Laís Corrêa de Araújo

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Laís Corrêa de Araújo (1928 – 2006) foi uma poeta, crítica, tradutora e jornalista mineira. Estreou com o livro de Caderno de poesia (1951), dando início a uma considerável produção poética, seguido de O signo e outros poemas (1955), Cantochão (1967), Maria e companhia (1983), Decurso de prazo (1988) e Pé de página (1995). Publicou ainda Murilo Mendes: Ensaio Critico, Antologia e Correspondência, obra marcada pelo seu diálogo com o poeta. Foi uma das fundadoras do Suplemento Literário de Minas Gerais, assumindo, na década de 60, o cargo de membro-fundador de redação do jornal, ao lado de Murilo Rubião e Ayres da Matta Machado Filho.

Uma das principais vozes da poesia feminina de Minas Gerais, Laís Corrêa de Araújo foi a única mulher presente na Semana de Poesia de Vanguarda, realizada em Belo Horizonte em agosto de 1963, reunindo integrantes do movimento da Poesia Concreta e da revista Tendência. Ao lado de Affonso Ávila, Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, Benedito Nunes e Luiz Costa Lima, discutiam a articulação de uma frente ampla de poesia de vanguarda que pudesse conciliar proposta de inovação e experimentação estéticas com um programa de intervenção crítica na realidade nacional.

Segundo a crítica Maria Esther Maciel, no ensaio presente em Inventário, obra que reúne poemas publicados em livro entre 1951 e 2002 (Editora UFMG, 2004), a dicção poética de Laís nunca se confinou ao horizonte do que se convencionou chamar de poesia feminina, o que não indica, entretanto, um alheamento estético da poeta a questões relativas à sua experiência enquanto mulher. “Pelo contrário, temas relacionados ao corpo, ao desejo, à memória e ao cotidiano familiar são recorrentes em sua poesia, só que atravessados pelos movimentos da ironia, da metalinguagem, da experimentação de formas e da lucidez crítica”.

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Poemas de Laís Corrêa de Araújo

 

Marca

Uma ferida é
e me causa nojo
espalha um soro acre
em minha face
de vergonha
Eu me envergonho pois,
sempre há a ferida
embora não doa nada
não doa mais a cicatriz
antiga e invisível
sob o pó do tempo —
é uma ferida sempre
e exala ocre cheiro
do desgosto e desgaste.

 

Auto-retrato

O que eu era fui
fluída fugidia fumaça
fui e era
não ao perfeito ser

Vislumbro o que fui
ou só vislumbre o outro é
ostensiva fragmentação
de bem moldada forma

no barro adâmico
de sonho e sono fui
derrapante à erosão
era fui ser não sei

a chuva corre em mim
esta que era, fui
brasa evaporada
sob as gotas do medo

 

Acerto final

De que valeu ter sido mudo
escudo baço crispado
e agora surdo surdir
esconso em berço de seios
deposta a sereia sem volteios
surdo e quem sabe cego
do inútil resfolego a busca
do sumo absoluto do acaso
ser dois em um ou vulto
de papier machê no esforço
de sobrenadar o poço o açude
à descoberta do fundo
palha de milho ou alcatifa
De que valeu dizer ou não dizer
ouvir não entender
enxergar e não crer?

A medida é o dedal
onde brindar a fala o ouvido
a vista
e cair na real.

 

Adeus

É assim que eu te digo adeus:
como uma menina que mora na beira
da estrada e abana a mão para o trem.

Apenas te vi.
E te digo adeus porque não
apanho rosas.

 

Footing

Quem dá mais
por um corpo valendo
15 16 17 18 19
20 anos?

Quem dá mais
por uma carne intacta
com todos os seus pertences?

Nesse pregão
ninguém paga o preço
de uma aliança.

 

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