Edição virtual: Um Conto 13

Para quem não teve ainda a chance de adquirir o exemplar da nossa edição especial de Um Ano, aí vai a versão virtual.

Lembrando que o conteúdo é o mesmo, com  Alexandre Faria, Anna Mancini, Alice Sant’Anna, André Monteiro, Edimilson de Almeida Pereira e Marcos Visnadi, apenas a formatação que muda um pouco, é claro. Para que você possa conferir essa maravilha no “conforto” do computador, é só clicar na imagem abaixo. Mas, se você é daqueles que quer ter em mãos a versão impressa, então mande um e-mail pra gente, ou, se é de Juiz de Fora, nos procure na livraria A Terceira Margem.

Sorteio #7 – Lágrima Palhaça

Em comemoração ao Dia do Livro estamos sorteando Lágrima Palhaça, o mais novo livro de Alexandre Faria e último lançamento d’Aquela Editora. Para participar é bem simples: é só curtir nossa fanpage no Facebook, compartilhar a imagem e clicar em “participar”. Pronto. O resultado sai no fim da semana.

Quer conhecer mais? Visite o hotsite do livro e assista, logo abaixo, o booktrailer:

Esc #19 – Pequena carta geográfica

por Frederico Spada Silva

Pode haver
um ponto de partida.
Um epicentro de onde
soe
alguma palavra exata. (…)

(Ronald Polito, “Encruzilhada”)

Há geografias que se pisam e outras que se sentem, uma geografia afetiva que se escreve sobre a própria pele, cartografia de desejos e descobertas, caligrafia de memórias e sensações – acessíveis pelo tato, pelos poros, pelo olho armado. O atlas anatômico não contempla o inexato arquivo da vivência; a geometria espacial não encontra o ponto alheio a planos e equações; os guias ilustrados não são diferentes de catálogos museológicos. A memória, enfim, é texto que se escreve sobre linhas que se vão apagando à medida que o novo ocupa seus vazios.

Tal qual o corpo, a cidade também (se) escreve, e (se) inscreve em nós. Andar por suas ruas, quer de maneira apressada, como o comum dos dias há muito nos obriga, quer de maneira irresponsável, desobrigação contemplativa hoje tão rara, aguça-nos os olhares e a memória, revela-nos surpresas, suspiros e dissabores. O ponto de partida, a página em que se perde, a se apagar, a caligrafia da memória, pode ser uma rua da infância, passeios familiares ou um local de trabalho: seja como for, é também na palavra, e não apenas em imagens e outras reminiscências, que se inaugura, pois que a geografia a que nos referimos, mais do que física e sensorial, é também nomeadora.

As ruas de Juiz de Fora, assim, desenham também contornos outros, distintos destes que ora enfrentamos, avessos a suas identidades; traçados que nos guiam a outros destinos, a que só chegamos por uma memória simultaneamente afetiva e literária.

Avistemos o Morro do Imperador, “pompeando em aleias de bambus!/ Vertiginando caminhos!” e, “longe, Mariano Procópio das paralelas!/ Reticenciando em dormentes!/ E o Parque do Museu/ tropicalíssimo!”. E sigamos ainda com Austen Amaro, deixando este “bairro proletário” rumo à “Rua do Espírito Santo!/ rampando certa/ retilínea!/ de vivendas florindo entre grades boas de se ver!”. E a “Rua linda de Santo Antônio!/ com árvores redondas! De brinquedo! (…)// Casas adolescendo na indeterminação mesclada dos estilos!”. “E os teus poetas, Juiz de Fora?! (…)/ Cantando a poesia que impulsiona o teu pulsar!/ Cantando o latejar metalizado/ das tuas polias estalantes!/ Cantores/ da tua verdade cotidiana!”

Continuar lendo

Mixtape de Outubro

 

Ainda nas nossas comemorações de Um Ano, eis a mixtape montada pelos convidados da edição. Esse mês temos desde Elomar até Radiohead, começando com um poema de Wislawa Szymborska (recitado pela Juliana Bratfisch) e fechando com Vestidos, de Bruna Beber. Uma fitamista para todos os públicos. É para ligar o som e fazer a nossa festa aí na sua casa.

#Esc 18 – Sobre sede entre montanhas

ou Pobre daqueles que a lagrima não tocou a face quando a arte toca o coração

por  Tassiana Frank  

Essa foi a primeira coisa que me veio à cabeça depois de ver um céu repleto de nuvens inconstantes entre morros e montanhas, entre aqueles que nunca viram o mar e esses todos que são filhos da terra, dos vales e que a força resume em si toda a brasilidade de raiz, que todos procuram. Essa originalidade que vem do verdadeiro pedaço do Brasil, que só se conhece conhecendo Minas Gerais. Entre as ladeiras da vida, encontra-se o carioca que escolheu ser o mais legítimo dos mineiros e que como um peixe que vive imerso em água e tem sede. Esse que vive em música, tem sede de novos acordes: Milton Nascimento.

Para quem quer se soltar invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor de encontrar
Eu queria ser feliz
Invento o mar

Invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar (Cais)

Esse que fará 70 anos sexta-feira dia 26 de outubro, possui uma da vozes mais bonitas que esse mundo já ouviu. E, apesar de ter a errônea concepção de que Pietá era meu dvd favorito de Bituca, descobri A Sede do Peixe – um especial exibido na Multishow e na HBO que virou dvd. Esse que possui participações como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Lô Borges, Clube da Esquina, Nana Caymmi, Alaíde Costa, Carlinhos Brown e tantos outros, é tradução de emoção-paz. Um acalento que conforta a alma, como inverno compartilhado com quem se ama, chocolate quente e cobertor.

A fotografia muito bem dirigida, o clima acolhedor proporcionado pela posição das câmeras, a simplicidade de quem com muita sabedoria divaga sobre o viver. Essa coluna foi escrita como apologia à Sede do Peixe, porque esse sentimento não se traduz, se sente em vozes e acordes, imagens e percepções.

Para o que não tem mais razão
A calma do louco ensinou
A dizer nada

Para o que não tem mais nada
A calma do louco ensinou
A dizer razão (Sede do Peixe)

Indicações literárias #13: convidados de Outubro

1. Alexandre Faria indica Cosmologia do Impreciso, de Oswaldo Martins. É leitura obrigatória em tempos de conservadorismo na sociedade. Atos recentes como o veto, no processo seletivo do CAP-COLUNI/UFV, do livro Violetas e pavões, de Dalton Trevisan,  ou a interrupção da transmissão de uma conferência de Jorge Coli na ABL, são evidências, entre outras, de que a sociedade está predisposta a reações arbitrárias e antidemocráticas de censura e intolerância. O livro de Oswaldo Martins é uma reflexão poética e profunda sobre os valores constituídos na cultura nacional, tanto através de enraizamentos populares quanto de heranças da tradição europeia. Um avanço no pensamento pedagógico do país requer o enfrentamento de questões levantadas por poemas como os que são reunidos na série “Arte da deseducação”, por exemplo, presentes no livro Cosmologia do impreciso.

2. Ana Mancini indica A arte de produzir efeitos sem causa, de Lourenço Mutarelli. “Li algumas obras do Mutarelli esse ano, inclusive ‘O cheiro do ralo’ – que é bastante conhecido em sua versão pro cinema. Mas ‘A arte de produzir…’ foi o que mais me impressionou: a leitura é fácil, corrida, mas a “digestão” nem tanto. A obsessão gráfica e meio mística em que mergulha o personagem principal, repulsivo e cativante ao mesmo tempo, é muito envolvente – e pesada.”

3. André Monteiro indica o livro Roberto Corrêa dos Santos: o poema contemporâneo enquanto o “ensaio teórico-crítico experimental”, de Alberto Pucheu, “poeta e professor de Teoria da Literatura da UFRJ, mergulha de cabeça e coração no trabalho crítico de Roberto Corrêa dos Santos, cartografando o modo como nele se desdobra uma “crítica em campo expandido”, marcada pelo agenciamento de uma “zona de rangência” entre o ensaio e a ficção através da qual se concretizam a prática e o conceito do “poema contemporâneo enquanto o ensaio teórico-crítico experimental”.Um livro recomendável, não apenas aos acadêmicos de letras e afins, mas a todos que desejam arejar o pensamento e experimentar suas potências.”

4. Alice Sant’Anna indica Golpe de ar, de Fabrício Corsaletti. “Além de ser um dos melhores poetas atuais, Corsaletti também é ótimo prosador. O livro trata de um período em  que o escritor passou em Buenos Aires, entre encontros e desencontros.”

..

.

5. Edimilson de Almeida Pereira indica O Pequeno dicionário da arte do povo brasileiro/século XX, de Lélia Coelho Frota: “[o livro] é resultado de uma pesquisa ímpar no cenário da ciências sociais no Brasil. Realizado ao longo de décadas, com intensa entrega afetiva e rigorosa aplicação metodológica, este livro explicita a complexidade da criação visual de fonte popular em nosso país. Ao analisar alguns dos fundamentos dessas fontes, a pesquisadora demonstra que o diálogo entre as diferentes referências estéticas (populares, eruditas, modernas, pós-modernas, etc), quando ultrapassa os esquematismos ideológicos, nos remete ao centro de nossas mais importantes demandas individuais e coletivas.

6. Marcos Visnadi indica Cantos de Estima, de Júlia de Carvalho Hansen. “Já está esgotado, mas pode ser lido nesse link. É um livro alegre e amoroso, que puxa o tapete de quem achar que isso é algum demérito. “O estômago é o novo coração e o coração é o novo leão.” Não conheço nada mais bonito na poesia brasileira contemporânea.”

 

Esc #17 – [Maria Amélia – Bibliotecária]

Querida Maria Amélia,

Ainda não entendo como você conseguia manter sua cara de estante vazia enquanto ficava sentada na biblioteca do colégio. O frame ainda permanece na memória: você, inerte, à frente uma plaqueta – “Maria Amélia – Bibliotecária” – e, atrás, o porta-retrato com a foto em sépia que dava nome à escola: Cosette de Alencar. E insisto: havia mais vazio no seu rosto do que nas salas de aula em véspera de feriado prolongado. Não entendo.

O trabalho, pra você, não devia ser de fato muito gratificante: ficar oito horas sentada, todo dia, tendo que manter sua cara de estante (vazia), e ainda por cima precisar levantar da cadeira pra buscar o caderno de registros, quando alguma criança decidia levar um dos livros pra casa. Complicado, Maria. Complicado. E você não lia, nem pra passar fazer passar o tempo. Milhares de livros te sufocando (você resmungava) e você não lia nenhum.

Íamos pouco à biblioteca, é verdade. Primeiro porque não nos deixavam ir sozinhos (ler é de fato muito perigoso, até hoje) e só nos mandavam pra lá quando precisávamos ficar de castigo, ou quando algum professor faltava, ou nas aulas de leitura – que, te falo: de leitura nada tinham, porque ficávamos (eu e alguns) tão absortos com os livros que só conseguíamos folhear, ansiosos, ofegantes, infantis.

E hoje te digo, Maria. Dez anos depois. Hoje te digo porque os livros sumiam tanto: nós roubávamos. Isso mesmo. Roubávamos vários. Muitos. Deixávamos as estantes vazias como sua cara. Contos Grimm? Tão aqui em casa. Coleção Vaga-lume? Metade aqui e metade com o Felipe. Sem Família, do Hector Malot? Mudou minha vida, mas só depois de passar uma boa temporada na minha estante. E vários outros, Maria. Vários. E rodam por aí até hoje, mas não são mais sugados pelo seu vazio que sufoca (concluo).

Mas olha, lembrei de uma coisa – e fica calma porque prometo não contar pra ninguém -: um dia, quando saí da aula da tia Carmen pra beber água, passei pela biblioteca (não era caminho, mas a aula dela era chatísssima) e te vi, Maria, te vi lendo um livro. E pode ter sido minha fome (era quase a hora do intervalo), pode ter sido o óculos que eu não sabia que precisava usar, mas eu vi outra coisa, Maria, eu te vi sorrindo. Mas foi um riso duro, é. Um riso, assim, um riso sépia, feito a foto da Cosette atrás de você. Mas foi um riso, Maria. Foi um riso.

Daí eu penso: vai ver que sua frieza, sua inércia de cara, era tudo medo da gente; era tudo porque você não sabia o que fazer com aquilo tudo envolta (que sufoca, sim, a literatura ainda sufoca a gente), e principalmente: não sabia o que fazer com nossos olhos nada vazios, nada inertes, nada nada. Era seu desespero que te paralizava. Mas não se preocupe: o que você não fez nós fizemos: pegamos (e não devolvemos) o máximo que pudíamos, e fizemos rodar por aí. Preenchemos os vazios. E fizemos Marias, Amélias, Cosettes e Alencares deixarem sair um riso que, mesmo frouxo, mesmo sépia, mesmo duro, mesmo falso, foi um riso. Um riso a mais.

Assinado,

Danilo Lovisi