Escoliose #10 – uma coluna

DAS LÍNGUAS QUE ENTENDEMOS SEM ENTENDER

Ou sobre Pingu, Cortázar, Tolkien e Sigur Rós

por Danilo Lovisi

Como quase toda criança brasileira nascida nos anos noventa, passei grande parte das minhas manhãs e finais de tarde assistindo programas infantis na TV. Lembro que eu e meu irmão deitávamos no sofá para assistir enquanto tomávamos toddy ou algo do tipo. Grande parte do que víamos era, sim, uma porcaria, implantando ideias e conceitos que reverberam na minha mente até hoje, como o arquétipo de casa ideal que ainda é próximo das vistas nos filmes da Sessão da Tarde, com graminha na entrada, bicicletas caídas no asfalto, cães grandes e esbeltos correndo pela rua e casa na árvore. Por outro lado, tinha muita coisa boa também (Ave, TV Brasil!).

Bem, só escrevi esse preâmbulo autobiográfico pra dizer que dia desses estava deitado no sofá assistindo TV e tomando toddy quando – tô de férias, ok? Minha universidade tá de greve e o governo não coopera – quando, passando de canal, reconheci a vinheta de um desses programas que assistia: Pingu. Pra quem não conhece, é uma série em stop­-motion sobre um simpático pinguim chamado, é claro, Pingu, e mostra seu cotidiano no Polo Sul com sua família e amigos. O fato é que os personagens não falam uma língua específica, mas fazem vocalizações que demonstram seus desejos e ideias sobre determinadas coisas, e é tudo absurdamente compreensível – para um programa infantil é uma jogada e tanto, atingindo todos os níveis intelectuais das crianças e em qualquer parte do mundo. Confira abaixo:

Enquanto assistia fiquei pensando em outras expressões artísticas que utilizassem de algum tipo de língua específica, ou vocalização compreensível. Dei uma pesquisada e descobri que isso tem até um nome: artlang ou língua artística, que são, grosso modo, línguas artificiais criadas por prazer estético ou para trazer mais densidade artística para determinadas obras.

Lembrei, então, da banda islandesa Sigur Rós que, em várias de suas canções, utiliza do hopelandic (vonlenska, em islandês) que não é exatamente uma língua com gramática, vocabulário etc, mas é utilizada pela banda principalmente quando as melodias são compostas antes das letras, ou nenhuma outra língua se adéqua aos sons. Eles inclusive têm um álbum, o (  ) – sim, são parênteses – que não tem título, assim como as canções, e não há letra: tudo é cantado nessa língua artística, o hopelandic e, intuitivamente, também compreendemos algo, ao menos o sentimento passado pelas músicas. E é interessante dizer que o encarte desse disco é todo em branco e, segundo os islandeses, isso deixa os ouvintes ainda mais livres para imaginarem o que quiserem sobre suas canções. Para tirar suas próprias conclusões, confira abaixo a primeira música do álbum:

Vasculhando pela memória lembrei de um capítulo d’O Jogo da Amarelinha, de Júlio Cortázar, que é escrito em glíglico, língua inventada pelo autor e que, pelos sons dos fonemas, nos remete a um ato sexual. Abaixo você lê a cena na, cof, língua original (espanhol):

Apenas él le amalaba el noema, a ella se le agolpaba el clémiso y caían en hidromurias, en salvajes ambonios, en sustalos exasperantes. Cada vez que él procuraba relamar las incopelusas, se enredaba en un grimado quejumbroso y tenía que envulsionarse de cara al nóvalo, sintiendo cómo poco a poco las arnillas se espejunaban, se iban apeltronando, reduplimiendo, hasta quedar tendido como el trimalciato de ergomanina al que se le han dejado caer unas fílulas de cariaconcia. Y sin embargo era apenas el principio, porque en un momento dado ella se tordulaba los hurgalios, consintiendo en que él aproximara suavemente su orfelunios. Apenas se entreplumaban, algo como un ulucordio los encrestoriaba, los extrayuxtaba y paramovía, de pronto era el clinón, las esterfurosa convulcante de las mátricas, la jadehollante embocapluvia del orgumio, los esproemios del merpasmo en una sobrehumítica agopausa. ¡Evohé! ¡Evohé! Volposados en la cresta del murelio, se sentía balparamar, perlinos y márulos. Temblaba el troc, se vencían las marioplumas, y todo se resolviraba en un profundo pínice, en niolamas de argutendidas gasas, en carinias casi crueles que los ordopenaban hasta el límite de las gunfias.

Enfim, são vários exemplos que eu poderia lembrar ou encontrar. Desde as línguas complexas inventadas por Tolkien para O Senhor dos Anéis, até o Klingon de Star Trek. E acontece uma coisa interessante quando entramos em contato com qualquer uma dessas línguas: sempre procuramos associá-las a alguma outra que conhecemos. Isso deve ser explicado cientificamente de forma bem objetiva, mas por outro lado só prova que a língua que falamos não importa muito, pois sempre nos entenderemos de alguma forma, principalmente quando a língua que escolhemos é a arte.

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4 comentários em “Escoliose #10 – uma coluna

  1. Carol Caniato disse:

    Que coincidência! Hoje eu assisti As Biciletas de Belleville, é uma animação muito bonita e muito diferente de todas as outras que eu já vi, e eles também falam em uma língua inventada. Eu passei um tempão tentando identificar qual era a língua, mas cheguei a conclusão de que deve ser uma mistura louca entre francês e inglês. Mas é mesmo interessante como a gente consegue entender perfeitamente o que está acontecendo. Vale a pena assistir! 🙂

  2. Poxa, adoro “As Bicicletas de Belleville”, e não sei como não lembrei dele pra falar aqui no post, haha. Pois é, há poucas falas no filme, e quando existem, são nessa língua “neutra”. Se ainda não assistiu, recomendo “L’Illusionniste” (O Mágico, aqui no Brasil) que é do mesmo criador de Belleville e segue a mesma linha, com pouquíssimas falas mas que nos cativam de uma forma muito diferente e, hm, singela.

    Obrigado pelo comentário, Carol! 🙂

  3. […] #10: Das línguas que entendemos sem entender, por Danilo […]

  4. […] português), seguindo com (  ), o álbum sem título e sem letras (que escrevi mais detalhadamente na coluna do mês passado), e, logo depois, Takk… (Obrigado…), que, na minha opinião, é o mais, hm, completo […]

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