Esc #12 – uma coluna

JULGANDO O LIVRO PELA CAPA

Como é que um escritor pode falar tanto sobre quadros e não ligar pro visual do seu próprio livro?

por Larissa Andrioli*

Quando eu era criança, eu queria ser pianista. Depois eu desisti da ideia (minha mãe nunca quis me dar um piano) e comecei a desenhar. Eu desenhava o dia inteiro. Comecei a pintar, também. E fui muito feliz por muito tempo só fazendo isso. Aí um dia eu li um livro da Agatha Christie e comecei a gostar de entrar na biblioteca e ler tudo que eu podia. Eu não sei bem como tudo aconteceu, mas eu desisti do vestibular pra Artes e fui fazer Letras. Eu não me arrependo, mas sempre faltou alguma coisa que desse sentido àquilo tudo. Agora não falta mais. Por quê?

Bom, eu tenho um projeto de mestrado. Ou uma tentativa de. Nele eu falo várias coisas chatas sobre rizoma, Deleuze, o de-fora da literatura, livros-experiência, tipografia, autor, Barthes, leitor… é, é bem chato. Mas se você tirar tudo de chato do meu projeto, vai restar basicamente uma coisa: livros bonitos. Bonitos? Sim, bonitos. E não falo daquele livro que você lê e chora porque tem uma história bonita. E sim daquele que você vê de longe numa livraria e corre pra pegar porque, nossa, que livro lindo! Tem como não amar esses livros? Eu respondo: não, não tem.

Aí você me pergunta: e se o livro for ruim? Bom, aí ele perde ponto comigo, claro, mas só de já ter bom gosto a gente já dá um crédito, né. Porque, olha, tá em falta no mercado. Mas, de vez em quando, tem gente que acerta em cheio. E não precisa nem ir longe. Só de fugir do excesso de informação, ainda que fique um pouco ali no clichê do gênero, o capista já pode ganhar um parabéns!, pois livrou nossos olhos de chorar lágrimas em CMKY.

Mas vamos parar de falar de livros passáveis e falar de livros amáveis? Então, tem vários deles. Sério. É só procurar com carinho. Porque, por incrível que pareça, ainda tem gente que acredita que um livro pode ir além da boa literatura e ser, também, uma peça completa de arte. É bonito isso. Eu gosto de gente que acha que a gente sempre pode ir além do esperado, vocês não?

Um bom exemplo disso é a Cosac Naify. A editora tem muito mais conta pra pagar do que dinheiro entrando no caixa, mas não para de lançar livros lindos no mercado. Eles têm uma coleção chamada Particular; nela, eles investem no que é diferente. Exemplo: imagine que você está lendo um livro e a trama se torna cada vez mais complexa, fazendo com que você tenha que ler um pouco mais devagar pra conseguir processar tudo que está escrito. Imaginou? Agora, que tal ver isso acontecer diante dos seus olhos? É isso que acontece em A fera na selva, do Henry James. De acordo com a evolução da narrativa, as páginas vão passando de brancas pra cinzas e a fonte vai se tornando prateada. No final do livro, você só consegue ler se estiver bem embaixo da lâmpada, com bastante luz sobre a página.

Mas, pra mim, ninguém supera a Visual Editions. Donos de um catálogo pequeno (publicaram só quatro livros até hoje), de um site muito bem feito e de um atendimento caloroso (mandei um email pra eles e a resposta começou com love love love your email), a proposta deles é publicar livros que misturem literatura e arte. Descobri a editora por acaso, depois que me mostraram o livro que o Jonathan Safran Foer tinha publicado por eles. Eu já tinha lido o Extremely loud & Incredibly close (aquele do filme com o Tom Hanks – que, aliás, não vi, mas todo mundo diz que é ruim, alguém aí viu e gostou?) e tinha ficado maravilhada com os recursos gráficos do livro.

E aí eu conheci o Tree of codes, que é uma aberração. O livro é literalmente cortado de outro e, sinceramente, não tem como ficar falando muito dele. Mas esse vídeo resume o impacto e a maravilha toda, não só do próprio Tree, mas de toda a literatura que vale a pena. Porque, pra mim, a boa literatura – a boa arte – é aquela que te faz abrir a boca e falar uau!. O resto pode empoeirar na livraria que eu nem ligo.

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*Larissa Andrioli é mineira de Juiz de Fora. Tem 21 anos e é graduanda em Letras pela UFJF. Em 2011, lançou seu primeiro (e último) livro de poesia, No silêncio de um show de rock, pela Aquela Editora. Escreve (muito pouco) no seu blog, cahier. Atualmente tem se dedicado à pesquisa acadêmica.

– Confira as outras colunas da Escoliose de Agosto:

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Um Conto 11 – versão digital

A Um Conto desse mês já está disponível em formato digital e, atendendo a pedidos, fizemos uma versão apenas para leitura para você, que não quer imprimir, poder conferir as lindezas do mês sem ter que ficar virando a tela (só clicar na imagem abaixo). Sabemos que esta versão não possui o mesmo charme da A4 dobradinha, portanto, se você quiser continuar a leitura no padrão clássico e só clicar aqui e baixar gratuitamente a versão de impressão.

Sorteio #6: Contos de Mary Blaigdfield, de Lucas Viriato

Já deu para perceber que esta semana estamos cheios de promoções, né? O livro que estamos sorteando dessa vez marca a estreia de Lucas Viriato na prosa. Pois é, nosso sempre colaborador, ocupando este mês uma página inteira com o conto “Pedro Ícaro no Oriente”, teve como sua primeira publicação o livro Memórias Indianas, um relato de viagem em 108 fragmentos poéticos. O projeto teve continuidade com o Retorno ao oriente, de 2008. Em 2010, porém, Lucas lança, pela Coleção Rocinante da 7 letras o livro de contos Contos de Mary Blaigdfield – A mulher que não queria falar sobre o Kentucky (e outras histórias), que estamos sorteando agora para vocês.

Abaixo, a sinopse do livro disponível no site da 7 Letras:

“Lucas Viriato de Medeiros estreia na prosa com “Contos de Mary Blaigdfield, a mulher que não queria falar sobre o Kentucky (e outras histórias)”. No seu terceiro livro, o escritor apresenta Mary, uma misteriosa agente de nome estranho e passado enigmático, com uma fobia inexplicável a uma substância química utilizada em larga escala em corantes, bebidas e alimentos. A escrita ágil de Lucas dá vida a personagens instigantes em situações inusitadas como na história de amor entre uma caixa de cereal e um pacote de uvas passa; o (des)encontro de duas almas gêmeas nos corredores de um supermercado; o caso do maníaco do balde e a sua incontrolável compulsão de atirar água das janelas do prédio. Em cada detalhe do cotidiano, a lente de Lucas Viriato de Medeiros revela um caleidoscópio de cores, tramas e possibilidades, numa obra em que não faltam humor e criatividade.”

Sorteio de 5 exemplares

Se você ainda não conseguiu adquirir a Um Conto desse mês e não está se aguentando de vontade de conferir as lindezas que figuram nessa edição, eis uma oportunidade que preparamos. Tá animado? Então corre lá que é uma promoção fast.

Pra começar, você deve ter uma conta no Facebook e curtir a nossa fanpage. Depois disso, é só compartilhar (em mudo Público) a imagem que figura nosso post. À partir daí é só torcer para ser um dos cinco primeiros. Caso seja, enviaremos pra você um exemplar lindinho e colorido no conforto de sua casa.

Animou? Participe!

Mixtape de Agosto

Nossa clássica mixtape já está no ar, com as sugestões dos colaboradores de agosto. Pra abrir a sessão musical do mês, selecionamos um poema fresquinho do Diego Grando, sendo declamado pelo Alexandre Kumpinski (vocalista da banda Apanhador Só), seguida dos gritos de Gal Costa (na juventude Índia) em “Relance”.”I Call It Love”, de Emilie Simon, vem mantendo o groove com todo um clima apaixonado e setentista, abrindo espaço para a voz gostosa de Itamar Assunção  em “Custa Nada Tentar”. Glady Nights & The Pips Nicolas Jaar chegam para dar aquela aliviada, com um som instrumental / transcedental. E já que é pra matar, tem também Mercedes Sosa, prenunciando o gran finale, com a bruta flor do querer de Caetano Veloso. Os (corações) fortes sobreviverão!

A festa está pronta. É só dar o play.

 

Esc #11 – uma coluna

COMO SE POESIA NÃO FOSSE MÚSICA, E MÚSICA NÃO FOSSE LITERATURA

por Tassiana Frank

Dois meses. Rio, Saquarema, Rio, Paraty, Teofilo Otoni, Rio, Rio, Rio. Não venho aqui falar sobre estradas, cidades, cheiros ou gostos (deixo claro que eu gostaria), mas venho falar sobre música. Pop, rock, funk, jazz, samba, pagode, sertanejo, blues. Aonde eu quero chegar com tudo isso? Nas letras. Por musica, chamamos tudo aquilo que embala as vidas por sua presença continua, por seus ritmos diferentes e por suas letras marcantes. Letras marcantes?

Sim e não e depende. Achei engraçado um discurso que numa dessas escutei: “Sou restritivo quanto a música. Acho funk a escória da humanidade. Não pode ser chamado de música. Sertanejo? As letras são mais xulas que as do funk. Pagode eu não aguento é so um ai ai ai, assim você me mata… Não sei dizer se é sertanejo, pagode ou funk, parece um ‘Movimento Corrompe Geração’. Jazz é tipo musica instrumental, me dá sono, sabe? Você confunde o nome dos caras e, no fim, é tudo igual. Um americano típico, uma variação de Sinatra ou de Armstrong. Blues é aquela coisa que depende de uma garrafa de whisky pra você curtir, sabe como é, né? Eu sou um brasileiro típico. Se é pra escutar, que seja chorinho. Se é pra dançar, que seja com um samba do Noel! E se for pra chorar, que seja ouvindo Tom, Vinícius, Chico ou Toquinho. Isso sim é musica de verdade.” Então você gosta de poesia? “Não muito. Acho uma coisa muito abstrata, complicada, entende? Ninguém gosta mas fala que gosta porque senão é tachado de insensível ou de ignorante.”

A graça: a pessoa que abomina o funk é a mesma que desce até o chão, que escuta pagode enquanto lava o carro e que conhece todos os sertanejos que tocam na Itatiaia. Como viu sempre presente o rosto de Sinatra e Armstrong, nunca vai se esquecer do rosto, mas nunca vai saber que o Sinatra era so intérprete e que o Armstrong não é parente do primeiro cara que pisou na lua. E essa história de típico brasileiro que valoriza o produto nacional é uma grande desculpa para falar com propriedade daquilo que desconhece. Mas pior que não reconhecer que cada música pertence – por mais que não seja a sua favorita – a um momento da sua vida (ou a vários, como quando quebrei o braço com oito anos e estava tocando: “se ela é um morango aqui do Nordeste” e sempre que falam do braço, lá vem ela, mesmo quatorze anos depois) independente da letra, do cantor ou do estilo, é não perceber que a sua mísica favorita (grifo em música favorita) pode ser uma das mais belas poesias de todos os tempos.

Vou te contar
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho… (Jobim, Tom; Wave)

E agora, depois de relembrar não so o diálogo mas o cotidiano, agradeço a você que pacientemente leu o que eu escrevi. Não é poema, então não é complicado. Mas é grande e muitas letras agrupadas são muitas palavras e demandam tempo. E tempo é dinheiro. Então, eu deveria ter cantado e assim teria sido mais escutada, já que ser lido é complicado e ser ouvido depende do estilo musical. E pra ser literatura? Só se não for grande ou se não for poesia, porque poesia não é musica e musica não é literatura.

Centenário Nelson Rodrigues

“A ficção de Nelson Rodrigues está cheia de coisas atrozes e imorais, é verdade. A vida também. Mas quem, acreditando em Deus, ousaria classificá-lo de imoral, porque a vida, criação de Deus, está cheia de coisas atrozes e imorais?”

Manuel Bandeira

Seja o dramaturgo, o cronista, o romancista ou Suzana Flag, Nelson Rodrigues está, sem dúvida, impregnado na vida artística do país, tanto nas mais absurdas situações como nos mais singelos beijos de novela. No dia em que comemora-se 100 anos de seu nascimento, nós da Um Conto gostaríamos de deixar registrado aqui nossa singela homenagem e nosso afetuoso muito obrigado!

Abaixo, confiram trechos do filme Fragmentos de dois escritores, João Bethencourt , no qual Nelson aparece comentando, entre outras coisas, sobre seu processo criativo: