ECO: Quatro poetas, quatro poemas

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Boa noite, contistas. Não sei se todos sabem, mas acontece nessa sexta-feira, 12 de julho, o aniversário do Eco Performances Poéticas. Para comemorar essa data tão importante para a poesia contemporânea, convidamos quatro poetas para lançarem seus últimos livros conosco e, é claro, recitar suas poesias. Para entrar na vibe, trazemos para vocês um poema de cada. Boa leitura.

Alice Sant’Anna:

ausência

tenho te escrito com calma
cartas em um caderno azul
arranco da espiral e não posto
por preguiça ou nem morta
tenho medo da espera
durante dias ou semanas um animal horrível
(espécie de raposa) vai me perseguir
por dentro, ou serei eu mesma
(um rato?) a me roer
enquanto a resposta não chegar
perco muito tempo tentando
dar nomes aos bichos
que sobem a cortina do quarto

(Alice Sant’Anna nasceu no Rio de Janeiro no dia 24 de maio de 1988. Publicou seu primeiro livro de poemas Dobradura (7Letras) em 2008 e participou da Antologia Digital Enter de Heloisa Buarque de Hollanda. Estará lançando Rabo de Baleia, livro selecionado pelo Programa Petrobras Cultural )

Lucas Viriato:

la ascensorista

la primera vez que vi a teresa
fue hoy por la mañana cuando
bajé en el ascensor

cuando vi a teresa otra vez
fue hoy por la tarde cuando
subí en el ascensor

no vi nada la vez tercera
bajé por la escalera

(Lucas Viriato edita, desde 2006, o jornal literário “Plástico Bolha”, que já publicou centenas de autores. Em 2007, estreou com Memórias Indianas, livro sobre sua viagem para a Índia. Retorno ao Oriente, que deu continuidade ao projeto poético, foi lançado em 2008. Contos de Mary Blaigdfield, a mulher que não queria falar sobre o Kentucky – e outras histórias foi sua estreia na prosa em 2010.  Em 2012, realizou o projeto Curtos e Curtíssimos, com seus principais micropoemas. Estará lançando Muestras)

Mariano Marovatto:

MULHERES FEIAS SOBRE PATINS

As delícias podem ser:
coxinhas
pães de queijo
empanadas de camarão
rissoles de queijo e presunto
pastéis de carne
pastéis de festa
brigadeiros
bem casados e olhos de sogra
Empadas: com 30 minutos.
Você também pode solicitar descartáveis.

(Mariano Marovatto é bacharel e doutor em literatura pela PUC-Rio. Com Os Sete Novos lançou seu primeiro livro O primeiro vôo em 2006 pela 7Letras e em 2008 Amoramérica, livro escrito a sete mãos. Possui também alguns compactos como Amália & outros erros de contas (2003), China 1924 (2003) e O sonho de Diana Valentina & Caledônia Cage (2007). Além de escrever e ler, Mariano é cantor e é compositor e faz shows com sua banda A Maravilha Contemporânea. Estará lançando Mulheres Feias Sobre Patins)

Otávio Campos:

distância

seus eternos
são fantasmas
que ecoam
nas gravuras
em branco e preto

não plastifico, congelo,
fotografo
não conto, exponho,
registro
-sinto

na fração de segundo
em que a eternidade
me atravessa e per-
passa até o outro
ponto do peito
-sou

e o que desespera
pouco é
o correr do tempo
mas
a distância
que existe
entre o nosso
para sempre

(Otávio Campos é granduando em Letras, com ênfase em literatura, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Desde 2011 edita o zine literário Um Conto. Pesquisa a dissolução do eu-lírico na poesia de Francisco Alvim. É um dos organizadores do Eco Performance Poética. Estará lançando Distância)

Com exceção de Marovatto, todos os poetas já publicaram conosco. Duvida? Só clicar nas “labels” aí abaixo que você encontrará a edição.

Esperamos vocês lá.

Ficção de Polpa – Volume 5: Aventura!

Capa FdP5

Há uma lenda que circunda o meio literário, mais precisamente o meio literário acadêmico, que a literatura de massa, melhor, a literatura de entretenimento, necessariamente precisa ser de baixa qualidade. Claro que temos certeza de que isso não passa de um mito, mas como comprovar? O quinto volume da série Ficção de Polpa, denominado “Aventura!”, lançado pela Não Editora, em 2012, chega justamente para corroborar nossa afirmação.

Segundo exemplar da série dedicado exclusivamente a um tema, este Ficção de Polpa mantêm a qualidade gráfica dos anteriores, contando, inclusive, com antigas propagandas (reais) esporádicas no meio dos contos, dialogando com a trama, e que simulam a leitura de um verdadeiro exemplar pulp. São seis contos inéditos com as temáticas clássicas da Sessão da Tarde: dinossauros, guerra, expedição para a Antártida, piratas, vingança e tesouro – além de uma tradução de “O Aranha”, de Arthur O. Friel, como faixa bônus.

Percebe-se um verdadeiro interesse dos autores em levar “diversão de qualidade” para as páginas do livro, como é o caso de “Por favor, não toque nos dinossauros”, de Bruno Mattos, uma trama à la Jurrasic Park, com verdadeiros dinossauros que dão o fôlego inicial desta coletânea. Consegue-se manter a tensão e a atenção do leitor no seguinte “Melhor servido frio”, de Carlos Orsi, conto sobre uma expedição científica que tem como fio condutor os temas traição e vingança (muito caros a este volume, como se pode perceber com o não tão bem sucedido “A joia de Évora”, de Christopher Kastensmiot). O livro soa divertido e “leve” até este ponto, mas o interesse aos poucos se dispersa ao chegarmos em “A igreja submersa”, de Simone Saueressig que, apesar de ser uma narrativa bem trabalhada, peca pela repetição da constituição da trama e parece, em certa medida, uma “forçação de barra” para adequar o conto ao volume. No entanto, o objetivo inicial do livro é cumprido – como coloca o organizador Samir Machado de Machado no prefácio: “é aí que chegamos à proposta desta coletânea: abandonar o tom cinzento de incertezas e angústias que dominam nossos mundos adultos e neuróticos e trazer de volta o preto e o branco sólidos da adrenalina, da tensão e do temor que todos já experimentamos pessoalmente”.  Porém, apesar do visível trabalho de pesquisa e qualidade narrativa, os contos “Virtude selvagem”, de Júlio Ricardo da Rosa e “Seis quilômetros”, de Carlos André Moreira, perdem um pouco essa adrenalina citada, possivelmente pela longa narrativa, que fará um leitor desacostumado com este gênero (assim como eu) cair no sono ou ter de retornar algumas páginas para compreender o que se passa.

Deixando de lado essa discussão pessoal sobre gostar ou não de um conto, passemos a uma questão indiscutível: a revisão textual. O livro perde muitos pontos pelos inúmeros erros de concordância e ortográficos, possivelmente resultantes de uma pressa imensurável de fazer com que o volume saísse. Infelizmente, perde ponto também a editora, que até então vinha surpreendendo em cada lançamento pela qualidade visual e textual das obras. Obviamente isto não interfere na compreensão do texto e acreditamos que estes problemas serão resolvidos nas próximas edições.

Por fim, Ficção de Polpa – Aventura! sem dúvida se mostra um leitura indispensável, tanto para os que curtem a literatura de entretenimento, quanto para os mais “pseudinhos”, que querem saber o que está rolando no mercado atual. Um livro para se ler debaixo dos cobertores em dias de chuva enquanto não começa o filme na TV.

PS.: Para quem curte essa parte do design dos livros, recomendo dar uma conferida no incrível blog Sobrecapas, do Samir Machado de Machado, mais exatamente no post sobre a “confecção” deste livro (só clicar aqui).

por Otávio Campos

nota fcição