Escoliose – uma coluna #4

TENHO MAIS AMIGOS QUE LIVROS

Ou como nem sempre o melhor da literatura são as palavras

por Laura Assis*

Um mês depois de publicar Suave é a noite (1934), F. Scott Fitzgerald escreveu uma carta ao amigo Ernest Hemingway pedindo uma opinião sincera sobre o livro. “Eu gostei e não gostei” é a primeira frase da resposta de Hemingway, que discorre com honestidade sobre os pontos fortes e fracos da obra de Fitzgerald e aconselha o amigo a esquecer suas tragédias pessoais e “escrever verdadeiramente”. O que Hemingway faz por meio da carta é chamar Fitzgerald em um cantinho metafórico e ter com ele uma conversa franca, apontando vários defeitos no livro e no estilo e chamando atenção principalmente para problemas de verossimilhança. Mas, ao mesmo tempo, não deixa de elogiar sinceramente o talento do amigo (“Você pode escrever melhor do que ninguém pode”) e termina dizendo que gostaria muito de encontrá-lo pessoalmente qualquer dia e conversar sóbrio sobre a vida.

A amizade de Fitzgerald e Hemingway não durou muito, mas é um bom exemplo de como pode funcionar a relação entre escritores. Porque elogiar e achar seus textos “bonitos” é, basicamente, a função da sua mãe. Te dar parabéns por essa ou aquela publicação ou pelo lançamento de um livro é, no geral, o que fazem seus amigos que não escrevem. Mas esse mesmo livro que sua mãe tanto gostou e te rendeu tantas congratulações, pode também ser odiado e completamente destruído por determinadas pessoas, a quem geralmente chamamos de críticos (isso se você tiver a sorte de algum crítico um dia se dignar a ler algo que você escreveu). Bom, mas então a quem cabem as leituras e comentários que não te fazem achar que você é o próximo Machado de Assis, mas também não têm como objetivo de te deixar à beira do suicídio? Continuar lendo

Mixtape de Junho

A partir desse mês nossas fitamistas ganharão um toque mais, hm, poético: serão sempre iniciadas com algum poema em áudio. Para começar bem, temos Chico Buarque (aniversariante do mês) declamando “Os Inocentes do Leblon”, do Drummond (homenageado da próxima Flip). Em seguida, surgem os leves acordes da hypada “Somebody That I Used To Know”, do Gotye (confiram o belo clipe aqui), acompanhada por “Jesus, Etc.”, do Wilco, nos levando para uma cidade onde ‘voices escape singing sad sad songs’. Correndo a viagem, chegamos ao Brasil, recebidos pelo “Vampiro” de Caetano Veloso e pela “Vou me afundar na lingerie”, canção xuxu beleza de Arnaldo Baptista, que abre caminho para a interpretação arrepiante de Elis Regina em “Cartomante”, derrubando reis de espadas, ouros, paus, até não ficar nada, apenas a não menos densa “Shattering Sea” da estreante nas nossas mixtapes Tori Amos, abrindo um ciclo para que every line, curve, twist and turn of a brutal word sejam dissolvidas na experimentalista “Ionisation” de Edgard Varèse. No mais, ouçam essa que é uma das mixtapes mais harmônicas e fluídas que já tivemos por aqui. É só clicar no player abaixo e aproveitar:

Escoliose – uma coluna #3

“NÃO SE AFOBE QUE NADA É PRA JÁ”

Ou sobre forró, Rio+20 e uma canção de Chico

por Tassiana Frank

Terça-feira, dia 19 de Junho. Noite, calor, Rua do Ouvidor, Rio + 20, véspera de feriado. Estar em um forró lotado só reforça a ideia que martelava minha cabeça: juventude alienada: controle e televisão. O governo sucateando a educação e gastando uma pequena fortuna para mostrar para o mundo que o Brasil se importa sim com a sustentabilidade do planeta. Gastando com a sustentabilidade, tudo certo! Continuar lendo

Sorteio #5: Há prendisajens com o xão, de Ondjaki

Esse mês o blog atingiu a marca de 10.000 visitas desde o nosso início, em Outubro de 2011. Aproveitamos mais uma vez para agradecer a todos vocês que, de alguma forma, foram responsáveis por isso, e decidimos então presenteá-los com o sorteio de um exemplar autografado do livro Há prendisajens com o xão, do escritor angolano Ondjaki, que inclusive participou da nossa nossa edição de dezembro de 2011.

Sobre o livro: “do chão promovido a almofada, do nosso limite a ele, do nosso encontro sob ele em algum tempo desconhecido, ondjaki nos transporta para um diálogo com o tempo, com a palavra, com a liberdade da escrita, com a imaginação de seres misteriosos. descrições de uma natureza em brisa de jangada e zunzum de abelha. e há também o encontro do sentimento com os seres que somos. os lugares e as descoisas. mais conhecido como prosador aqui no Brasil, dessa vez o autor nos oferece sua escrita em poesia construindo (ou desconstruindo) com muita intimidade cada palavra, cada verso, à sombra das árvores, pela alma das gaivotas, perto de um cardume de tardes. ou do chão.” (Fonte: site da Pallas Editora)

Pra participar basta curtir nossa fanpagecompartilhar o link da promoção: http://migre.me/9AHag

O sorteio vai até o dia 29/06/2012.

Participe!

Resultado do sorteio: http://sorteie.me/fb/lz3

10.000 visitas e um presente

Estamos realmente lisonjeados por termos alcançado 10.000 visitas. Talvez você possa estar pensando que é um número baixo, visto que temos oito meses de existência. Mas é bom não se esquecer de que estamos falando de um blog de literatura, que possuía poucos acessos nos primeiros meses. Sabemos que existem blogs que recebem esse número por dia, e os parabenizamos (talvez nos encaminhemos para tal patamar um dia), mas o nosso sobrevive com uma parcela restrita de leitores, realmente dispostos a discutir a sagrada literatura como também conhecer o que de novo vem surgindo dentro deste “mercado”. Portanto, gostaríamos de agradecer a todos vocês que fizeram possível este marco. Contamos sempre com sua presença por aqui e estamos cada vez mais preocupados com a qualidade literária do que é produzido e divulgado nessa nossa região.

Para comemorar este feito tão importante para nós, vamos sortear um livro que estávamos guardando para uma ocasião especial: o exemplar autografado de Há prendisajens com o xão, do angolano e sempre parceiro Ondjaki. Se interessou? Saiba mais sobre o livro aqui e aguarde a promoção, que já deve estar disponível amanhã.

Saudações, grandes abraços e que venham mais números.

Um Conto – Edição de Junho

Vocês já conheceram o nome dos responsáveis pela nossa edição de número 9, agora é a hora de descobrir um pouco mais sobre eles. Para confirmar ainda mais a rotatividade nacional da Um Conto, as colaborações desse mês vieram de vários estados brasileiros, do Rio à Paraíba! E temos não apenas contistas, poetas e desenhistas, mas dramaturgos, cineastas e professores. Sem mais para o momento, confiram abaixo 7 razões para ler sua porção literária de junho.

Alan Villela Barroso, nascido em Leopoldina, MG. Atualmente, vive em Ouro Preto, onde finaliza sua graduação em Artes Cênicas e é professor de Artes na Educação Infantil. Escreve em seu blog pessoal, e, de quando em vez, atualiza seu blog de podcasts literários. Participa dessa edição com um conto.

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Letícia Simões tem 23 anos e há alguns trocou Salvador pelo Rio de Janeiro. Manda muitos, muitos e-mails. Quando não está escrevendo, coleciona dedicatórias de livros usados. Formada em Comunicação, hoje estuda História e Filosofia. Desde 2007, publica poemas no jornal carioca Plástico-Bolha. Ainda não rodou o mundo, mas teve curtas-metragens exibidos na França, na Inglaterra e no México. Em 2011, finalizou seu primeiro longa-metragem, sobre a escritora Ana Cristina Cesar. Letícia participa dessa edição com um poema.

Marcus Groza é poeta, dramaturgo, professor e devoto do céu violado. Morou os últimos oito anos em São Paulo – SP.  É Mestre em Artes pela UNESP e graduado em Filosofia pela USP. Além de literatura e teatro, seus interesses transitam por música experimental e arte urbana. Marcus participa dessa edição com um poema.

Anna Apolinário, 25 anos, leonina, poetisa, pedagoga e mãe da Sophia. Natural de João Pessoa, Paraíba. Publicou Solfejo de Eros (Poesia, 2010, Câmara Brasileira de Jovens Escritores – Rio de Janeiro). Tem publicações em  várias antologias nacionais e revistas literárias. Foi premiada com o 4° lugar no VI Festival de Poesia Encenada do Sesc Paraíba. Prepara seu segundo livro de poemas com título provisório Saphira. Anna participa dessa edição com um poema.

Larissa Andrioli é juizforana, tem 21 anos e está concluindo o curso de Letras. Possui poemas publicados em diversos sites e no seu blog pessoal, o Cahier. Em 2011 lançou seu primeiro livro de poemas, No silêncio de um show de rock (Aquela Editora), e participou da nossa primeira edição, em outubro do mesmo ano. Larissa participa dessa edição com um poema.

Fabio Ramos publica seus escritos no Fake Portrait e no blog coletivo Texto de Garagem (toda quarta-feira). Sintetiza seus pensamentos através da poesia. Vive, observa, silencia, reflete e escreve. Está concluindo o curso de Letras (Inglês/Português). Participa dessa edição com um poema.

Paula Duarte é meio ex- estudante, não praticante; meio futura jornalista com um útil diploma. Acorda (muito) mal-humorada, durante o dia toma café excessivamente/compulsivamente e geralmente está com sono. Hoje (entende-se todos os dias) está preocupada porque não sabe se vai dar tempo. Crê no Chico Buarque. Não freqüenta missas, cultos e nem terreiros. Tem saudades de quando o limbo era só pra crianças não batizadas, afinal era bom ser V.I.P. em algum lugar. E se o avião estiver caindo provavelmente não irá rezar pro Chico. É… não vai dá tempo. A partir da meia noite é acometida de ataques de bom humor (não sabe se pode chamar esse humor negro de bom, mas ok) que na maioria das vezes é convertido em longas conversas essencialmente sem sentido. Paula participa dessa edição com dois desenhos.

Escoliose – uma coluna #2

O SOM DO TEXTO QUE LATEJA NO SILÊNCIO

Ou sobre butecos, jukeboxes e literatura

por Danilo Lovisi

Próximo à minha casa existem três bares. Durante todo o tempo que vivi aqui (vim com 7, portanto, 13 anos) convivi “bem” com todas as consequências de se viver próximo a um bar. No meu caso, não bares, mas três butecos. E as consequências são várias: desde bêbados cativos da esquina da minha rua (minha casa é a 1, na esquina, portanto, minha porta) que me viram crescer e eu os vi (e vejo) definhar com os anos, até as brigas e festas pela madrugada. E as músicas. Ah, as músicas! Posso me dizer conhecedor de grande parte da produção musical do circuito sertanejo-brega-funk-legião-music da última década graças aos carros de som dos frequentadores e das jukeboxes cada vez mais (e mais!) altas. E é sobre uma dessas máquinas, e um desses bares (o mais novo) que começarei a falar, mas não só isso. Entrará aí o ato de ler diante, perante, durante, e constante o som trepidante e insuportável da mais nova jukebox do bar do Bené.

Você, ser humano contemporâneo, já deve ter percebido que nosso mundo está cada vez menos silencioso. Os motivos para esse comportamento podem ser – e são – vários, e não será hoje que irei discorrer sobre isso. Mas um deles, penso, pode ser por algo que o silêncio impulsiona: olhar, pensar e ouvir nós mesmos. E isso é, convenhamos, incômodo em certos momentos. Mas ainda assim não falarei sobre isso hoje. Falarei, portanto, dos momentos nos quais a literatura foi capaz de impulsionar em mim, em circunstâncias várias, esse impulso que promove o silêncio, ou o som do texto. Continuar lendo