Nenhuma casa é segura

Mural de Nemesio Antunez

Alejandro Zambra

É fácil se apaixonar por Zambra. É fácil ler todos os romances de Zambra e se apaixonar por Zambra. É fácil ler os romances de Zambra porque: 1) a linguagem é estupidamente simples; 2) são curtos, muito curtos; 3) são de uma leveza narrativa incrível; 4) têm sido editados, aqui no Brasil, desde 2012, em belos volumes pela Cosac Naify. Formas de voltar para casa, o maior até agora (160 pp.), dá continuidade ao projeto de edição brasileira das obras do chileno, depois de Bonsai e A vida privada das árvores, e a editora já divulgou que publicará em breve o livro de contos/novelas Meus documentos. As edições não trazem nenhuma fotografia de Zambra, mas é fácil de encontrar no Google, imprimir, emoldurar e colocar do lado da cama.

Formas de voltar para casa lida com os desafios de se voltar para casa, a construção e não somente, de todas as formas que isso vai se apresentando aos personagens do livro, de todas as formas que isso se apresenta a nós. Voltamos ao terremoto de 13 de março de 1985, mas também às tensões da ditadura no Chile, em uma narrativa ágil, como a dos primeiros livros. A questão nem é quem fica ou não do lado de Pinochet, mas a inocência e a culpa de quem ignora essas questões. Raúl, o homem solitário da vila, que se esconde por trás de uma identidade que não a sua, é apenas um ponto de encontro entre o narrador e Claudia, que precisa voltar, anos depois, para que o romance funcione. “É mais fácil entender assim. É melhor pensar que tudo isso foi uma história de amor”, mas os romances de Zambra nunca são uma história de amor. Quer dizer, todos precisam de uma história de amor porque, no fim, são sempre sobre a perda. Os romances de Zambra, e Formas de voltar para casa principalmente, são construídos através do desejo.

Em dois planos o narrador-personagem desenvolve a narrativa e mostra a fratura dessa construção: “Voltei ao romance. Ensaio mudanças. Da primeira para a terceira pessoa, da terceira para a primeira, até para a segunda”. O livro, que é sobre os pais, mas também sobre Eme, é em tudo sobre o escritor. Para escrever sobre Eme, a ex-mulher, é preciso reabitar a casa, em uma tentativa de reconciliação que nunca será possível, como a prosa não é possível e se torna ritmos, cadências:

É melhor não sair em nenhum livro
As frases que não nos queiram abrigar
Uma vida sem música e sem letra
E um céu sem essas nuvens que agora
Você não sabe se estão indo ou vindo
Essas nuvens quando mudam tantas vezes
De forma que ainda parecemos estar
Morando no lugar que abandonamos
Quando ainda não sabíamos os nomes
das árvores
Quando ainda não sabíamos os nomes
dos pássaros
Quando o medo era o medo e não existia
O amor pelo medo
Nem o medo pelo medo
E a dor era um livro interminável
Que um dia folheamos só para ver
Se no final apareciam nossos nomes.

É preciso, antes de tudo, sair da casa. E uma vez é por todas. É preciso retornar, depois de algum tempo, porque estamos sempre voltando pra casa, e confrontar a literatura dos pais com a literatura dos filhos. Uma hora é preciso, agora sim, saber se os pais apoiavam ou não Pinochet, mesmo que a ditadura não seja sua, mesmo que você nem tivesse nascido. Os anos 70 e 80 chilenos constantemente são recuperados na prosa dos contemporâneos e com Zambra acontece de maneira sutil e profunda. A ditadura acompanha cada movimento do livro, mesmo que disfarçada, ou discutida em voz baixa (sempre discutida em voz baixa) enquanto o pai dorme e mãe e filho fumam na sala. É preciso sermos todos personagens secundários.

Visitar a casa do passado não é voltar ao passado – é bom que não nos enganemos, mas é para isso que servem os álbuns de fotografia, “para nos fazer acreditar que fomos felizes quando crianças. Para nos demonstrar que não queremos aceitar o quanto fomos felizes”. Formas de voltar para casa não é um livro sobre a casa, tampouco sobre a ditadura. Pode ser que nos engane e alguns pensem que é uma espécie de ensaio autobiográfico que culmina na construção de um romance, construção tal esmiuçada nas partes 2 e 4 do livro, mas não. Acredito que, muito mais que as revoluções e as tensões entre o voltar e o estar, mais do que as tentativas de um corpo de habitar e ser habitado por uma casa, é um livro sobre o sossego, deste que existe quando não há mais retorno. O livro de Zambra é um ensaio contundente sobre amadurecer e não caber mais nas roupas dos pais. Pode ser que as revoluções, como diz um poema da Matilde Campilho, sejam mesmo o lugar certo para a descoberta do sossego: “talvez porque nenhuma casa é segura / talvez porque nenhum corpo é seguro / ou talvez porque depois de encarar uma arma / finalmente seja possível entender / as múltiplas possibilidades de uma arma”.

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Formas de voltar para casa
Alejandro Zambra
Cosac Naify
160 páginas

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(Publicado originalmente na edição #01 da revista OGaribaldi)

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Livros que você precisa ler em 2013

livros que precisa ler

O ano mal começou e o mercado editorial já chega com algumas promessas. A Companhia das Letras já anunciou que esse será o ano das narrativas ficcionais brasileiras, prometendo fechar 2013 com um número de, mais ou menos, 16 romances produzidos em terras tupiniquins. A Intrínseca também prepara seu primeiro lançamento neste circuito e a Cosac Naify tem planos de aumentar sua frequência de romances brasileiros. Com todas essas notícias, nós selecionamos alguns dos prometidos que, com certeza, figurarão nas nossas listas de livros lidos em 2013. São eles:

Divórcio, de Ricardo Lísias. Será lançado pela Alfaguara, ainda sem data prevista. É promessa por conta, é claro, das polêmicas da Granta e da capacidade que conhecemos do autor de O céu dos suicidas.

Edifício Midori Filho, de Andrea del Fuego. Cara, ela escreveu Os Malaquias e teve cinco grandes editoras no pé dela e recusou oferta de quatro para publicar o novo romance com a Companhia das Letras. É de se esperar menos?

Rabo de Baleia, de Alice Sant’Anna. Bem, a Alice a gente já conhece, né? Pelo título do livro, acreditamos que essa lindeza que foi publicada na nossa edição de aniversário (quadro 3, e você pode ver aqui) estará presente nesse novo número da coleção de poesia da Cosac Naify. (E ainda podemos tirar onda que publicamos primeiro)

Desde que eu te amo sempre, de Cecilia Giannetti. Mais um da coleção “Amores Expressos” da Companhia das Letras. Segundo a autora em uma conversa recente que tivemos, o livro já está pronto há um bom tempo e estava tendo problemas para ser publicado. Mas parece que desse ano não passa e, enfim, conheceremos o sucessor de Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi. Ah, a gente ainda teve a oportunidade de ouvir a autora lendo um trecho do romance e, sim, é bom.

O novo livro do Chico Buarque. Esse aí não precisa falar nada. Não tem título ainda e a Companhia não sabe se o autor/compositor/deus vai entregar o romance esse ano. Mas mantemos os dedos cruzados e esperamos fechar 2013 com algo, se possível (é possível?), melhor que Leite derramado.

Nossa parceira, Laura Assis, produtora editorial da Aquela Editora, em uma conversa informal (via Facebook), contou pra gente quais são seus livros mais aguardados desse ano:

Faíscas, de Carol Bensimon (Companhia das Letras)

Digam a Satã que o recado foi entendido, de Daniel Pellizzari (Companhia das Letras)

A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, de Joca Reiners Terron (Companhia das Letras)

Distância, de Otávio Campos (Aquela Editora) – aí a gente aproveita e faz aquela propaganda do autor e da editora que, é claro, não podia faltar.

Trovadores elétricos, de Anderson Pires (Aquela Editora) – este último já está com lançamento previsto para o dia 9 de março e o booktrailer você confere agora:

Bom, nosso objetivo agora é ter, durante o ano todos esse livros em mãos e compartilhar com nossos leitores aquelas famosas resenhas, de muito bom gosto e com técnicas super apuradas. Tá esperando algum livro e ele não está aqui? Deixe nos comentários.