Lançamento: Um Conto #21

convi

Depois de um longo período em silêncio, voltamos a editar nossa revista impressa. Para a edição número 21, preparamos uma seleção de 7 autores da recente literatura mexicana, com pouca ou nenhuma tradução no Brasil. Os 6 poemas e o conto que integram esse número foram traduzidos do espanhol pelo poeta Fred Spada, também responsável pela apresentação do volume em sua edição bilíngue, publicado pela Matinta Editora

Na próxima quinta-feira, dia 14/04, a revista será lançada oficialmente no Eco Performances Poéticas, com apresentação das traduções por Fred Spada, acompanhado de leituras em vídeo dos correspondentes mexicanos.

Em breve disponibilizaremos a edição online da revista e indicaremos pontos de venda virtuais e físicos para a edição impressa.

Os textos que integram a Um Conto #21 são: “Edith lo ama, Monsieur Gainsbourg” / “Edith o ama, Mounsieur Gainsbourg”, de Xitlalitl Rodríguez Mendoza; “El origen de la literatura” / “A origem da literatura”, de Alejandro Albarrán; “Éramos ratones,” / “Éramos ratos,”, de Óscar de Pablo; “[No nos preguntaron.]” / “[Não nos perguntaram]”, de Julieta Gamboa; “Presentación del panadero anarquista Bórtolo Scarmagnan” / “Apresentação do padeiro anarquista Bórtolo Scarmagnan”, de Paula Abramo; “[Dice]” / “[Diz]”, de Luis Felipe Fabre; e “Precipitación” / “Precipitação”, de Tania Carrera.

Abaixo, “Precipitación” em vídeo, produzido pela Plataforma Contemporánea de Arte + Cultura, na voz da própria Tania Carrera.

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Frank O’Hara

01

Frank O’Hara nasceu em 1926 em Baltimore, nos Estados Unidos. Estudou piano desde pequeno e, em 1946, como ex-combatente da Marinha, foi fazer um bacharelado em música em Harvard. Algum tempo depois mudou-se de modo definitivo para Nova York. “Quando nós todos”, diz O’Hara em uma entrevista, “chegamos ou emergimos como poetas em Nova York, no meio e no final dos anos 50, os pintores eram os únicos interessados em qualquer tipo de poesia experimental, ao contrário dos literatos”. Sua vida em Nova York é quase inseparável de sua relação com a pintura. Além da cidade, do concreto, o metrô – “Eu mal desfruto de uma folha verde a menos que saiba que tem um metrô por perto, ou uma loja de discos, ou qualquer outro sinal de que as pessoas não se arrependem totalmente da vida” – ele era um entusiasta da experimentação realizada pelo grupo de pintores representativo do que se tornou conhecido como Expressionismo Abstrato. O’Hara e amigos poetas, como John Ashbery, Barbara Guest, Kenneth Koch e James Schuyler, fizeram suas primeiras leituras públicas no Cedar Bar, que era o bar dos pintores, e em galerias de arte. Posteriormente ficaram conhecidos como a New York School of Poetry. Além de poesia, escreviam críticas de arte e realizavam colaborações de diversos gêneros com os artistas. Segundo a crítica americana Marjorie Perloff, noções da arte como processo e do quadro como superfície, inspiradas principalmente pela Action Paiting, influenciariam a forma da poesia de O’Hara, na qual procedimentos sintáticos e prosódicos criariam uma poesia “de muita velocidade, abertura, flexibilidade e de desafio a expectativas”.

Mas há também um importante influência da música, sobretudo de vanguarda. John Ashbery conta que em 1952 eles assistiram juntos a um concerto do pianista David Trudor tocando “Music of changes” de John Cage. Sobre a música que este apresentava, Ashbery comenta na introdução aos Collected Poems de O’Hara: “Tanto na época como hoje em dia o mecanismo do método me escapa; o que importava era que elementos do acaso pudessem se combinar para produzir um trabalho tão bonito e tão claro. Para nós foi mais uma prova, talvez uma prova definitiva, não de que ‘qualquer coisa vale’, mas de que ‘qualquer coisa pode surgir.’”

O’Hara publicou poucos livros em vida. Muitos de seus poemas sobreviveram apenas porque foram copiados em cartas ou porque foram encontrados espalhados pelas gavetas de sua casa por seus amigos. De todo modo, em 1966, ao morrer subitamente em um acidente de carro em Fire Island, já havia uma espécie de culto em torno de sua figura. O estilo de alguns de seus poemas – que o próprio O’Hara cunhara de “I do this I do that” (“Eu faço isso eu faço aquilo”) – já era copiado pelos poetas da segunda geração da New York School. São poemas de ocasião, muito alertas ao ambiente circundante, supostamente escritos de forma rápida, em momentos os mais triviais, como o intervalo do almoço – daí o título de um de seus livros, Lunch poems (1964). No entanto, como escreveu o músico Morton Feldman: “Estes poemas, tão coloquiais, tão conversacionais, ainda assim parecem nos alcançar de um algum outro lugar, infinitamente distante.” Talvez porque, como nos revela um olhar mais atento, O’Hara frequentemente intercala considerações “coloquiais” ou “cotidianas” com apontamentos mais marcadamente líricos, filosóficos ou fantasiosos. Seja como for, é uma poesia que nos lança em certo estado de atenção, e cuja leveza e movimento são, ainda hoje, capazes de surpreender.

Beatriz Bastos

 

02

Frank O’Hara traduzido por Beatriz Bastos

 

Today

Oh! kangaroos, sequins, chocolate sodas!
You really are beautiful! Pearls,
harmonicas, jujubes, aspirins! all
the stuff they’ve always talked about

still makes a poem a surprise!
These things are with us every day
even on beachheads and biers. They
do have meaning. They’re strong as rocks.
.

Hoje

Oh! cangurus, paetês, milkshakes!
Que beleza! Pérolas, gaitas
jujubas, aspirinas! todas essas
coisas sobre as quais sempre se fala

ainda fazem de um poema uma surpresa!
Estão conosco todos os dias mesmo
em casamatas e catafalcos. São coisas com
sentido. São fortes feito pedra.

*

Poem

Instant coffee with slightly sour cream
in it, a phone call to the beyond
which doesn’t seem to be coming any nearer.
“Ah, daddy, I wanna stay drunk many days”
on the poetry of a new friend
my life held precariously in the seeing
hands of others, their and my impossibilities.
Is this love, now that the first love
has finally died, where there were no impossibilities?
.

Poema

Café solúvel com um pouco de creme
azedo, um telefone para o além
que não parece se aproximar nem um pouco.
“Ah, papai, eu quero ficar vários dias bêbado”
da poesia de um novo amigo
minha vida suspensa precariamente em atentas
mãos alheias, as impossibilidades deles e minhas.
É isso o amor, agora que finalmente morreu
o primeiro amor, em que não havia impossibilidades?

*

Avenue A

We hardly ever see the moon any more
_________________________so no wonder
_____it’s so beautiful when we look up suddenly
and there it is gliding broken-faced over the bridges
brilliantly coursing, soft, and a cool wind fans
_____your hair over your forehead and your memories
_____of Red Grooms’ locomotive landscape
I want some bourbon/ you want some oranges/ I love the leather
_____jacket Norman gave me
______________________and the corduroy coat David
_____gave you, it is more mysterious than spring, the El Greco
heavens breaking open and then reassembling like lions
__________________________in a vast tragic veldt
_____that is far from our small selves and our temporally united
passions in the cathedral of Januaries

_____everything is too comprehensible
these are my delicate and caressing poems
I suppose there will be more of those others to come, as in the past
_________________________ so many!
but for now the moon is revealing itself like a pearl
________________________to my equally naked heart

.

Avenida A

Nós quase não vemos a lua hoje em dia
__________ então não é a toa que
é assim tão bonita quando de repente olhamos para cima
e lá está ela de rosto rachado deslizando sobre as pontes
como uma caçadora luzente, suave, e um vento agita
_____os cabelos na sua testa e suas lembranças
_____da paisagem com locomotiva de Red Grooms
eu quero um bourbon/ você quer laranjas/ eu adoro a jaqueta
_____de couro que o Norman me deu
_____e o casaco de veludo que o David
deu para você é mais misterioso que a primavera, os céus
de El Greco se abrem depois se recombinam feito leões
_________ em uma vasta e trágica savana
_____distante das nossas pequenas vidas e de nossas paixões
temporariamente unidas na Catedral dos janeiros

_____tudo é por demais compreensível
estes são meus poemas delicados e carinhosos
suponho que ainda virão muitos daqueles outros, como no passado
_________________ foram tantos!
por ora a lua desnuda-se como uma pérola
_______________ tão nua como o meu coração

 

Beatriz Bastos nasceu em 1979 no Rio de Janeiro. Publicou Pandora – Fósforos de Segurança, em coautoria com Fernanda Branco (Editora Azougue, 2003) e Da Ilha  (Editacuja, 2009). É professora e tradutora. Concluiu recentemente sua tese de doutorado, “Traduzindo poesia: Adília Lopes e Frank O’Hara”, na  PUC-Rio.

 

4

Frank O’Hara traduzido por Ismar Tirelli Neto

 

Autobiographia litteraria

When I was a child
I played by myself in a
corner of the schoolyard
all alone.

I hated dolls and I
hated games, animals were
not friendly and birds
flew away.

If anyone was looking
for me I hid behind a
tree and cried “I am
an orphan”.

And here I am, the
center of all beauty!
writing these poems!
Imagine!

.

Autobiographia litteraria

Quando eu era pequeno
brincava a um canto
do pátio do colégio
completamente só.

Odiava bonecas e a mim
os jogos não me apeteciam, animais
não eram simpáticos e pássaros
voavam pra longe.

Se alguém procurasse
por mim escondia-me atrás
de uma árvore e berrava “Sou
órfão”.

E cá estou eu, o
centro de toda a beleza!
escrevendo esses poemas!
Imagine!

*

My heart

I’m not going to cry all the time
nor shall I laugh all the time,
I don’t prefer one “strain” to another.
I’d have the immediacy of a bad movie,
not just a sleeper, but also the big,
overproduced first-run kind. I want to be
at least as alive as the vulgar. And if
some aficionado of my mess says “That’s
not like Frank!”, all to the good! I
don’t wear brown and grey suits all the time,
do I? No. I wear workshirts to the opera,
often. I want my feet to be bare,
I want my face to be shaven, and my heart –
you can’t plan on the heart, but
the better part of it, my poetry, is open.

.

Meu coração

Não vou chorar o tempo inteiro
tampouco rirei o tempo inteiro,
não prefiro uma “corrente” a outra.
Antes teria o imediatismo duma fita ruim,
não só as despretensiosas, mas também as super
produções de primeira linha. Quero ser
pelo menos tão vivo quanto a vulgária. E se
algum aficionado da minha bagunça disser “Isto
não parece o Frank!”, tanto melhor! Eu
não uso paletós marrons e cinzas o tempo todo,
uso? Não. Uso camiseta de operário para ir à ópera
com freqüência. Quero meus pés descalços,
quero meu rosto barbeado, e meu coração –
não se pode planejar com o coração, mas
o que nele há de melhor, minha poesia, está aberto.

*

Memorial Day 1950

Picasso made me tough and quick, and the world;
just as in a minute plane trees are knocked down
outside my window by a crew of creators.
Once he got his axe going everyone was upset
enough to fight for the last ditch and heap
of rubbish.
XXXXXXXXXXXThrough all that surgery I though
I had a lot to say, and named several things
Gertrude Stein hadn’t had time for; but then
the war was over, those things had survived
and even when you’re scared art is no dictionary.
Max Ernst told us that.
XXXXXXXXXXXXXXHow many trees and frying pans
I loved and lost! Guernica hollered look out!
but we were too busy hoping our eyes were talking
to Paul Klee. My mother and father asked me and
I told them from my tight blue pants we should
love only the stones, the sea and heroic figures.
Wasted child! I’ll club you on the shins! I
wasn’t surprised when the older people entered
my cheap hotel room and broke my guitar and my can
of blue paint.
XXXXXXXXXXAt that time all of us began to think
with our bare hands and even with blood all over
them, we knew vertical from horizontal, we never
smeared anything except to find out how it lived.
Fathers of Dada! You carried shining erector sets
in your rough bony pockets, you were generous
and they were lovely as chewing gum or flowers!
Thank you!
XXXXXXXXXXAnd those of us who thought poetry
was crap were throttled by Auden or Rimbaud
when, sent by some compulsive Juno, we tried
to play with collages and sprechstimme in their bed.
Poetry didn’t tell me not to play with toys
but alone I could never have figured out that dolls
meant death.
XXXXXXXXXXOur responsabilities did not begin
in dreams, though they began in bed. Love is first of all
a lesson in utility. I hear the sewage singing
underneath my bright white toilet seat and know
that somewhere sometime it will reach the sea:
gulls and swordfishes will find it richer than a river.
And airplanes are perfect mobiles, independent
of the breeze; crashing in flames they show us how
to be prodigal. O Boris Pasternak, it may be silly
to call to you, so tall in the Urals, but your voice
cleans our world, clearer to us than the hospital:
you sound above the factory’s ambitious gargle.
Poetry is as useful as a machine!
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXLook at my room.
Guitar strings hold up pictures. I don’t need
a piano to sing, and naming things is only the intention
to make things. A locomotive is more melodious
than a cello. I dress in oil cloth and read music
by Guillaume Apollinaire’s clay candelabra. Now
my father is dead and has found out you must look things
in the belly, not in the eye. If only he had listened
to the men who made us, hollering like stuck pigs!

.

Memorial Day 1950

Picasso fez-me rápido e turrão, e o mundo;
bem como num instante plátanos são postos abaixo
do lado de fora da minha janela por uma trupe de criadores.
Quando ele começou a trabalhar o machado todos se aborreceram
o bastante para lutar pela última ravina e monte
de lixo.
XXXXXXPor toda aquela cirurgia pensei
que tinha um bocado a dizer, e nomeei diversas coisas
que Gertrude Stein não tivera tempo de nomear; mas depois
a guerra acabou, aquelas coisas tinham sobrevivido
e mesmo quando se está com medo a arte não é dicionário.
Foi Max Ernst quem nos disse.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXQuantas árvores e frigideiras
amei e perdi! Guernica gritou cuidado!
mas estávamos ocupados com a esperança de que nossos olhos
estivessem falando com Paul Klee. Meus pais perguntaram e eu
de minha apertada calça azul lhes disse que deveríamos
amar apenas as pedras, o mar e as figuras heróicas.
Criança transviada! Vou dar nas tuas tíbias! Não
me surpreendi quando os mais velhos adentraram
meu quarto de hotel barato e quebraram meu violão e minha lata
de tinta azul.
XXXXXXXXXXNaquela época todos nós começamos a pensar
com as próprias mãos e mesmo com elas manchadas
de sangue, distinguíamos entre horizontal e vertical, nunca
sujamos nada a não ser para descobrir como vivia.
Pais do Dada! Vocês carregaram brilhantes jogos de montar
em seus bolsos puídos e ossudos, vocês foram generosos
e eles eram tão adoráveis quanto chiclete ou flores!
Grato!
XXXXXXE aqueles dentre nós que achavam a poesia
uma merda foram sufocados por Auden ou Rimbaud
quando, a mando de alguma Juno compulsiva, tentamos
brincar de colagem e canto falado em suas camas.
A poesia nunca me mandou evitar os brinquedos
mas sozinho eu jamais teria descoberto que bonecas
significam a morte.
XXXXXXXXXXXNossas responsabilidades não principiaram
em sonho, embora principiassem na cama. O amor é acima de tudo
uma lição de utilidade. Ouço a canção do esgoto
por debaixo do assento brilhoso e branco de minha privada e sei
que em algum momento em alguma parte ele encontra o mar:
gaivotas e peixes-espada o pensarão mais rico que um rio.
E aviões são móbiles perfeitos, independentes
da brisa; quando caem em chamas nos ensinam
a prodigalidade. Oh Boris Pasternak, pode parecer tonto
chamar-te, tão alto nos Urais, mas tua voz
limpa o nosso mundo, mais límpida para nós que o hospital:
soas por sobre o ambicioso gargarejo da fábrica.
A poesia é tão útil quanto uma máquina!
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXVeja meu quarto.
Cordas de violão seguram retratos. Não preciso
de um piano para cantar, e nomear as coisas não passa
da intenção de fazê-las. Uma locomotiva é mais melodiosa
que um violoncelo. Trajo-me em panos d´óleo e leio música
sob o barrento candelabro de Guillaume Apollinaire. Agora
meu pai é morto e descobriu que não se deve olhar as coisas
nos olhos, e sim na barriga. Se ao menos tivesse atentado
aos homens que nos fizeram, berrando como porcos emperrados!

 

Ismar Tirelli Neto é poeta e ficcionista. Nasceu a 1985, no Rio de Janeiro, e publicou os livros synchronoscopioRamerrão, ambos pela editora 7Letras.

03

 

Frank O’Hara lê “The Day Lady Died” e “Song”

 

Gravado em 5 de Março de 1965, no apartamento do poeta em Nova Iorque, o vídeo abaixo traz O’Hara lendo dois poemas do livro Lunch poems, “The Day Lady Died” e “Song”, transcritos a seguir.

 

The Day Lady Died

It is 12:20 in New York a Friday
three days after Bastille day, yes
it is 1959 and I go get a shoeshine
because I will get off the 4:19 in Easthampton
at 7:15 and then go straight to dinner
and I don’t know the people who will feed me

I walk up the muggy street beginning to sun
and have a hamburger and a malted and buy
an ugly NEW WORLD WRITING to see what the poets
in Ghana are doing these days
_____________________I go on to the bank
and Miss Stillwagon (first name Linda I once heard)
doesn’t even look up my balance for once in her life
and in the GOLDEN GRIFFIN I get a little Verlaine
for Patsy with drawings by Bonnard although I do
think of Hesiod, trans. Richmond Lattimore or
Brendan Behan’s new play or Le Balcon or Les Nègres
of Genet, but I don’t, I stick with Verlaine
after practically going to sleep with quandariness

and for Mike I just stroll into the PARK LANE
Liquor Store and ask for a bottle of Strega and
then I go back where I came from to 6th Avenue
and the tobacconist in the Ziegfeld Theatre and
casually ask for a carton of Gauloises and a carton
of Picayunes, and a NEW YORK POST with her face on it

and I am sweating a lot by now and thinking of
leaning on the john door in the 5 SPOT
while she whispered a song along the keyboard
to Mal Waldron and everyone and I stopped breathing

*

Song

Is it dirty
does it look dirty
that’s what you think of in the city

does it just seem dirty
that’s what you think of in the city
you don’t refuse to breathe do you

someone comes along with a very bad character
he seems attractive. is he really. yes. very
he’s attractive as his character is bad. is it. yes

that’s what you think of in the city
run your finger along your no-moss mind
that’s not a thought that’s soot

and you take a lot of dirt off someone
is the character less bad. no. it improves constantly
you don’t refuse to breathe do you

 

As leituras acima fazem parte do vigésimo episódio da série USA: Poetry (1966), dedicado a Frank O’Hara, disponível aqui.

.

.

Poemas de André Monteiro

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André Monteiro é doutor em literatura pela PUC-Rio, professor na Universidade Federal de Juiz de Fora, bolsista de produtividade do CNPq, escritor e compositor. Publicou os livros A ruptura do escorpião – Torquato Neto e o mito da marginalidade (1999) e Ossos do ócio (2001). Os poemas a seguir foram retirados de sua recente publicação Cheguei atrasado no campeonato de suicídio (Aquela Editora, 2014).

 

elogio da anáfora
________________________________________para alexandre faria

*
não é porque não vai à assembleia que não faz política
não é porque não diz que te ama que não te ama
não é porque não diz que te odeia que não te odeia
não é porque parece calmo que seu corpo não frita
não é porque parece estar de acordo que não está driblando
o
fascismo dos dias
não é porque não é grosseiro que não é transgressor
não é porque parece manso que não é perigoso
não é porque não está escrevendo que não está escrevendo
não é porque consome que se torna consumista
não é porque paga o ingresso do espetáculo que é amigo da

propriedade
não é porque tá alegre que não fica triste
não é porque tá triste que não fica alegre
não é porque não sabe tocar guitarra que não pode tocar guitarra
não é porque eu é um outro que eu é um outro qualquer
não é porque o confundem com o lixo que ele abre mão do luxo
________________________________de viajar com as
estrelas…
não é porque não faz parte da história que não faz história
não é porque todas as formas de prisão querem lhe dar colo que ele
não
________ chuta o traseiro dos senhores pastores e das senhoras
ovelhas
não é porque é forte que não é frágil
não é porque é destrutivo que não é delicado
não é porque é anafórico que não é disfórico
não é porque é disfórico que não é eufórico
não é porque toca o foda-se que não é dedicado
não é porque faz pan-flertes que não faz panfletos
não é porque faz panfletos que não faz pan-flertes
não é porque repete que se repete
não é porque não repete que não se repete
não é porque existe um muro que só existe o muro

 

um pan-flerte é o que é

não é por mim
não é por você
não é pela maioria
não é pela minoria
é pelo que em nós
infinitamente é
o que está por ser

 

vanguardente

se queres chocar
por que não te chocas?

 

sôfrego

amanhã não terminará o poema

*

*

ECO: Quatro poetas, quatro poemas

02

Boa noite, contistas. Não sei se todos sabem, mas acontece nessa sexta-feira, 12 de julho, o aniversário do Eco Performances Poéticas. Para comemorar essa data tão importante para a poesia contemporânea, convidamos quatro poetas para lançarem seus últimos livros conosco e, é claro, recitar suas poesias. Para entrar na vibe, trazemos para vocês um poema de cada. Boa leitura.

Alice Sant’Anna:

ausência

tenho te escrito com calma
cartas em um caderno azul
arranco da espiral e não posto
por preguiça ou nem morta
tenho medo da espera
durante dias ou semanas um animal horrível
(espécie de raposa) vai me perseguir
por dentro, ou serei eu mesma
(um rato?) a me roer
enquanto a resposta não chegar
perco muito tempo tentando
dar nomes aos bichos
que sobem a cortina do quarto

(Alice Sant’Anna nasceu no Rio de Janeiro no dia 24 de maio de 1988. Publicou seu primeiro livro de poemas Dobradura (7Letras) em 2008 e participou da Antologia Digital Enter de Heloisa Buarque de Hollanda. Estará lançando Rabo de Baleia, livro selecionado pelo Programa Petrobras Cultural )

Lucas Viriato:

la ascensorista

la primera vez que vi a teresa
fue hoy por la mañana cuando
bajé en el ascensor

cuando vi a teresa otra vez
fue hoy por la tarde cuando
subí en el ascensor

no vi nada la vez tercera
bajé por la escalera

(Lucas Viriato edita, desde 2006, o jornal literário “Plástico Bolha”, que já publicou centenas de autores. Em 2007, estreou com Memórias Indianas, livro sobre sua viagem para a Índia. Retorno ao Oriente, que deu continuidade ao projeto poético, foi lançado em 2008. Contos de Mary Blaigdfield, a mulher que não queria falar sobre o Kentucky – e outras histórias foi sua estreia na prosa em 2010.  Em 2012, realizou o projeto Curtos e Curtíssimos, com seus principais micropoemas. Estará lançando Muestras)

Mariano Marovatto:

MULHERES FEIAS SOBRE PATINS

As delícias podem ser:
coxinhas
pães de queijo
empanadas de camarão
rissoles de queijo e presunto
pastéis de carne
pastéis de festa
brigadeiros
bem casados e olhos de sogra
Empadas: com 30 minutos.
Você também pode solicitar descartáveis.

(Mariano Marovatto é bacharel e doutor em literatura pela PUC-Rio. Com Os Sete Novos lançou seu primeiro livro O primeiro vôo em 2006 pela 7Letras e em 2008 Amoramérica, livro escrito a sete mãos. Possui também alguns compactos como Amália & outros erros de contas (2003), China 1924 (2003) e O sonho de Diana Valentina & Caledônia Cage (2007). Além de escrever e ler, Mariano é cantor e é compositor e faz shows com sua banda A Maravilha Contemporânea. Estará lançando Mulheres Feias Sobre Patins)

Otávio Campos:

distância

seus eternos
são fantasmas
que ecoam
nas gravuras
em branco e preto

não plastifico, congelo,
fotografo
não conto, exponho,
registro
-sinto

na fração de segundo
em que a eternidade
me atravessa e per-
passa até o outro
ponto do peito
-sou

e o que desespera
pouco é
o correr do tempo
mas
a distância
que existe
entre o nosso
para sempre

(Otávio Campos é granduando em Letras, com ênfase em literatura, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Desde 2011 edita o zine literário Um Conto. Pesquisa a dissolução do eu-lírico na poesia de Francisco Alvim. É um dos organizadores do Eco Performance Poética. Estará lançando Distância)

Com exceção de Marovatto, todos os poetas já publicaram conosco. Duvida? Só clicar nas “labels” aí abaixo que você encontrará a edição.

Esperamos vocês lá.