Esc#13 – O julgamento de Capitu

(e a vida que existe entre a ficção e a realidade)

por Otávio Campos

Lembro como se fosse hoje da minha irmã chegando em casa toda feliz com um papel embaixo do braço, na primeira oportunidade mostrou a todos. Era um certificado de melhor defesa em um julgamento promovido pela escola. Não, minha irmã não fazia direito, nem qualquer curso superior nessa época, pois não passava de uma adolescente de 16 anos. Ela havia trabalhado na acusação de um crime que fora supostamente cometido em 1899 por uma personagem da literatura: Capitu. O professor de literatura, ao incentivar a leitura de Dom Casmurro, dividiu a turma em duas equipes: a primeira ficaria por conta da defesa da personagem de Machado de Assis, levantando os pontos favoráveis, que mostravam que ela não traiu Bentinho, e a segunda metade deveria convencer a turma de que Capitu realmente havia cometido adultério. Minha irmã foi escolhida como a advogada que trabalharia na acusação da infidelidade. O resultado, como já ficou claro, foi que a inocência de Capitu não convenceu a maioria.

Na época eu era muito jovem e, como meus pais, aplaudi o excelente trabalho da minha irmã. Hoje, como mais um chato que vive no meio literário, esse é um dos assuntos que mastiga meu estômago e me incomoda profundamente. Fico pensando em quão rasa era a discussão desse livro que o professor promoveu. Não é muito comum escutarmos hoje em dia a famosa questão: “mas será que Capitu traiu ou não?”, eis que algum espertinho, com o sorriso malandro nos lábios responderá: “só saberemos se formos a um centro de macumba e conversarmos com o espírito de Machado, mesmo assim, é arriscado nem ele mesmo saber”. Nesses momentos eu só reviro os olhos e penso: “E se sabe? E se não? O que importa?”. Vasculhando no Google para ver a quantas anda essa discussão, descobri milhares de fóruns que tratam do assunto, como esse aqui , em que podemos ver respostas como “traiu sim, sem vergonha!”. Fica claro que quem ainda insiste em encontrar respostas para este tema pouco leva em conta o verdadeiro valor literário do livro, mas apenas ocupa seu tempo colhendo provas dentro da obra para um julgamento de costume e moral – de um personagem fictício! São esses leitores os verdadeiros personagens, e o alvo das sutis críticas, de Machado de Assis – uma sociedade mesquinha, que controla a vida do vizinho pelo vão da janela e a discute nas rodas com os amigos. Creio que já é tempo de perceber que pouco importa se Capitu traiu ou não Bento Santiago, mas o que faz de Dom Casmurro esse clássico que vive até hoje é o desespero e as paranoias do personagem central. Um bom leitor sabe reconhecer que Machado criou um mundo e tudo ali é real, como seus personagens que possuem milhões de dúvidas não esclarecidas, da mesma forma que qualquer ser humano.

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Escoliose #9 – uma coluna

GABITO

por Otávio Campos

Piacatuba, 29 de julho de 2012

Gabito,

Hoje acordei meio indisposto. Passei longas horas deitado no sofá da sala, com a TV desligada e a janela fechada – escuro que só. Tentei fazer alguns exercícios de concentração, sabe?, pra não ficar pensando coisas estúpidas, mas só me deu trabalho. Aqui, o tempo custa a passar, então essa eternidade que passei deitado deve ter durado uns trinta minutos. Quando comecei a me encontrar dentro da minha cabeça, uma língua vermelha de sol entrou por uma fresta da janela e me encontrou. Então estava eu lá, escrevendo com as unhas um romance sobre a pele e lambido de sol por dentro.

Terminei ontem de ler um livro que me fez muito bem – ou não. Desde que comecei a tentar escrever meu romance, tenho lido bastante coisa para estudar a técnica narrativa. Grifo algumas frases, reescrevo-as no papel, experimento algumas delas dentro de um texto meu. Dentre as várias coisas que encontrei nesse livro, a que mais me chamou a atenção foi um solilóquio da protagonista, que, melancólica e sozinha no apartamento, chega até a janela no crepúsculo e recebe uma lambida dos últimos raios de sol (ou qualquer coisa parecida com isso, o que, na verdade não importa). Acabei de tentar utilizar essa nova expressão aqui em cima, mas acho que não deu certo. Na verdade, Gabito, eu nem fiquei deitado no sofá hoje.

Hoje acordei meio indisposto e fui até a janela. Olhei para esse oceanozinho (inho) de telhados coloniais e me bateu um desespero tão grande! Quando foi que isso deixou de ser só meu? Fiquei lembrando de como você me ajudou a criar isso aqui, como você me fez fazer as pazes com esse lugar. Se hoje eu e Piacatuba nos suportamos, é porque há três ou quatro anos atrás ela passou a se chamar Macondo, pra mim. Quando a chuva dura muito tempo, eu fico em Juiz de Fora e só volto quando o chão já estiver seco de novo e as borboletas amarelas voando. Mas, enfim, hoje olhando na janela eu percebi que eu já não via mais as coisas como elas realmente eram, mas apenas com um filtro Macondo. Isso é ruim? Não, estou realmente agradecido desse filtro existir, por isso resolvi te escrever. Continuar lendo