Um Conto – Edição de Dezembro

A edição desse mês já saiu, e os mais espertos já leram (se você ainda não leu, é só clicar aqui). Como de praxe, publicamos agora o pequeno perfil daqueles que contribuíram para o nascimento de mais uma revista. Confiram aí. Se gostar de algum desses, comente abaixo, que passamos o contato (risos).

ANDRÉ CAPILÉ

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André Capilé nasceu na margem mansa do Sul Fluminense em 1978; residiu em Juiz de Fora – MG, onde se graduou em Filosofia pela UFJF, em 2009. Cofundador e ex-organizador do ECO – Performances Poéticas, também é parceiro de ações do site TextoTerritório. Publicou, em conjunto com Carolina Barreto, o livro de poesia Dois (Não Pares), no ano de 2008; a plaquette ZANGARREIO, em 2011; o livro de poesia rapace, em 2012, pela Editora TextoTerritório. Mestre em Literatura Brasileira pela PUC-Rio, onde cursa, atualmente, doutorado em Cultura, Literatura e Contemporaneidade.

FERNANDO BRAIDA

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Fernando Braida, apenas um garoto da cidade, nascido e criado em Juiz de Fooora, gostaria de pegar um trem a meia-noite para ir a qualquer lugar, mas está esperando o tal trem de superfície que iriam fazer na cidade e também o índice de violência dar uma reduzida. Escolheu fazer Bacharelado Interdisciplinar em Artes e Design, pois como todo ariano, acredita que a vida é uma grande nave louca em que temos que tirar leite de pedra pra fazer sucesso. Gosta de desenhar, porque não se acha capaz o suficiente de fazer uma “faculdade de verdade”, como diriam os mais velhos. Acha que ser adulto é um mito, provavelmente feito pela Rede Globo, principalmente pra tirar o Collor, e talvez por isso seja tão bobo quanto uma criança.

LUIZ COELHO

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Luiz Coelho nasceu em 1984, em Realengo, mas é carioca de Olaria. Rubro-negro e professor de Literatura. Estudou filosofia, porém, preferiu se formar em Letras. Obteve o título de Mestre em Literatura pela PUC-Rio, no ano de 2011, defendendo a dissertação “Representações não-figurativas da dor”. Publicou neste ano seu primeiro livro de poemas, agulhas descartáveis, pela editora oitoemeio. Publicara poemas no Plástico Bolha e na Revista Modo de Usar & Co. Atualmente, participa do coletivo Noves fora.

LEONARDO CHIODA

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Leonardo Chioda lê imagens e escreve. Nascido em Jaboticabal, interior de São Paulo, vive maior parte do tempo na capital, transitando entre a pedra e a planta. Formado em Letras pela UNESP e em Literatura Italiana pela Università degli Studi di Perugia, é professor de língua italiana e cursa Poesia Portuguesa Contemporânea na USP. Autor do blog Café Tarot, pesquisa, ensina e publica sobre os arcanos refletindo seus traços na cultura popular, no cinema, nas artes plásticas e na literatura [com a bênção imaginária de Ítalo Calvino]. Vem constatando que o mundo é um oráculo tecido em poema. E tem semeado ventos pra colher ‘Tempestardes’, seu primeiro livro.

DANIELA DELIAS

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Daniela Delias nasceu em Pelotas, Rio Grande do Sul. Na Praia do Laranjal, à beira da Lagoa dos Patos, o Mar de Dentro, escreveu seus primeiros versos.  Autora do livro de poesia Boneca Russa em Casa de Silêncios (Editora Patuá, 2012), tem poemas publicados também no Livro da Tribo, nas revistas literárias Germina e Mallarmargens e no blog de poesia Do Lado de Cá. Apaixonada por literatura, música, fotografia, cinema e psicanálise, é também psicóloga e professora universitária. Mora entre o mesmo mar de águas doces e silenciosas de sua infância e o oceano, na Praia do Cassino, em Rio Grande, extremo sul do país.

GABRIEL RESENDE SANTOS

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Gabriel Resende Santos nasceu no Rio de Janeiro, na última década do século passado. Não é religioso, mas acredita em Whitman e Rimbaud. Tem textos publicados em revistas eletrônicas e alguns veículos impressos. Mantém os blogues Occam, big bangs e outras explosões  e Os Escritores Invisíveis.

OTÁVIO CAMPOS

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Otávio Campos é co-editor da Um Conto – Revista de Literatura o que, consequentemente, o leva a ler milhares de contos e poemas mensalmente. Natural de Piacatuba – MG, mudou-se para Juiz de Fora em 2010, onde reside até hoje e está terminando sua graduação em Letras pela UFJF. Interessa-se demasiadamente pela música latina e a literatura contemporânea. Esporadicamente publica no blog Pois é.

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Um Conto 15 – Literatura para o fim do mundo

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E se o mundo acabasse hoje? Imagine só quantos projetos deixaríamos de concretizar, quantos livros ficariam pra sempre na estante sem aquela leitura futura (que a gente sempre agenda). Pensando nisso, fizemos uma edição “especial” com aqueles textos que você precisa ler antes do mundo acabar. E é claro que nossa revista, nada temática, não selecionou poesias com temas apocalípticos ou com paisagens de um mundo devastado. Os quadros que compõe a Um Conto 15 não anunciam o fim, mas trazem a mais recente produção contemporânea de poetas que estão só começando.

Os selecionados para comporem o quadro de poetas do fim do mundo foram André Capilé, Luiz Coelho, Leonardo Chioda, Daniela Delias e Gabriel Resende Santos. A ilustração da capa e do Quadro II ficou por conta do sempre parceiro Fernando Braida. E o conto que dá corpo a essa edição é do nosso editor Otávio Campos que, depois de mais de um ano, volta a publicar na revista.

E se o mundo acabar amanhã? E se o mundo acabar mês que vem? Não importa, estamos preparados. E, para que vocês também estejam, aí vai nossa edição virtual, para ser lida no conforto do computador (é só clicar na imagem abaixo). Mas, se você é daqueles que quer ter no bolso a Um Conto, como amuleto da sorte, é só procurar a edição física na livraria A Terceira Margem, em Juiz de Fora, ou entrar em contato conosco.

Bom fim do mundo para vocês.

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Monstros fora do armário

É interessante pensar em como a relação entre pais e filhos vem sendo tratada no âmbito da literatura brasileira contemporânea (e lá vou eu tocando mais uma vez nesse assunto), bem como o esvaziamento de sentido da instituição familiar como um todo nas últimas décadas. Em seu livro de estreia, o gaúcho Flavio Torres se propõe (ou não) a “estudar” essas relações delicadas e perigosas, tornando-as mote para a concepção dos onze contos que compõem Monstros fora do armário (Não Editora, 2012).

O livro é dividido em três sessões: “Concepção”, “Gestação” e “Legado”, cada qual, no projeto gráfico, com sua tonalidade característica, o que nos faz lembrar um pouco de A fera na selva, de Henry James, editado pela Cosac Naify. À medida que as situações no livro vão se tornando mais intensas, as páginas vão escurecendo, trazendo ao leitor a experiência ativa da leitura. A primeira parte do livro (“Concepção”), composta por um único conto, transborda um lirismo desconfortável desde a primeira linha até o final. Mesmo tratando de dois temas que causam um impacto, Flavio transforma o conto em uma sutil, porém desesperada, procura pela gravidez e, consequentemente, a busca em deixar descendentes por uma mulher que já possui seus dias contados. Pode-se ler este como o conto mais leve dentre os demais, possivelmente por este motivo, as páginas são brancas, com tipografia negra.

A sessão seguinte é composta por nove contos, sintéticos (não passam de dez páginas), densos e sem títulos. Qual um soco no estômago, “Gestação” traz, quase em sua totalidade, personagens crianças, que guiam ou amparam a narrativa para que esta atinja seu objetivo, que parece ser única e exclusivamente causar o desconforto do leitor. Com páginas acinzentadas, a segunda parte do livro traz contos como o de uma criança de rua que procura uma prostituta, pensando ser esta sua mãe, um pai que obriga o filho a cometer zoofilia, duas crianças que matam um cachorro para evitar o sofrimento deste, entre outros, mas creio que o destaque maior deve ser dado à prosa intitulada “Quarto” (no sentido ordinal). Um simples almoço entre pai e filho, preparado nas primeiras linhas e, logo em seguida, em flash back, somos apresentados aos fatos que precederam esta cena. Somos remetidos, no instante, à narrativa dura, sangrenta, e crua, de Ana Paula Maia na Trilogia “A saga dos brutos” – os mais cinéfilos provavelmente se lembrarão de Estômago , ou até mesmo Sweeney Todd.

Os contos presentes na segunda parte do livro dificilmente serão classificados como originais ou surpreendentes, mas operam quase como dentro de uma brincadeira, na qual o leitor, para fugir do choque anterior, procura saída nas páginas seguintes e, qual uma leitura no escuro, compreendem que não há saída. Uma sucessão de fatos e imagens que se escurecem até a parte final: “Legado”. De páginas completamente negras, o único conto que compõe a terceira sessão do livro surge para quebrar a velocidade e a dinâmica da parte anterior. O que parece ter sido jogado no papel e embaralhado em “Gestação”, aqui já aparenta ter sido um trabalho muito mais cuidadoso, com uma rigidez técnica que remete ao conto de abertura do livro. Esse sim é um conto que deve ser lido mais vezes, para que possamos captar nas entrelinhas (mas não necessariamente) a perversão e a palidez urbana. Sem exageros, o livro termina com um beijo que, diferente da leitura da orelha, não deve ser enxergado como uma esperança, mas uma armadilha cravada no asfalto.

Todos temos nossas paranoias e medos, é claro, mas enquanto alguns preferem deixá-las trancadas em casa, outros as exacerbam descaradamente. Flavio Torres traz para fora (do armário) esses monstros que não existem apenas no nosso imaginário, mas estão nas ruas, nas relações cotidianas, nas moedas que são pedidas no trânsito. Mais do que um simples livro de contos contemporâneo, Monstros fora do armário é um estudo antropológico hiper-realista mesclado com uma experiência estética única (?), devido ao zeloso e bem cuidado projeto gráfico de Samir Machado de Machado (que explica tudo direitinho aqui), que permite ao leitor ser instrumento quase ativo nessa obra.

por Otávio Campos

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Indicações literárias #14

Tardamos mas não falhamos: eis, enfim, as indicações literárias dos colaboradores da nossa edição de Novembro. Temos desde Ian McEwan, passando por (dois) livros de Gullar, até Adolfo Caminha e Fred Uhlman. Se está sem ideia do que ler nessas férias, não sairá desse post sem ao menos uma perspectiva. Boa leitura!

Reparação

Alex Sens Fuziy indica Reparação, de Ian McEwan. “Meu primeiro McEwan, lido em poucos dias sob luz de velas, ansiedade, lágrimas e completo assombro. Romance considerado sua obra-prima,Reparação é uma bela e triste história de amor corrompida pela mentira, rasgada pelas pontas laminosas de uma imaginação maniqueísta, tendo como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial e um sentimento de culpa tão irreparável quanto à época.”

a luta

João Lima indica A luta corporal, de Ferreira Gullar. “Li na minha adolescência. Não lembro ou não sei qual a sensação de um soco, mas esse livro me pareceu à época um murro bem dado na boca do estômago. A luta corporal, segundo o próprio Gullar, é o primeiro “bom” livro de sua bibliografia e impressiona por sua vitalidade e virulência. Escrito durante os vinte e poucos anos do poeta, o livro explora as possibilidades do verso no espaço em branco como poucos antes haviam feito. É obrigatório para os poetas que ainda hoje tentam ousar na forma do poema.”

o reencontroAndré Foltran indica O Reencontro, de Fred Uhlman. “(…) é a história de uma devoção intensa e inocente entre dois jovens amigos que crescem juntos no interior da Alemanha e são separados pela ascensão do nazismo. O que é esplêndido e inigualável no livro de Fred Uhlman é que ele revela o outro lado da moeda impregnado pela torpeza, pela estupidez e pela crueldade do ser humano, expondo, em contrapartida, sua grandeza e sua integridade. Uma obra literária rara!”

DENTRO_DA_NOITE_VELOZ_1291494980PFarley Roch indica Dentro da Noite Veloz, de Ferreira Gullar: “Escrito entre 1962 e 1974, o livro abrange o período em que Gullar se posiciona criticamente diante do cenário político brasileiro até parte do seu exílio. A obra traz poemas que demonstram a versatilidade do autor uma vez que busca reinventar sua linguagem e a si próprio, abordando temas que vão do forte apelo social ao seu tão bem traduzido ‘espanto’ frente a vida e os mistérios do mundo. Um livro-aula essencial que serve de modelo e referência para jovens poetas que almejam amadurecimento estético na arte de confeccionar poesia.”

antologiaSérgio Sansil indica Cartas do Coração – uma antologia do amororganizada pela jornalista Elizabeth Orsini.  ” [É] O livro que talvez mais tenha tido que pagar multas na biblioteca por atraso na devolução. A linha entre resgate histórico e confissão passional pelo qual se delineia a obra nos faz rir, chorar e se enfurecer ao ver que uma das grandes formas de expressão do amor através da escrita, a carta tem seu legado preservado em poucas publicações como esta. Dos devaneios platônicos a fúria lasciva de grandes mitos e personagens da nossa história, que também amaram, se decepcionaram e sofreram.”

Karline Batista indica A Normalista, de Adolfo Caminha. “Compartilho uma das obras representativas do Naturalismo brasileiro, a saber, A Normalista deA Normalista - Adolfo Caminha Adolfo Caminha. O enredo, audacioso à época, expõe os bastidores das ditas casas de família denunciando o famoso caso de abuso sexual praticado pelo padrinho contra a sua afilhada Maria, a normalista. Ao longo do livro o leitor se sentirá perplexo diante da trama e se envolverá em suas nuances regionais tais como a linguagem e os costumes, mescladas com a representatividade da sociedade brasileira e sua hipocrisia.

 

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Guilherme Portes indica Marcel Duchamp, de Calvin Tomkins: “Imprescindível para quem pesquisa Arte contemporânea, o livro narra a vida do principal responsável pelas questões atuais da arte.”

Esc #23 – Não dá mais pra Rubem Fonseca

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por Otávio Campos

Não sei desde quando, muito menos o motivo, mas já faz algum tempo que minhas leituras são quase que exclusivamente de romances brasileiros contemporâneos. Tais narrativas não me incomodam, muito pelo contrário, me dão o lacere e o docere fundamentais da literatura – até certo ponto. Me incomoda sim é a literatura que vem sendo catalogada como contemporânea, a suposta massa uniforme feita de crachá para simplificar a designação das produções literárias brasileiras das últimas décadas. Apesar de acreditar não ser apenas isto, é inegável a enorme quantidade de livros na minha estante que servem para a crença de que este grupo se caracteriza pela narrativa urbana, violenta, com destaque para personagens marginais e situações incômodas.

É bem perigoso afirmar qualquer coisa em literatura sem os conhecimentos adequados, mas creio que tal movimento se inicia justamente como uma ruptura do que vinha sido produzido no país desde a geração modernista de 30, a prosa regionalista (que inegavelmente colocou o Brasil em holofotes internacionais), preocupada com a denúncia social e o apontamento das mazelas da parcela brasileira encoberta pelo eixo Sudeste. Chega um tempo em que a situação se inverte e a literatura que vem sendo produzida não reflete realmente a realidade brasileira (como se isso fosse o mais importante) e vem Rubem Fonseca com a famosa frase “Não dá mais para Diadorim” e deságua todo esse movimento que conhecemos hoje por literatura brasileira contemporânea.

Vivemos, desde então, nesse estado de negação do sertão, que se mostrou tão forte que foi capaz de abafar o Movimento Armorial, que tinha por princípios justamente sair do marasmo que havia se tornado a prosa regionalista. Até aí tudo bem, mas creio que o problema é deixar a literatura brasileira  produzida ultimamente se resigne e passe a se tornar essa coisa homogênea, pré-feita, cinza e inabalável. O comodismo é o que mata a arte. Chega um momento em que é nossa hora de dizer não, não dá mais para Rubem Fonseca, ou Patrícia Melo, ou Ana Paula Maia (que fique bem claro que não tenho nada contra esses autores, visto que sou leitor voraz dos mesmos). E não, não mesmo, a literatura contemporânea brasileira não é só isso. O que é então?

Creio que essa dúvida e a vontade de mudar e encontrar seu lugar (não necessariamente visando tal finalidade) não é algo que passa apenas na minha cabeça de leitor, mas também de muita gente boa que vem sendo publicada ultimamente e que ainda não é lida com tanto fervor, justamente pela “maldição” urbana que nos foi jogada. Existe um tema que se mostrou muito presente na minha vida de consumidor de arte neste ano: a estrada, e acredito que esteja aí a gênese de um movimento que vem se expandindo e dando novas feições ao que vem sendo produzido. Agora seria muito pertinente citar o On the Road, mas sinto muito em dizer que de maneira alguma este livro (como também o recente filme) cabe dentro do assunto. Falo da literatura exclusivamente brasileira (isso existe?), apesar de estar ciente das influências de Kerouac nessas obras.

O primeiro livro que li e que me fez abrir os olhos para estas “novas questões”, sem dúvida foi Lavoura arcaica que, apesar de não

A estrada em Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito

A estrada em Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito

estar muito presente, a estrada é a questão central – o deslocamento de André rumo ao desconhecido, à libertação, e sua volta à casa. Em seguida, veio Galiléia, do Ronaldo Correia de Brito, no qual a estrada é quase que o personagem principal do livro, palco de quase todas as ações e reações dos personagens no decorrer da narrativa. O movimento que Brito faz com sua obra deixa explícita essa relação de fuga da literatura contemporânea uniforme e a busca pelo “dentro”. Os personagens saem do caos da metrópole rumo à fazenda Galiléia, no sertão baiano. Como se fugissem de Rubem Fonseca e se aproximassem de Guimarães Rosa – não tão assim, não tão explícito, talvez o movimento não seja esse, mas por questões “didáticas” vamos acreditar que é assim que funciona.

Resquício da modernidade, a estrada se configura como esse não-lugar, sem laços, críticas, moralidade, um espaço de passagem. Nela se perdem as marcas do tempo e os olhares se multiplicam, se perdem, aumentam e diminuem. Nunca li o livro de Kerouac, apesar de o achar necessário, mas meu fascínio por esse tema começou a ser latente quando ouvi o disco Caravana Sereia Bloom¸ que a Céu lançou esse ano, no qual todas as músicas montam um Road disco, com referências ao nordeste brasileiro e as fronteiras da América Latina. Foi um casamento perfeito – de um lado minha atenção voltada para Galiléia junto da estética de músicas como “Retrovisor”.

Acho que foi a partir daí que eu comecei a pensar que isso é literatura, isso é literatura contemporânea, isso é literatura contemporânea brasileira (?), sem fronteiras, sem estigmas, de um jeito honesto sem cair no lugar comum. Sem cair em lugar algum, talvez, como que flanando pelo chão de asfalto, em um deslocamento que não necessariamente significa uma procura.

Daniel Galera morou por um tempo na pequena Garopaba para escrever Barba ensopada de sangue

Daniel Galera morou por um tempo na pequena Garopaba para escrever Barba ensopada de sangue

Agora aberta a questão posso citar inúmeros livros que me vêm à cabeça que começam ou fundamentam-se com o deslocamento para o interior, tanto dos personagens do livro ou até mesmo dos autores. Cito dois que ainda não li, mas estão na minha lista de próximas leituras. O primeiro é Os malaquias, da nova queridinha da Companhia das Letras, Andrea del Fuego. Vencedor da sétima edição do Prémio Literário José Saramago, o romance se desenvolve na pequena e pacata Serra Morena. As questões aqui não envolvem urbanicidade, violência, mas, pelo que me parece, possuem um caráter quase lírico de trabalho de linguagem e flertam com o realismo mágico. Outro exemplo a ser citado é o recente Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, no qual o autor esteve envolvido por quatro anos, chegando até mesmo a “fugir” do centro metropolitano no qual estava encerrado e viver durante o período de escrita, na cidadezinha praiana Garopaba.

É, não dá, não dá mesmo para enclausurar a produção brasileira contemporânea em uma caixinha etiquetada como: questões urbanas, o que muito me excita. Creio que o lugar da literatura é justamente esse: o não, a estrada, o asfalto (metafóricos, ou não). Mais do que encontrar um lugar, os escritores e também seus leitores devem não permitirem-se cair no lugar cômodo, no seguro. O caminho que faz a literatura recente respirar é justamente o deslocamento, possibilitando tanto uma aproximação com Diadorim quanto com Maiquel (O matador), ou todas as outras coisas que existem entre eles e que também necessitam de um lugar.