Um Conto Indica: o curta “Dedicatória”, de Biel Gomes

O livro: “Poesia Completa”, de Manoel de Barros. O problema: as páginas não aceitavam dedicatória. A solução: viajar, com o livro, para seu lugar de origem (geográfica, ao menos), deixando-o mais livre, refrescado, em casa, podendo sentir o cheiro do sol de lá. E foi assim que surgiu o curta “Dedicatória”, de Biel Gomes. O rapaz porto-alegrense comprou a obra completa de Manoel para presentear uma pessoa amada, porém não conseguia pensar numa dedicatória que desse conta da poesia manoelesca contida naquelas páginas. Viajou, então, para Campo Grande, terra do poeta, e lá passou três dias. O resultado – delicadamente bem montado e, claro, mui poético – está aqui embaixo, e cabe a você assistir (ou não) a esse fazedor de amanhecer portátil em forma de curta-metragem.

Mixtape de Julho

Aí está, finalmente, nossa mixtape de julho, montada com as indicações musicais dos colaboradores do mês. Como nas últimas fitas, temos como abertura um poema, dessa vez o “Tradado geral das grandezas do ínfimo” do pernambucano Manoel de Barros, interpretado por AbujamraEm seguida a percussão marcante e sensual de Streets Bloom, da CéU, surge vibrando nos fones, seguida de Karina Buhr e dos Grilos de Erasmo Carlos. A viagem continua para o extremo norte, ao som da islandesa Björk com Pagan Poetry, que com suas notas suaves abre caminho para a hipnotizante The Rip, do Portishead. Finalizando, temos Esse Homem, canção de Kaio Bruno (colaborador de julho) e o poema “é uma lovestory e é sobre um acidente” de Marília Garcia, que você pode ler e assistir (!) clicando aqui. A mixtape, é claro, você escuta logo abaixo.

Escoliose – uma coluna #2

O SOM DO TEXTO QUE LATEJA NO SILÊNCIO

Ou sobre butecos, jukeboxes e literatura

por Danilo Lovisi

Próximo à minha casa existem três bares. Durante todo o tempo que vivi aqui (vim com 7, portanto, 13 anos) convivi “bem” com todas as consequências de se viver próximo a um bar. No meu caso, não bares, mas três butecos. E as consequências são várias: desde bêbados cativos da esquina da minha rua (minha casa é a 1, na esquina, portanto, minha porta) que me viram crescer e eu os vi (e vejo) definhar com os anos, até as brigas e festas pela madrugada. E as músicas. Ah, as músicas! Posso me dizer conhecedor de grande parte da produção musical do circuito sertanejo-brega-funk-legião-music da última década graças aos carros de som dos frequentadores e das jukeboxes cada vez mais (e mais!) altas. E é sobre uma dessas máquinas, e um desses bares (o mais novo) que começarei a falar, mas não só isso. Entrará aí o ato de ler diante, perante, durante, e constante o som trepidante e insuportável da mais nova jukebox do bar do Bené.

Você, ser humano contemporâneo, já deve ter percebido que nosso mundo está cada vez menos silencioso. Os motivos para esse comportamento podem ser – e são – vários, e não será hoje que irei discorrer sobre isso. Mas um deles, penso, pode ser por algo que o silêncio impulsiona: olhar, pensar e ouvir nós mesmos. E isso é, convenhamos, incômodo em certos momentos. Mas ainda assim não falarei sobre isso hoje. Falarei, portanto, dos momentos nos quais a literatura foi capaz de impulsionar em mim, em circunstâncias várias, esse impulso que promove o silêncio, ou o som do texto. Continuar lendo