Cartas para K.

Um chá com Mariana Botelho

Mariana Botelho nasceu no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Em 2010 lançou seu primeiro livro de poemas, O silêncio tange o sino, pela Ateliê Editorial. Desde então, mudou-se para a capital mineira e, no fim do último ano, voltou para o interior, onde divide o tempo cuidando dos filhos, construindo esculturas de cerâmica e trabalhando em dois novos livros. Mariana também, como qualquer ser contemporâneo, tem um perfil no Facebook, e, constantemente, posta em sua página poemas da própria autoria. Os que acompanham a poeta já puderam perceber a presença constante de uma interlocutora, denominada K., para quem são destinadas pequenas cartas. Em uma conversa por Facebook, como não poderia deixar de ser, Mariana nos contou um pouco mais sobre K., nos falou sobre os planos para publicações futuras, da sua relação com o primeiro livro e, é claro, sobre a vida de poeta na rede mundial de computadores.

foto de Ricardo Aleixo

Mariana, quem é K.? 

K., é um lugar. Ela começou como uma sereia de cerâmica que eu não dei conta de terminar por conta de turbulências na vida cotidiana e uma mudança de cidade. Aconteceram muitas coisas e eu precisava de um lugar pra passar por tudo que essas mudanças, geográficas e afetivas, acarretavam. Não pra entender as coisas, mas pra passar por elas com alguma serenidade, ainda que mínima. Então eu transformei K. numa interlocutora. Em cerâmica eu quis retratar uma pessoa específica. Tentei dar a ela os traços dessa pessoa. Mas não consegui e ela saiu com a minha cara, meu nariz, a careca, como eu tinha na época.  Continuar lendo

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Ana Hatherly

Ana Hatherly é uma poeta e artista plástica nascida no Porto em 1929. É uma das teorizadoras do movimento da Poesia Experimental Portuguesa, iniciado nos anos 60, em Lisboa. Começou sua carreira literária em 1958, e atualmente possui uma vasta obra poética, traduzida para diversas línguas dentro do continente europeu. Dentre seus livros, destacamos Fibrilações, que foi publicado pela primeira vez em 2004, em uma tiragem não-comercial de 100 exemplares numerados. Em 2005 a Quimera lançou uma versão comercial, em edição bilíngue, com tradução para o castelhano. Da publicação, retiramos os poemas abaixo:

O espelho partiu
a moldura ficou
Agora vemo-nos
furiosamente

*

Meu coração e eu
vivemos juntos
mas não lado a lado
e nunca nos vemos
O sangue é um acordo vivo
que nos ata

*

O desejo é uma chama
que insistentemente chama:
A tela de Penélope
surge de seus dedos mudos

*

Há palavras
que só vivem de noite
Só falam surdamente
sem lábios

*

A palavra vem
e depois vai
Em tudo sangra
o signo da ausência

*

Viaja sem qualquer bagagem:
Entre o que te salva
e o que te mata
nada substitui a aventura

—-

No vídeo abaixo, José Maria Alves lê  “O vermelho por dentro”, poema de Eros frenético (Moraes Editores, 1968) :