Diego Moraes

diego

Diego Moraes é autor dos livros A fotografia do meu antigo amor dançando tango e A solidão é um deus bêbado dando ré num trator (Editora Bartlebee) e publicará até o fim de 2015 Um Bar fecha dentro da gente (Editora Douda Correria) e Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava “eu te amo” no orelhão (Editora Corsário-Satã).  Os poemas a seguir são inéditos em livro.

 

árvore da vida

A árvore que seu avô desenhava num caderno
Entre delírios da segunda guerra
E saudades roxas da sua avó
O sorriso da tua irmã que morreu num aborto
Mal feito numa clínica clandestina em Copacabana
Seu pai entrando e saindo de clínicas de recuperação
Tratando sem sucesso o alcoolismo que derrubou Charles
Bukowski e Raymond Carver
A escopeta enferrujando dentro do corcel esquecido
Na garagem da casa de campo e o microscópio
Vendido por mixaria num sebo para pagar lanche e xerox
Da sua faculdade de psicologia
E seu pensamento em mim sendo levado
Como ondas que empurram tartaruguinhas para beira da praia
Seu desejo de cortar os pulsos dentro de uma banheira escutando Maysa
E minhas cartas cheias de erros otográficos que não curou
O câncer do esportista que virou notícia no jornal nacional
Todas as coisas desabam sobre Manaus
Todas as coisas desabam sobre o céu
Cor de chumbo que não vinga ninguém
Só nos resta essas coisas pequenas
Esses flashes relapsos
Que os navios carregam na última partida
Seu nome sangra na minha memória.

 

folião

quando o lirismo
começa a capengar
quando o lirismo
começa a falhar
quando o lirismo
escapa dos olhos
e não escorrem
nas minhas mãos
quando o lirismo
fica preso
no meu peito
eu cheiro tua
calcinha esquecida
no armário
e abro um sorriso
de folião
cheirando lança-perfume
no carnaval.

 

Van Gogh

Estou aqui
a milhares de quilômetros
com um siso inflamado
e o corpo latejando
com um poema medonho de lindo
da Hilda Hilst na cabeça
E você pula na minha tela do Facebook
sem ser convidada
numa foto patética
seguindo o trio elétrico
da Ivete Sangalo em Salvador.
Agora te odeio muito mais
daria tudo pra tirar seu nome dos meus livros
e do meu cacete
mas isto é
quase impossível
Vai doer
Vai sangrar
Vou apenas excluir nosso amigo em comum
que trabalha restaurando
quadros falsificados de Van Gogh
num galpão fedorento em Pindamonhangaba.

 

Richard Gere

15 horas. O sol estala no asfalto. Uma senhora tropeça numa tampa de fossa e cai espalhando frutas. Dois trombadinhas correm para roubar as sobras. Na lei do cão quem não rouba morre de fome. Do outro lado da rua um galã com pinta de Richard Gere passando férias na Paris dos Trópicos acende um cigarro e começa a sorrir num terno azul. Todo idiota que se acha artista se refere à Manaus como Paris dos Trópicos. Não faço ideia de onde fica Paris. Duas bolotas de suor na sovaqueira do Richard Gere. Faz sinal para uma índia lambendo um cascalhão de morango. Sorri, sorri, sorri a ponto de entortar o poste que segura um cartaz da sessão do descarrego da igreja universal. A índia atravessa a rua. Cochicha no ouvido do sósia do ator. Richard Gere é o pior ator do mundo. Dois beijinhos no pescoço da puta. Um caminhão perde o freio e invade a padaria. Nuvem de poeira e gritaria. Puxo 20 reais do bolso e penso em comprar uma garrafa de conhaque. Manaus é um quadro de Salvador Dalí.

 

1998

Minha mãe jogou minhas malas na varanda. O rosto do meu padastro sangrando dos socos que acumulei de séculos de perseguição religiosa. Reginaldo Rossi embalava o bêbado do meu vizinho. “a porta da rua é serventia da casa” ela disse com o semblante triste. Com o pesar de nuvens carregadas anunciando o temporal. Com os olhos brilhando de compaixão de arrancar telhas de um barraco assentado numa invasão do MST. “Vou morar na rua” Eu disse chutando tampinhas de refrigerante. O choro da cantareira seca que não vinha naquele auê de mulher que não pari o filho bastardo no dia certo. “vou sentar aqui ao lado desse mendigo que cheira a porto com lepra”. Da cabeça dele voaram pássaros. Voaram folhas amareladas de um livro velho. Voaram coisas lindas escritas por náufragos do século dezesseis. Estou com fome. Esqueci algarismos romanos. Esqueci minha identidade. O mendigo acende um derby. Me passa pra dar um trago. As estrelas piscam com mais intensidade. “Bem-vindo ao inferno dos poetas” ele disse antes de dormir. Deus não existe. Só existem mendigos profetas.

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A poesia salva

Em 23 de abril de 1849 Dostoiévski foi preso e torturado a mando do Czar e chorou lendo os salmos da Bíblia. Em 1867 um poeta inglês morreu afogado tentando atravessar o canal da mancha carregando sonetos para uma prostituta francesa. Em 1315, no auge da crise da fome na Europa, uma escritora obscura escreveu seu último poema e decepou o próprio braço e arrancou um pedaço da bunda para dar de comer aos filhos famintos. Em 1968 Waly Samolão sentiu o peso do amor e escreveu “Vapor Barato” com Jards Macalé. Em 2098, o último negro africano do planeta escreverá um poema tão lindo que desativará a bomba atômica. A poesia é antibiótico para as desilusões da vida. O consolo dos perseguidos e descontentes. A poesia salva.

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