Poemas de Alice Sant’Anna

Foto de Alexandre Sant'Anna

Foto de Alexandre Sant’Anna

Alice Sant’Anna nasceu em 1988 no Rio de Janeiro. Em 2008, publicou seu primeiro livro de poesia, Dobradura (7 Letras). Em 2012, lançou, em parceria com Armando Freitas Filho, a plaquete independente Pingue-Pongue. Seu livro Rabo de baleia (Cosac Naify) recebeu o prêmio APCA de título de poesia de 2013. Em dezembro de 2014, lançou outra plaquete, “Ilha da decepção”, com fotografias de seu pai, Alexandre Sant’Anna. Abaixo, três poemas novos.

*

 e um dia as formigas despencaram
da árvore como se estivessem maduras
uma chuva de formigas
e achamos que aquilo era tão especial
que merecia ser comemorado
na frigideira com manteiga
as saúvas crocantes
comprei um perfume só porque
se chamava água pura
e a graça era pagar caro
por um frasco de vidro
escrito em linhas finas água pura
ficamos em silêncio no telefone
ele perguntou qual era a palavra
eu não sabia qual era a palavra
por isso demorei cinco dias para responder
falei de longas caminhadas pela cidade
não contei que na calçada havia uma fruta
sem casca toda mordida por formigas
uma pêra um banquete
não disse que o som é uma frequência
que na inércia viaja de um lado
para o outro e rebate e pode
perder a força
mas não morre nunca
ainda não sei bem o que isso quer dizer
tudo o que falamos fica pra sempre
fluindo no ar como água?
(como é o cheiro da água pura?)
talvez o som volte mais tarde
e nos pegue de surpresa?
o amigo dela é obcecado pelo movimento
das formigas, o movimento
que olhando de fora parece
assustado ou aleatório mas que nos bandos
internamente faz sentido
e dentro do apartamento por causa do vale
às vezes se escuta uma pessoa falando lá de longe
em casa do outro lado do morro
uma frase baixinha um sussurro
de um vizinho distante
ficamos quietos por tempo demais
com medo de dizer a coisa errada
no telefone não tinha como saber
se você me olhava nos olhos

*

ilhas diomedes

falamos sobre o percurso até o fracasso
ou sobre como falar em fracasso talvez
já seja um passo adiante
um passo adiante do fracasso
o passo não sei bem em que direção
lá perto do polo norte
você sabia que tem duas ilhas
uma grande e uma pequena
as ilhas diomedes ou as ilhas do amanhã
separadas pela linha que corta o fuso
a linha que divide o ontem do hoje
numa distância de apenas um quilômetro
conversávamos perto de uma palmeira
iluminada por baixo que cobria
uma constelação, o céu estranhamente claro
porque choveu nos últimos dias e agora
lá está saturno, como você sabe
que é saturno? só sei reconhecer
as três marias e mesmo assim
depois tentei fingir que não ouvia
o tiroteio do outro lado da montanha
tiros ou fogos como dizer a diferença
pensei em fechar a janela mas mudei de ideia
e no lugar escancarei o vidro
o vidro não suavizaria o baque
como por exemplo estar de óculos num acidente
os óculos protegeriam os olhos
ou pelo contrário os estilhaços
da lente entrariam na retina? o que dói menos?
o cinto de segurança como uma marca
para sempre cruzando o peito
uma faixa de miss ou de presidente
o dedo gira na borda do copo
um pingo no vestido
vinte e três horas separadas por uma linha
onde quem sabe algum dia
talvez construam uma ponte
um túnel um ferryboat
um trem um voo uma ciclovia
uma avenida uma estrada um voo
um balão um bom par de tênis já servia

*

baixo gávea

você está mais magra
a qualquer momento o cordão
vai arrebentar de tão velho
se alguém puxasse mesmo
que de leve já era
mas ela sempre foi magra
ficamos marcados para sábado
ninguém me chamou? não é isso
daquela vez também
ninguém me convidou para o café
não li a segunda parte, mas a primeira
me fez mal fisicamente falando
não posso andar com vocês
não tenho pós-graduação
pra citar deleuze, falar em epistemologia etc.
mas vocês já se separaram?
a menina vem pra cá nesse fim de semana
no fundo não estou assim tão a fim
você está com uma cara
parece que alguém que você queria
que viesse não veio
apareceu tanta gente
e é sempre assim
a gente só lembra de quem não veio
você que está sumida
não te vejo faz quantos meses
essa viagem não te fez bem, está magra demais
e por que não deu certo? achei que fosse
durar, todo mundo achou
então marcamos sábado
ou domingo não lembro
trabalho perto de você, vamos combinar
a gente sempre aprende
alguma coisa qualquer coisa
no carnaval duzentas mil pessoas no aterro
ela disse que queria ficar só comigo
eu e ela e eu
falei que aquilo não tinha como
em pleno carnaval aquela gente toda
bateu uma saudade
não bolei nenhum plano b
mas fica bem, você está bem?
vou comemorar amanhã com a minha mãe
talvez alguma coisa na minha casa
você tem que conhecer minha casa
minha casa já está com cara de casa

*

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