Esc #14 – 18 seconds before sunrise

(ou a instigante e incessante produção musical da Islândia)

por Danilo Lovisi.

Estamos em meio a montanhas de lava e gelo. O céu, interminavelmente cinza ou azul, nos sufoca e liberta. Há rios. Há gelo. Muito gelo. Crianças com roupas coloridas correm e gritam, sorrindo. Tempestades repentinas. No inverno temos apenas 8 horas de sol. Nosso verão faz, no máximo, 24 graus. As florestas estão sempre em silêncio. Tudo está sempre em silêncio. Há frio. Muito frio. E fios sonoros nos envolvem, mantendo-nos vivos.

Não há narrativa, descrição ou adjetivação capaz de, sem clichês (ou cegueiras), dar conta do que é a Islândia e, principalmente, como se comportou – especialmente nas últimas duas décadas – a produção musical dessa terra de gelo e lava. São construções artísticas que beiram o atemporal, transcendem o não-comum, e se encaixam em apenas uma categoria: arte. (off: opa, caí no clichê e na cegueira, rs. I told ya)

Sigur Rós é o nome da banda que foi (e é) uma das grandes responsáveis por toda essa instigante e incessante produção musical islandesa. Iniciada por Jónsi, George, Ori e Kjartan em 1997, a banda é conhecida por suas composições detalhadamente elaboradas, utilizando elementos da música clássica e improvisações contemporâneas – como o uso de arcos de violoncelo na guitarra – e também pelos minimalismos sonoros somados a arranjos orquestrais, que, quase sempre, nos remetem a paisagens oníricas ou invólucros interiores, promovendo nos ouvintes mais inclinados para melodias complexas – e muito belas – verdadeiras experiências sensoriais. Lançando, até hoje, sete discos, Sigur alcançou o reconhecimento global com seu segundo álbum, Ágætis Byrjun (Um bom começo, em português), seguindo com (  ), o álbum sem título e sem letras (que escrevi mais detalhadamente na coluna do mês passado), e, logo depois, Takk… (Obrigado…), que, na minha opinião, é o mais, hm, completo álbum do grupo (indico para quem quiser conhecê-los). Trazendo letras predominantemente em islandês, eles provam – da melhor forma possível – que, para apreciar uma música, não é necessário entender o que se diz, quando todo o resto consegue transmitir isso nos mais variados tons, sonoros e, por que não, visuais.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=4L_DQKCDgeM]

E se você ainda não viu/ouviu, ouça/veja acima o clipe de Hoppipolla (Pulando em poças), uma delicada ode ao que existe – ou é inventado – de espontâneo na vida.

Se com Sigur as canções transitam entre o micro e o macro, nas obras do jovem compositor neo-clássico Ólafur Arnalds (pupilo do inglês Philip Glass) o foco é, sem dúvida, o micro, de uma forma tão tênue, que, na medida que se escuta, cria-se um delicado e efêmero universo sonoro mesmo dentro dessa esfera já minimalista. Arnalds possui poucos mas interessantes discos, sendo válido ressaltar seu último trabalho, Living Room Songs, que teve seu lançamento fragmentado em sete dias, sendo que a cada dia uma nova música era apresentada ao público, através de impecáveis gravações ao vivo feitas na sala de estar da casa de Ólafur. Mesclando toques de piano e beats eletrônicos tão delicados que beiram o orgânico, a música abaixo, Near Light, abarca, na medida do possível, um pouco das construções de Óli.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=UHVh_L_kv1Q]

E para colorir um pouco mais a paisagem musical da ilha Islândia, surge, na década de 90, o grupo Amiina, originalmente composto por quatro mulheres, produzindo um mosaico sonoro com a utilização de vários instrumentos, desde caixinhas de música, serrotes tocados com arcos de violino, a tudo que pudesse ser soprado, batucado ou chacoalhado, criando sonorizações líricas e originais. Por ser um país com baixíssima densidade demográfica (em 2012, chegaram a, pasme!, 320 mil habitantes) não é de se surpreender que os músicos atuantes colaborassem nos respectivos trabalhos, e é o que acontece entre o quarteto e a já citada banda Sigur Rós, pois Amiina os acompanha nas turnês desde os primeiros shows.

Todas essas experimentações sonoras, que marcam a identidade do grupo, estão expostas no clipe de Sicsak, que você vê abaixo:

Acelerando o passo – e o ritmo – chegamos na simpática Emiliana Torrini, cantora islandesa com músicas bem mais acessíveis (em comparação com os artistas anteriores). Se tornou mais conhecida após o lançamento de Love in the time of science, de 1999. Emiliana chegou inclusive a cantar Gollum’s Song, música tema do Smeagol, em Senhor dos Anéis.

E uma de suas músicas mais divertidas (e chicletes), é Jungle Drum, uma espécie de hit em vários países europeus. E você dará o play logo abaixo para ouvi-la:

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=iZ9vkd7Rp-g]

Para um país pequeno e geograficamente isolado como a Islândia, sua produção cultural (aqui, claro, focada no meio musical) impressiona. Os nomes são muitos, e essa seleção teve de ser arbitrária (sorry Björk, sorry Múm), para conseguir expor pelo menos alguns galhos dessa árvore complexa (e que não para de crescer) que é a produção musical islandesa.

Estamos em meio a montanhas de lava e gelo, mas fios sonoros perpassam nosso corpo, nos mantendo vivos. Do cume de um monte, o silêncio se instaura, o corpo congela e o ar não flui: são os 18 segundos antes do amanhecer islandês.

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