Indicações de livros #11: colaboradores de Agosto

A literatura é – percebam – muitas vezes feita da própria literatura. Dito isso, nada mais honesto do que pedir para os responsáveis pela edição de agosto da nossa pequena revista literária que indicassem livros para seus (possíveis) leitores. E aí estão, finalmente. Boa leitura!

1. Fabrícia Valle indica “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa:  “pelos movimentos de sístole e diástole que os usos da linguagem nos são capazes de provocar, enquanto impulsos para continuarmos lendo, mais e além do livro em si, a vida.”

2. Fernando Braida indica “Ilusões Pesadas”, de Sacha Sperling: “Um livro pequeno e que prende tanto que eu li todo na primeira vez que eu abri. Em primeira pessoa, Sacha, um menino de 14 anos, nos conta como a vida dele se transformou quando conheceu seu amigo Augustin. Com períodos curtos e parágrafos muitas vezes sem ligação de espaço e tempo, você se pega dentro da cabeça do jovem, sentindo tudo o que ele sente em cada momento. Chega a dar agonia. Se a minha geração teve Christiane F., essa que vem por aí terá Sacha Winter.”

3. Edmon Neto indica “Viavária”, de Iacyr Anderson Freitas: “Iacyr é um poeta de Juiz de Fora que tenho lido muito ultimamente. Em Viavária, como o próprio título sugere, o poeta se expressa por diversos caminhos enunciativos de nossa época, na medida em que procura encontrar pontos de fuga ativados pela memória e por sua relação com a cidade. Além disso, a escrita aponta para os limites que a palavra poética pode alcançar, tanto no desenvolvimento de uma dicção própria, quanto na economia e no trabalho com as palavras. Vale a leitura da sessão “João Cabral: método e visita”, onde o diálogo explícito com o pernambucano, através da forma, demonstra o calibre de nosso conterrâneo e efetiva uma grande homenagem ao consagrado Melo Neto. Iacyr deve também ser visitado, é leitura de suma importância para quem pretende continuar escrevendo poesia em tempos de muita verborragia e pouca potência criadora.”

4. Lucas Viriato indica “As Bacantes”, de Eurípedes: “Meninas, balancem seus tirsos!”

5. Ernane Catroli indica “Nocturno em Macau” de Maria Ondina Braga: “Perpassada de poesia, sua prosa –  rica, original – entrelaça memória e ficção compondo uma narrativa labiríntica, enigmática, que prende e fascina os leitores.”

6. Juliana Gervason indica “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, de Clarice Lispector: “Para a dura tarefa de escolher um autor, só poderia ser fiel à alma se escolhesse Clarice Lispector. Para a impossível tarefa de escolher um livro da autora, só poderia ser fiel à sua obra se fosse este. Trata-se de uma história de amor, conhecimento, escolhas, temores e, acima de tudo, revelações. Em suma, o livro desvela e traduz as nossas vidas.”

7. Luana Vignon indica “Garagem Lírica“, de Marcelo Montenegro: “Marcelo é aquele poeta à moda antiga, transforma tudo em poema. Suas palavras são como “um esguicho de música/ no cofre do ouvido”. É também cinema e fotografia, mas daquelas que a gente via no monóculo, lembra? Sua poesia é como uma grande cidade desolada, cheia de ciladas e paisagens desconcertantes.”

Escoliose #6 – uma coluna [ou não]

HOJE NÃO TEM COLUNA

nem subtítulo explicativo

por Danilo Lovisi?

É. Hoje não tem coluna. Isso que você lê não é – e não será – minha coluna das (segundas) sextas-feira do mês aqui no blog. E eu não falarei de todos os temas que me vieram à mente para (não) escrever esse texto.

1. O que os escritores ouvem no momento da escrita? Sei que Clarice Lispector ouvia Chopin. Ou era Cecília Meireles. Ou Hild Hilst. Não sei: e não importa, não falarei disso, porque hoje não tem coluna.

2. Tive também a ideia de contar algumas histórias que vivi (vivemos, como equipe) durante esses dez meses de Um Conto. Como quando fomos ao Festival Literário de Cataguases, em novembro passado, sem saber o que nos esperava e, quando vimos, na manhã do segundo dia, estávamos fazendo um roteiro turístico (de um quarteirão) com a escritora Ana Paula Maia – moça divertida, de humor ácido, diferente do que imaginávamos devido aos seus livros (que não lemos) marcados por uma violência brutal – e, na noite do mesmo dia, fomos comer um hambúrguer barato nessas lanchonetes de família, que têm sempre as melhores maioneses caseiras (com os maiores índices de contaminação, o que não importa, pois não falarei disso). E teve também a história (isso no primeiro dia do Festival)  do convite que o escritor Ondjaki nos fez (depois de umas cachacinhas) de passarmos no hotel dele – mais especificamente na piscina do hotel – às 4:22 da manhã. Sim! E com aquele sotaque portenho: “ixatament às cuatravintdoish!” – E não contarei, também, de quando fomos buscar o Nicolas Behr no aeroporto (não pela Um Conto, mas ela já existia na época e eu e Otávio estávamos no carro) e descobrimos, ao chegar no terminal, que o voo dele não pousaria ali, mas numa outra cidade (próxima, ainda bem) em poucos minutos. “Corre! Corre!” gritou o senhor que varria o átrio vazio. A história é boa, mas não continuarei. Posso apenas dizer que ele chegou bem.

3. Pensei também em falar sobre a arte da pescoçagem literária, inspirado no divertido texto que Vanessa Barbara publicou recentemente aqui. A ideia era sair pela cidade (a minha, Juiz de Fora) e fotografar algumas pessoas lendo, mas não encontrei ninguém, e você não verá as fotos clicando aqui, aqui e nem aqui.

Bem, foram essas as ideias que eu tive para escrever essa coluna de hoje, que não existe, e que não está terminando. Você (que chegou até aqui) provavelmente não gostou, e vou entender se não receber nenhum comentário, nenhum like, nenhum RT. Afinal, nada disso existe. Ou sim. Não sei. E não falarei disso hoje. Porque hoje, hoje não tem coluna.

Escoliose – uma coluna #2

O SOM DO TEXTO QUE LATEJA NO SILÊNCIO

Ou sobre butecos, jukeboxes e literatura

por Danilo Lovisi

Próximo à minha casa existem três bares. Durante todo o tempo que vivi aqui (vim com 7, portanto, 13 anos) convivi “bem” com todas as consequências de se viver próximo a um bar. No meu caso, não bares, mas três butecos. E as consequências são várias: desde bêbados cativos da esquina da minha rua (minha casa é a 1, na esquina, portanto, minha porta) que me viram crescer e eu os vi (e vejo) definhar com os anos, até as brigas e festas pela madrugada. E as músicas. Ah, as músicas! Posso me dizer conhecedor de grande parte da produção musical do circuito sertanejo-brega-funk-legião-music da última década graças aos carros de som dos frequentadores e das jukeboxes cada vez mais (e mais!) altas. E é sobre uma dessas máquinas, e um desses bares (o mais novo) que começarei a falar, mas não só isso. Entrará aí o ato de ler diante, perante, durante, e constante o som trepidante e insuportável da mais nova jukebox do bar do Bené.

Você, ser humano contemporâneo, já deve ter percebido que nosso mundo está cada vez menos silencioso. Os motivos para esse comportamento podem ser – e são – vários, e não será hoje que irei discorrer sobre isso. Mas um deles, penso, pode ser por algo que o silêncio impulsiona: olhar, pensar e ouvir nós mesmos. E isso é, convenhamos, incômodo em certos momentos. Mas ainda assim não falarei sobre isso hoje. Falarei, portanto, dos momentos nos quais a literatura foi capaz de impulsionar em mim, em circunstâncias várias, esse impulso que promove o silêncio, ou o som do texto. Continuar lendo

Manuscrito inédito de “A Hora da Estrela”

Em seus últimos anos de vida, Clarice Lispector escrevia fragmentos de suas obras em pedaços de papel, guardanapos, folhas de cheque e maços de cigarro. A maioria destes eram recolhidos por sua assistente Siléa Marchi e guardados num envelope, onde, posteriormente, a escritora os retirava e organizava para montar a história.  Algumas dessas anotações não entraram em nenhum livro, e fazem parte dos famosos e raros manuscritos inéditos da autora. Dentre estes, o mais recente divulgado foi um fragmento de A Hora da Estrela. Nessa bela passagem, que não entrou no livro, Clarice menciona a protagonista  Macabéa – talvez sua personagem mais famosa:  “Macabéa não sabia como se defender da vida numa grande cidade. Ela que tinha um sonho impossível: o de um dia possuir uma árvore. Que árvore, que nada: não havia nem grama sob os seus pés”.

Nesta página manuscrita, Marchi identifica o fragmento para a arquivação: “Macabéa quando vem para o Rio”.

Fonte

Uma edição. Um colaborador. Um livro

Mais um mês e mais uma edição. Como de praxe, aí vai a lista de livros indicados e comentados  pelos colaboradores de dezembro. Se interessou por algum? Clica no link que a gente pesquisou o melhor preço  na Estante Virtual.
  • Alice Monnerat está lendo  e indica A Carta Roubada e Outras Histórias de Crime e Mistério, de Edgard Allan Poe. “É meu segundo livro do Poe, logo em seguida do primeiro, que além de ter me prendido como há muito um livro não fazia, me conquistou pelo tom psicológico e irônico do terror presente nas histórias. Dá aquela vontade de ler trechos do livro pra todo mundo.”
  • Ondjaki indica O Silêncio Tange o Sino, de Mariana Botelho. “É um livro de estreia muitíssimo bom de uma (nova) poeta brasileira. Poesia simples, muito concentrada mas cheia de força e de vida. Certamente um dos novos nomes da literatura brasileira.”
  • Anita Assis acaba de ler e indica O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. “Um clássico da literatura mundial, denso e sempre atual.”
  • Lucas Viriato indica Sandman, de Neil Gaiman. ” História em quadrinho é muito legal. Neil Gaiman é o cara!”
  • Danilo Lovisi acaba de ler indica Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector. “Quando acabei de ler eu estava em outro lugar que não aqui. Um livro que te move, definitivamente. Um marco na literatura brasileira e na existência de qualquer leitor.”
  • Renan Duarte indica Os Vagabundos Iluminados, de Jack Kerouack. “O livro é uma viagem por um mundo possível de beleza na simplicidade das coisas; a felicidade na paisagem de uma montanha, na contemplação dos encontros, na festa, nos amigos, na meditação sincera. E, sobretudo, o desprendimento do que nunca foi importante de verdade, embora as pessoas sempre insistem em dizer que são. “
  • Tiago Rattes indica Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. “Desde moleque a mineiridade me perseguia. “Grande Sertão” foi imprescindível na busca dessa identidade, e da compreensão dessa diversidade que é o estado onde nasci e escolhi viver para sempre. A linguagem de Rosa foi fundamental para um exercício de consciência de linguagem em minha prática literária. Os valores culturais e sociais que se estendem ao longo do livro “Deus” “Diabo” “Bem” “mal” aparecem na forma de uma dialética popular, rejeitando os maniqueísmos tão recorrentes nos tempos de hoje. Os personagens complexos serviram para eu comrpeender pessoas, que ao longo de minhas viagens pelo estado, me parecia tão simples, mas que na prática eram esse universo de coisas e vida, que Guimarães Rosa soube tão bem explicar.”