro é um ponto que cresce como um sol eterno sem limites. A cabeça é uma circunferência e um círculo. É difícil entrar, mas depois de se estar lá dentro continuase, continua-se, continua-se. E recomeça sempre sempre tudo. Abrem-se os momentos como frutos maduros. Ah fome Ah sede terrível fome terrível sede de frutos. Delicadamente espera-se e depois vê-se como delicadamente o fruto se desprende. Acabado redondo perfeito macio brilhante repleto fechado sobre si. Chegou-se outra vez ao fim e ao princípio. Há pessoas que têm direito somente a um fruto. A um único fruto. Outras têm direito a mais. Mas é raro poderem encontrá-los ou delicadamente poderem esperar que o fruto chegue ao fim. O fruto exige paciência amor dedos ligeiros. O fruto exige, antes de se entregar. E são raras as pessoas que delicadamente. Mas voltando ao amor, o mais estranho é que quando chegou ao fim começou a durar e apesar de acabado dura ainda, dura sempre, como se tivesse começado agora mesmo ou como se fosse ainda começar.

O ELÉCTRICO

Era o eléctrico amarelo
cheio de homens e mulheres recortados à faca dum papel
com caras de madeira
e olhos frios pintados a gouache sem pincel
Era o eléctrico amarelo da noite
por fora tinha cor
por dentro estava cheio de rostos macilentos
olhos de sono
revistas de amor
Era o eléctrico feio das viagens
a noite às costas
e o vento nas janelas
e pessoas que entravam e saiam por elas
ou ficavam sentadas
e de pé
a olhar estupidamente o espaço em frente
o espaço mais além que já não tinha gente

 

CAMINHO

devagar cortei-te o pulso

percorri esse caminho
dentro das tuas veias

enquanto o sangue saia
abria portas de entrada

eu avançava ao contrário
dentro de ti me perdia

o amor não era mais nada

 

NAS RUAS DE LISBOA

Veio avisar
Veio com rosto
de sombra:
morrerá um poeta
nas ruas de Lisboa.

Chove muito,
a chuva lavará
o seu cadáver.

Alguém dirá
o seu nome
alguém lhe fechará
os olhos
que ele desejava
abertos
sobre o mar