André Capilé

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André Capilé (n. 1978) nasceu em Barra Mansa, cidade do interior sul fluminense. Graduou-se em Filosofia na UFJF. Mestre em estudos literários,  pela PUC-RIO,  onde cursa atualmente doutorado em “Literatura,  Cultura e Contemporaneidade”. Co-fundador e ex-organizador do ECO — performances poéticas. Atua como colaborador na Editora TextoTerritório em suas diversas frentes de trabalho. Publicou, em 2008, o livro Dois (Não Pares), em parceria com Carolina Barreto, pela Anome e Funalfa Edições; em 2010 editou a plaquette ZANGARREIO;  seguem-se as publicações de rapace (2012), pela editora TextoTerritório e balaio (2014), pela coleção megamini da 7letras. Prepara, para esse ano (2015), a publicação de chabu e troco da passagem, ambos pela editora TextoTerritório. Publicou, em 2015, “A canção de amor de J. Pinto Sayão”, tradução de “The love song of J. Alfred Prufrock”, de T. S. Eliot, pela Edições Macondo, em sua nova coleção: Herbert Richers.

Os poemas a seguir são inéditos.

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5

ok ir até onde o passo dá pé mas
que é que há de comer do córrego?

ok ir com a correnteza mas
como se nem os peixes bóiam?

ora da cartilha do ensina a pescar
a reza sabem somente os piscinas

não sabem ainda de que solas são feitos
os do lado de lá da insolação

do barro vermelho?

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III

vai

com teus trapos
ao malogro

joga das valises
o golpe do paco

em galope de feira
o mole do vagabundo

emula a fala ordinária
de dar giras à mímica

(sem ter do ambulante
o três por um da sintaxe

não pechinche o ritmo
a rua não dá desconto)

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MAVAMBO

faz roda, kamunan — vai beber da cachaça,
o mel; farinha e dendê, melanja : mavîle.
gargalha — transtorna o sorriso. não redunda
em caralho, a foda; e o barro, o mais metonímia.
hermes, o do pinto menor, nem para a entrada.
o divórcio entre o costureiro e o alfaiate.
senta no formigueiro e a cabeça tropica
no céu. não se dá com porrete por moral
— e mais : desdenha dos corcéis de carrossel.
mensageiro volante do destino — corre
caminho e encruzilhada — o senhor, giramundo
das mais largas molduras, que dá por início
o que começa e começa de novo, veste
a tabatinga e vai dar curso à existência.

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FÉRIAS PASSADAS

não te vejo por aqui faz
algum tempo. como você
vai? espero que bem. talvez
não se recorde de nós; falo
daquela vez em que estivemos
juntos. lembra quando pisávamos
as poças frias, naqueles dias
que pareciam não acabar
[tão logo, quanto um picolé
mordido por uma criança
melando cada um dos dedos]?
não? eu te entendo. tá tranqüilo.
da vida leva o quanto pesa.
bagagens correm com o rio.

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APÊNDICE
para Ismar

moído, de verdade. mas como sou carrancudo
pensando, agora por do corte de escrever
umas belezas aí, é que vem: se tudo for de pena,

o microfone aberto da minha vida volta
às parcas com os que não fazem questão dela.

—————————————-gosta de mim?

se pertença minha, a benevolência — um bem
que tenho evitado —, tomo teu nome e fazemos
um filho, pode ser? à criança será dada força

— e será má fama (vamos revirar o cinema?).
pausa, breve, para o recado dos organizadores.

comprem a singela da gávea que dá
fundos à penúltima da coleção.

agora é direto com vocês dividindo
a sombra de um mundo novo. bem vindo

à noite de logo mais. se quiser furar
a fila, atenda ao termo do convite:

traje, apenas.

eu te encontro fôlego. não há lastro pra mim,
pois que caí aqui da janela e vem daí que me
interessa, mais, o que a cada vez tu faz melhor.

—————–foi uma bela tarde em kon mei.

imediatamente anteriores aos de cima,
que de andar na areia fofa, dependendo
da coorte de passear por aí, foi bem óbvio
que não era tão de boa um deus nos livre

urgindo a exigência de um alívio. não
me disseram, as loucas, tocando meu rim,
enquanto esperava o ano passar desperdício?
era um quê da vida que falavam? ah me dera.

ficou mais a pressa medida dos sapos.
e este é esse verso que perde suas armas.
e se já não é, ele disse: acabou! acabou!
por vezes o que falta é essa perna aí.
e era o fim do pavio, o fio da boina.
e se já não sabe, está bem sem dúvida.

ela é quem vai ler no arranhão. casal
pronto & acabado. só isso. o resto é
puro desserviço — o calo cativo
de esquecer que essas frases pegam mal.
eu, de cá, acho um grande despropósito
ser revistado a pente fino antes
de entrar de férias na escolinha. basta
de brinquedo novo no repertório.
serão dados amigos jovens. saltos
pra quem espera a vez nos trampolins.
já me afastei com medo do convite —
o que dá um interessante efeito,
confesso — para a vida no divino:
lenha e matéria gasta até o fim.

(a sumidade esclarecida se perdeu.
foi contra as recomendações do seguimento.
achando umas paradas muito estilo severo,
abandonou-se às suas rotinas de hábito).

começou a ficar difícil. já deu ruim.
ser si mesmo é um grande transtorno. bem dito.
aqui gente, por favor, tenham modos. fiquem
bem com os teus. foi dada a recomendação.

uns poucos traços do de sempre
e sigo rindo. não precisa
agradecer imenso, não.
tá tudo certo entre nós, sim?
respira em paz. esquece a merda

toda em que nos metemos juntos.
foi chato à vera, você sabe.
que a terra lhe seja bem leve.

da série de epitáfios pífios que escrevi,
aqui deixei: “vem cá, continuo tentando?”

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Como fazer (ou não) uma solidão povoada

Anderson Pires entrevista André Monteiro

 

Definir o que é poesia contemporânea ou mesmo delimitar um cenário poético é tarefa um tanto arriscada e (sem dúvida) perigosa. No entanto, é inquestionável que o cenário atual e toda sua diversidade de poesia vem crescendo cada dia mais, vide o número de novas editoras que são criadas e poetas inéditos recentemente publicados. Não é o caso de André Monteiro, que publicou seu primeiro livro (Ossos do ócio) em 2001 e, desde então, possui uma produção poética editada constantemente (seja no meio físico ou virtual). Apesar de dizer que não se encaixa em nenhuma “cena poética”, Monteiro é figura constante, principalmente no cenário juizforano, há algum tempo, dialogando – seja no meio acadêmico, seja nos copos de cerveja, ou nas discussões políticas e poéticas – com poetas e artistas diversos da região Sua mais recente publicação Cheguei atrasado no campeonato de suicídio (Aquela Editora) foi lançada em junho desse ano, e reúne trabalhos de 1990 a 2013.

Pensando nesse cenário inconstante, mas existente, convidamos Anderson Pires da Silva, autor de Trovadores elétricos (Aquela Editora, 2013) e amigo e agora colega de trabalho de André, para conduzir uma entrevista com o poeta – remontando uma pareceria que existe há décadas, dentro e fora do mercado editorial (em 2006, por exemplo, os dois publicaram na antologia Livro de sete faces, editado pela Funalfa Edições e pela Nankin Editorial). Nessa conversa, que poderia ter acontecido em uma mesa de bar ou em uma sala de aula, Monteiro fala sobre a cena poética de Juiz de Fora, sobre seu trabalho solitário (mas povoado), além de suas produções recentes e, é claro, sobre o elogio à anáfora no seu novo livro. Confere aí.

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Fotografía de Stephan Rangel

Olá, André! Como vai? Antes de conversar sobre seu último livro, não posso deixar de lembrar o quanto foi divertido e rock’n roll o lançamento do Cheguei atrasado no campeonato de suicídio. Por causa disso, queria saber qual a sua análise da atual cena poética em Juiz de Fora e como você se encaixa nela?

Nos últimos anos, há muitos poetas, de gerações e filiações distintas, exibindo seus trabalhos em Juiz de Fora. Não apenas através de livros, mas também via blogs, redes sociais e “microfones abertos”. Penso que o surgimento do Eco, do qual tive a alegria de participar algumas vezes, inclusive de sua primeira edição, contribuiu, em grande parte, para essa espécie de boom da poesia em nossa cidade, seja abrindo espaço para que muitos “engavetados”, para lembrar Sérgio Sampaio, pudessem colocar sua poesia na calçada, seja estimulando encontros e reencontros (nem sempre pacíficos, o que é saudável) de poetas de tempos e lugares distintos. Acho que a cena poética de Juiz de Fora é, hoje, tão vasta e tão diversificada que é difícil analisá-la como um todo, ou reduzi-la a um denominador comum. Continuar lendo

Poemas de Anelise Freitas

Anelise Freitas estuda Letras na Universidade Federal de Juiz de Fora. Publicou os livros Vaca contemplativa em terreno baldio e O tal setembro. É uma das organizadoras do Eco Performances Poéticas e fundadora do movimento/revista/blog Os 4 Mambembes. Ultimamente tenta voltar para casa, pelo menos em versos, enquanto constrói o conceito e escreve seu terceiro livro, com título provisório de sozé.

Abaixo, 4  poemas inéditos:

o poema #01

       queimar
a matéria
que não líquida
nem sólida
……arder

zôrei
aqui não é lugar
pra ficar vai longe se
retirando daqui
amanhã bem cedo para
de chamar

(um sopro de-
forma o fogo)

antes de apagar
passar os dedos sem
queimar
a matéria da chama
que não líquida
nem sólida
zôrei

*

o poema #02

where do the dreams of babies go
‘cause you know they’re all so good
and they’re also gone so fast

: começa, e eu nem tirei a blusa
a minha cabeça se enterra
e a sua bunda movendo pra frente

digo que preciso chorar enquanto
penso de pernas abertas
em como aquela canção vai terminar

e choro e você põe fora
pra gozar

*

​o agora

that hallowed be thy name
porque é difícil estar
sempre um passo atrás
do rabo, quem julga
(?), por fim, o que é sagrado

never say that name in vain
because todo mundo vai
estar atrás, e é você mesmo que diz
balançando a voz
(!): a briga não é parada

want to touch the skin
mas espera lá, vê bem:
só vale a pena quando é de verdade
mamãe te diz e eu falo grosso
(.) tom de pele não faz vigor

will hurt, baby: and anybody cares
que o rio volta na chuva
e a boca está bem perto
do rabo (;) aperta o passo, alonga
a língua e toca​

*

o babalawo

òsùmàrè
òsùmàrè
seis meses homem
seis meses mulher
òsùmàrè

na ponta do pé,
balança a serpente
òsùmàrè
òsùmàrè
búzios coloridos
òsùmàrè

seis meses homem
seis meses mulher