Escoliose #9 – uma coluna

GABITO

por Otávio Campos

Piacatuba, 29 de julho de 2012

Gabito,

Hoje acordei meio indisposto. Passei longas horas deitado no sofá da sala, com a TV desligada e a janela fechada – escuro que só. Tentei fazer alguns exercícios de concentração, sabe?, pra não ficar pensando coisas estúpidas, mas só me deu trabalho. Aqui, o tempo custa a passar, então essa eternidade que passei deitado deve ter durado uns trinta minutos. Quando comecei a me encontrar dentro da minha cabeça, uma língua vermelha de sol entrou por uma fresta da janela e me encontrou. Então estava eu lá, escrevendo com as unhas um romance sobre a pele e lambido de sol por dentro.

Terminei ontem de ler um livro que me fez muito bem – ou não. Desde que comecei a tentar escrever meu romance, tenho lido bastante coisa para estudar a técnica narrativa. Grifo algumas frases, reescrevo-as no papel, experimento algumas delas dentro de um texto meu. Dentre as várias coisas que encontrei nesse livro, a que mais me chamou a atenção foi um solilóquio da protagonista, que, melancólica e sozinha no apartamento, chega até a janela no crepúsculo e recebe uma lambida dos últimos raios de sol (ou qualquer coisa parecida com isso, o que, na verdade não importa). Acabei de tentar utilizar essa nova expressão aqui em cima, mas acho que não deu certo. Na verdade, Gabito, eu nem fiquei deitado no sofá hoje.

Hoje acordei meio indisposto e fui até a janela. Olhei para esse oceanozinho (inho) de telhados coloniais e me bateu um desespero tão grande! Quando foi que isso deixou de ser só meu? Fiquei lembrando de como você me ajudou a criar isso aqui, como você me fez fazer as pazes com esse lugar. Se hoje eu e Piacatuba nos suportamos, é porque há três ou quatro anos atrás ela passou a se chamar Macondo, pra mim. Quando a chuva dura muito tempo, eu fico em Juiz de Fora e só volto quando o chão já estiver seco de novo e as borboletas amarelas voando. Mas, enfim, hoje olhando na janela eu percebi que eu já não via mais as coisas como elas realmente eram, mas apenas com um filtro Macondo. Isso é ruim? Não, estou realmente agradecido desse filtro existir, por isso resolvi te escrever. Continuar lendo