Esc #15 – dos livros de sebo ou das pessoas dos livros usados

por Juliana Gervason*

É verdade que um livro novo promete uma relação, digamos, mais íntima. É certo, inclusive, que possibilita ao leitor mais voraz de contato, que leve o livro para a cama, que abrace o livro e que, principalmente, cheire o livro sem que lhe tome um sentimento de aversão. Mas um livro novo é carente de história. E não me refiro aqui, é óbvio, à história ficcional que suas páginas prometem. Refiro-me sobretudo à história das histórias de seus leitores antigos.

Que triste é um livro de sebo semi-novo. Não deveria chamar-se semi-novo. Um livro semi-novo é na verdade um livro rejeitado… O que fez seu leitor nunca se interessar por aquela obra? Quais motivos o levaram a se desfazer daquela edição? Por que ele nunca folheou suas páginas, rabiscou suas linhas, possuiu suas folhas? Por que não há marcas de café, dobras de páginas ou objetos perdidos ali dentro?

Os objetos perdidos de um livro de sebo falam-me mais de seu leitor do que meia hora de conversa… O que ele usa para marcar sua leitura? Dobra a orelha do livro, assassinando-o? Utiliza-se de panfletos de rua, cartões postais, marcadores personalizados? E o que fez o leitor esquecer de retirar-se do livro antes de vender?

Mas das marcas de um leitor o que mais me intriga é encontrar dedicatórias nas primeiras páginas. “De João para Maria, com amor…”. o amor acabou-se? O livro registrava um momento que seu dono queria esquecer? Maria não ama mais João? O livro não foi prova de amor/amizade suficiente para justificar sua paragem nas estantes de seu ex dono? Levar o livro para um sebo foi um ato de revolta e desapego que representava, na verdade, a catarse que Maria precisou fazer para esquecer João?

E João se importaria se eu me tornasse a nova dona daquele livro e, indiretamente, daquele amor?

Fosse eu dona de um sebo, pediria para cada cliente que fosse se desfazer de um livro, que escrevesse uma carta para o novo dono. “Desfaço-me deste livro porque…”. E pediria, inclusive, que o ex dono disponibilizasse um endereço para correspondência. Ao novo dono exigiria que enviasse uma carta, em resposta, para o dono anterior. “Comprei seu livro porque…”. Quantas relações literárias criar-se-iam aqui? Humberto vendeu Crime e Castigo porque não gostou da leitura. Isabela compra o livro, lê e envia uma carta a Humberto, contando o quanto gostou do livro e destacando dele o que achou salutar. Quem sabe Isabela não fosse capaz de fazer Humberto reencontrar Dostoiévski? Quem sabe Dostoiévski não fizesse Humberto encontrar Isabela?

Sim… sofro de quimeras literárias… E acredito que os livros usados são seres que devem ser respeitados, amados e acalentados por todas as histórias que carregam: as minhas, as suas, as de João, as de Maria, as de Isabela e as de Humberto também…

——————————————————————————————————————————————–

*Juliana Gervason é professora de literatura e doutora em literatura. É amante de livros novos, mas tem uma relação avassaladora com livros usados. Chega a pedir desculpas para os ex donos, quando precisa fazer no livro recém adquirido, algum tipo de marcação. Respeita sobretudo as dedicatórias, apropriando-se clandestinamente das felicidades que não são dela. Gosta da história por trás das histórias dos livros, mas não abre mão de restaurar aqueles cujas marcas temporais insistem em destruir. Para isso, desenvolveu um método infalível de limpeza para recuperar livros usados extremamente velhos…

– Confira as outras colunas da Escoliose de Setembro:

Anúncios

Mixtape de Setembro

E, voilá! Nossa fitamista de setembro já está no ar! Com as indicações musicais dos colaboradores do mês, temos dessa vez um conjunto bem eclético, mas que se assemelha por alguns tons (sonoros) de cinza, mesmo em tempos de primavera. E falando nisso, o poema que abre a fita é “Quando vier a primavera”, de Alberto Caeiro, declamado por Pedro Linhares (você pode assistir aqui), que já chega quebrando romantismos primaveris com sentenças de cunho existencial. Em seguida, pra trazer um pouco mais de leveza, Daughter canta sua bela “Smother”, num fantástico crescendo, culminando na “It’s a long way”, do já-senhor-de-70-anos Caetano Veloso. Em seguida, Kiko Danucci Juçara Marçal trazem a “Vias de fato”, que abre caminho para o tapa na cara de Sérgio Sampaio com sua “Roda Morta”. Próximo ao fim, chega Lou Reed e seu “Perfect Day”, que caminha ao lado da quase-hino “Último Romance”, do Los Hermanos. Pra fechar, embarcamos num trem com um único destino: Brasil. É o senhor Heitor Villa-Lobos que traz tons épicos para nossa mixtape com seu inesquecível “O Trenzinho do Caipira”. Pra sentir tudo isso é só um clique, o resto fica com as canções. Boa viagem!

Um Conto – Edição de Setembro

Chegamos, enfim, à nossa décima segunda edição. Quase um ano publicando novos autores de todo o país. Nesse mês, nossa revista vem com um tom mais sombrio, perceptível desde a capa, mesclando prosa e poema nos quadros, trabalhando no nível da simplicidade e do desconforto artístico. O resultado ficou fantástico. Você pode conferir lendo a versão física (que, com as dobraduras, opera com uma ampliação do significado dos textos), disponível para compra pelo nosso e-mail ou, se você é de Juiz de Fora, na Livraria e Cafereria A Terceira Margem. Ou, se você é daqueles que não consegue descolar dos meios digitais, pode ler a versão online da revista (clicando na imagem ali em cima). Daqui a pouco, é claro, disponibilizaremos o arquivo para download, para que você possa baixar, imprimir e distribuir por aí. Ficou curioso para saber quem está participando dessa lindeza esse mês? Então confira aí:

VANESSA RODRIGUES (conto)

Vanessa Rodrigues  é formada em Letras pela UFPR,  é escritora e editora de textos. Publicou em algumas revistas independentes como Café Espacial, Revista Lama e Revista Trevo. Mantém o blog www.vanrodrigues.wordpress.com.

DIEGO REZENDE (quadro I)

Diego Rezende é um hedonista delirante, que se inebria da espontaneidade teatral do cotidiano e do espetáculo noturno, movido a café, cigarros e conhaque.

PEDRO FONSECA (quadro II)

Pedro Fonseca  tem certo gosto por extremos, mas sempre acaba parando no meio-termo: é o medo de arriscar quando se tem 20 anos incompletos. Ilustrador e Fotógrafo – em formação em ambos, arrisca na experimentação e não vê material útil na perfeição: gosta do estrago. Estuda Artes & Design na UFJF e pesquisa sobre novos formatos narrativos, através da relação entre texto e imagem. Lê, lê e lê, esperando um dia sair do lugar como quem ganha novos sapatos e sente tal urgência.

CARINA CARVALHO (quadro III)

Carina Carvalho mora em São Paulo, é formada em Letras e trabalha com livros. Dança pelos dias e escreve desde que acreditou ser feita da matéria dos sonhos. Boa parte do que produz pode ser lida em desastresliricos.blogspot.com.

CLAUDIO ROSA (quadro IV)

Cláudio Rosa é um cara na casa dos 30. Marido, Pai, Filho, Neto, Irmão, Cunhado, Genro, Amigo, Colega,Sobrevivente, Sonhador, Romântico, Professor, Tradutor, mais um que quer viver dos seus escritos. Amante do bom cinema, da boa música e do bom futebol, mesmo que  sejam coisas raras hoje em dia. E que respeita as pessoas e acredita que nem tudo está perdido. Em suma, humano no sentido único que expressa a palavra. Claudio Rosa. Blogueiro d’O Número 8, escreve no Narratividade e no Soberanos. Teve textos publicados no livro Dedic Escreve Coletânea de Contos, Poesias e Crônicas, no jornal RelevO, site O Bule, Cinema Velho, entre outros.

JULIA PORTELLA (quadro V)

Julia Portella é baiana, vive e trabalha em São Paulo. Graduada em Multi-meios pela PUC-SP em 2009, atualmente escreve, produz exposições de arte e peças teatrais.

JESSE MARLON (quadro VI)

Jesse Marlon não é um acadêmico, nem se importa com diplomas e títulos. É um estudioso das coisas práticas e úteis da vida, e anseia pelo conhecimento; talvez um simples espécime de homopraticus. É pai, e isso importa muito pra ele.Ecologista e naturalista em evolução. Uma Metamorfose ambulante, por isso,suas idéias possam não corresponder aos fatos.

Jardim de veredas que coincidentemente (ou não) se reincidem

Ultimamente, ando mesmo julgando o livro pela capa (concordando totalmente com o que a Larissa Andrioli já disse por aqui). E em uma dessas minhas aventuras de começar uma leitura pela diagramação frontal me deparei com Em que coincidentemente se reincide (Dublinense, 2010), primeiro livro “individual” da paulista Leila de Souza Teixeira, que me serviu não apenas para enfeitar a estante, mas também para me encantar cada vez mais com a alta qualidade das produções literárias atuais. O interessante é que nunca sei como começar uma resenha de um livro de contos, ainda mais desse tipo de livro, em que é quase impossível deixar de falar de um conto sequer, visto que estão interligados, sendo o livro cortado ao meio e refletido na mesma proporção da metade adiante. Em que coincidentemente se reincide traz essa levada bacana do Cortázar em O jogo da amarelinha, em que, seguindo o “roteiro” marcado no sumário, o leitor pode tanto começar o livro e seguí-lo linearmente, ou ir “pulando” os contos e chegar no que corresponde ao último lido.

Como a própria capa indica, o livro é mesmo uma árvore, com galhos paralelos que se encontram no topo. Uma brincadeira circular, iniciada em “Corte seco”, no qual, em primeira pessoa, o narrador constrói um roteiro, ou melhor, narra na forma de um roteiro de edição os fatos que culminaram na cena de sua amada deitada sobre um caixão, com as mãos em cima do estômago; e refletida no último conto “Processo desconstrutivo”, com as mesmas imagens do espelho, do carro e uma crise criativa que faz com que o contista exclua tudo que já foi escrito. As relações se tornam mais evidentes nos demais, como “Girassóis” e “Oito”, que apresentam uma Luiza atormentada, fugida, indo para São Paulo, com o sol dourado na cara, que de tamanha perfeição narrativa nos deixa tonto. Creio que independente da ordem que os contos são lidos, farão todo o sentido, mas, se a autora os colocou nessa disposição é porque talvez tenha pensado ser essa a melhor forma de concebê-los, e é o que acontece ao lermos “(Ana)” e “Ato III”, nessa cronologia. O primeiro, com o marido no carro e as mãos nas pernas de Danilo, e o segundo com Ana, plena, reconstruindo Hamlet para mostrar que sim, ela sabia da paixão do marido pelo seu melhor amigo. E o conto que dá título ao livro “Em que coincidentemente se reincide” é reflexo de “Doutrina dos ciclos” e talvez o par mais intrigante que traça os destinos simétricos de mãe e filha, não que o acaso conspire para que se repitam, mas, pela ciência de uma, a repetição se torna quase necessária – expondo de maneira magistral (e metalinguística) o jogo que o leitor vem percebendo durante toda a leitura.

Pela sutileza das composições e o visível labor em cada capítulo, percebe-se que, para Leila, a concepção de conto ultrapassa os limites de uma simples short story, mas se enraíza em um universo de quem trilhou com maestria essa arte, que é Jorge Luis Borges, o qual a autora faz questão de deixar claro sua influência, seja por meio da narrativa ou na epígrafe do borgiano “O palimpsesto de Sür”.  Uma leitura que puxa outra leitura e chega novamente na inicial, lembrando, o também citado no livro, Nietzsche, que postula a teoria do Eterno Retorno (aqui entrando mais uma vez Borges, sendo o autor que cita a leitura do filósofo). Por mais que soe complicado, creio que o livro – mesmo sendo um trabalho sério – não passa de uma brincadeira, trazendo o universo lúdico, que faz tanta falta, de volta à literatura.

Por minha vez, trago Borges, pois creio que, tomando a árvore da capa, o livro pode ser lido com um grande jardim, de veredas que se bifurcam.

por Otávio Campos

Esc #14 – 18 seconds before sunrise

(ou a instigante e incessante produção musical da Islândia)

por Danilo Lovisi.

Estamos em meio a montanhas de lava e gelo. O céu, interminavelmente cinza ou azul, nos sufoca e liberta. Há rios. Há gelo. Muito gelo. Crianças com roupas coloridas correm e gritam, sorrindo. Tempestades repentinas. No inverno temos apenas 8 horas de sol. Nosso verão faz, no máximo, 24 graus. As florestas estão sempre em silêncio. Tudo está sempre em silêncio. Há frio. Muito frio. E fios sonoros nos envolvem, mantendo-nos vivos.

Não há narrativa, descrição ou adjetivação capaz de, sem clichês (ou cegueiras), dar conta do que é a Islândia e, principalmente, como se comportou – especialmente nas últimas duas décadas – a produção musical dessa terra de gelo e lava. São construções artísticas que beiram o atemporal, transcendem o não-comum, e se encaixam em apenas uma categoria: arte. (off: opa, caí no clichê e na cegueira, rs. I told ya)

Sigur Rós é o nome da banda que foi (e é) uma das grandes responsáveis por toda essa instigante e incessante produção musical islandesa. Iniciada por Jónsi, George, Ori e Kjartan em 1997, a banda é conhecida por suas composições detalhadamente elaboradas, utilizando elementos da música clássica e improvisações contemporâneas – como o uso de arcos de violoncelo na guitarra – e também pelos minimalismos sonoros somados a arranjos orquestrais, que, quase sempre, nos remetem a paisagens oníricas ou invólucros interiores, promovendo nos ouvintes mais inclinados para melodias complexas – e muito belas – verdadeiras experiências sensoriais. Lançando, até hoje, sete discos, Sigur alcançou o reconhecimento global com seu segundo álbum, Ágætis Byrjun (Um bom começo, em português), seguindo com (  ), o álbum sem título e sem letras (que escrevi mais detalhadamente na coluna do mês passado), e, logo depois, Takk… (Obrigado…), que, na minha opinião, é o mais, hm, completo álbum do grupo (indico para quem quiser conhecê-los). Trazendo letras predominantemente em islandês, eles provam – da melhor forma possível – que, para apreciar uma música, não é necessário entender o que se diz, quando todo o resto consegue transmitir isso nos mais variados tons, sonoros e, por que não, visuais.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=4L_DQKCDgeM]

E se você ainda não viu/ouviu, ouça/veja acima o clipe de Hoppipolla (Pulando em poças), uma delicada ode ao que existe – ou é inventado – de espontâneo na vida. Continuar lendo

Um Conto Indica: o curta “Dedicatória”, de Biel Gomes

O livro: “Poesia Completa”, de Manoel de Barros. O problema: as páginas não aceitavam dedicatória. A solução: viajar, com o livro, para seu lugar de origem (geográfica, ao menos), deixando-o mais livre, refrescado, em casa, podendo sentir o cheiro do sol de lá. E foi assim que surgiu o curta “Dedicatória”, de Biel Gomes. O rapaz porto-alegrense comprou a obra completa de Manoel para presentear uma pessoa amada, porém não conseguia pensar numa dedicatória que desse conta da poesia manoelesca contida naquelas páginas. Viajou, então, para Campo Grande, terra do poeta, e lá passou três dias. O resultado – delicadamente bem montado e, claro, mui poético – está aqui embaixo, e cabe a você assistir (ou não) a esse fazedor de amanhecer portátil em forma de curta-metragem.

Esc#13 – O julgamento de Capitu

(e a vida que existe entre a ficção e a realidade)

por Otávio Campos

Lembro como se fosse hoje da minha irmã chegando em casa toda feliz com um papel embaixo do braço, na primeira oportunidade mostrou a todos. Era um certificado de melhor defesa em um julgamento promovido pela escola. Não, minha irmã não fazia direito, nem qualquer curso superior nessa época, pois não passava de uma adolescente de 16 anos. Ela havia trabalhado na acusação de um crime que fora supostamente cometido em 1899 por uma personagem da literatura: Capitu. O professor de literatura, ao incentivar a leitura de Dom Casmurro, dividiu a turma em duas equipes: a primeira ficaria por conta da defesa da personagem de Machado de Assis, levantando os pontos favoráveis, que mostravam que ela não traiu Bentinho, e a segunda metade deveria convencer a turma de que Capitu realmente havia cometido adultério. Minha irmã foi escolhida como a advogada que trabalharia na acusação da infidelidade. O resultado, como já ficou claro, foi que a inocência de Capitu não convenceu a maioria.

Na época eu era muito jovem e, como meus pais, aplaudi o excelente trabalho da minha irmã. Hoje, como mais um chato que vive no meio literário, esse é um dos assuntos que mastiga meu estômago e me incomoda profundamente. Fico pensando em quão rasa era a discussão desse livro que o professor promoveu. Não é muito comum escutarmos hoje em dia a famosa questão: “mas será que Capitu traiu ou não?”, eis que algum espertinho, com o sorriso malandro nos lábios responderá: “só saberemos se formos a um centro de macumba e conversarmos com o espírito de Machado, mesmo assim, é arriscado nem ele mesmo saber”. Nesses momentos eu só reviro os olhos e penso: “E se sabe? E se não? O que importa?”. Vasculhando no Google para ver a quantas anda essa discussão, descobri milhares de fóruns que tratam do assunto, como esse aqui , em que podemos ver respostas como “traiu sim, sem vergonha!”. Fica claro que quem ainda insiste em encontrar respostas para este tema pouco leva em conta o verdadeiro valor literário do livro, mas apenas ocupa seu tempo colhendo provas dentro da obra para um julgamento de costume e moral – de um personagem fictício! São esses leitores os verdadeiros personagens, e o alvo das sutis críticas, de Machado de Assis – uma sociedade mesquinha, que controla a vida do vizinho pelo vão da janela e a discute nas rodas com os amigos. Creio que já é tempo de perceber que pouco importa se Capitu traiu ou não Bento Santiago, mas o que faz de Dom Casmurro esse clássico que vive até hoje é o desespero e as paranoias do personagem central. Um bom leitor sabe reconhecer que Machado criou um mundo e tudo ali é real, como seus personagens que possuem milhões de dúvidas não esclarecidas, da mesma forma que qualquer ser humano.

Continuar lendo