Ficção de Polpa – Volume 5: Aventura!

Capa FdP5

Há uma lenda que circunda o meio literário, mais precisamente o meio literário acadêmico, que a literatura de massa, melhor, a literatura de entretenimento, necessariamente precisa ser de baixa qualidade. Claro que temos certeza de que isso não passa de um mito, mas como comprovar? O quinto volume da série Ficção de Polpa, denominado “Aventura!”, lançado pela Não Editora, em 2012, chega justamente para corroborar nossa afirmação.

Segundo exemplar da série dedicado exclusivamente a um tema, este Ficção de Polpa mantêm a qualidade gráfica dos anteriores, contando, inclusive, com antigas propagandas (reais) esporádicas no meio dos contos, dialogando com a trama, e que simulam a leitura de um verdadeiro exemplar pulp. São seis contos inéditos com as temáticas clássicas da Sessão da Tarde: dinossauros, guerra, expedição para a Antártida, piratas, vingança e tesouro – além de uma tradução de “O Aranha”, de Arthur O. Friel, como faixa bônus.

Percebe-se um verdadeiro interesse dos autores em levar “diversão de qualidade” para as páginas do livro, como é o caso de “Por favor, não toque nos dinossauros”, de Bruno Mattos, uma trama à la Jurrasic Park, com verdadeiros dinossauros que dão o fôlego inicial desta coletânea. Consegue-se manter a tensão e a atenção do leitor no seguinte “Melhor servido frio”, de Carlos Orsi, conto sobre uma expedição científica que tem como fio condutor os temas traição e vingança (muito caros a este volume, como se pode perceber com o não tão bem sucedido “A joia de Évora”, de Christopher Kastensmiot). O livro soa divertido e “leve” até este ponto, mas o interesse aos poucos se dispersa ao chegarmos em “A igreja submersa”, de Simone Saueressig que, apesar de ser uma narrativa bem trabalhada, peca pela repetição da constituição da trama e parece, em certa medida, uma “forçação de barra” para adequar o conto ao volume. No entanto, o objetivo inicial do livro é cumprido – como coloca o organizador Samir Machado de Machado no prefácio: “é aí que chegamos à proposta desta coletânea: abandonar o tom cinzento de incertezas e angústias que dominam nossos mundos adultos e neuróticos e trazer de volta o preto e o branco sólidos da adrenalina, da tensão e do temor que todos já experimentamos pessoalmente”.  Porém, apesar do visível trabalho de pesquisa e qualidade narrativa, os contos “Virtude selvagem”, de Júlio Ricardo da Rosa e “Seis quilômetros”, de Carlos André Moreira, perdem um pouco essa adrenalina citada, possivelmente pela longa narrativa, que fará um leitor desacostumado com este gênero (assim como eu) cair no sono ou ter de retornar algumas páginas para compreender o que se passa.

Deixando de lado essa discussão pessoal sobre gostar ou não de um conto, passemos a uma questão indiscutível: a revisão textual. O livro perde muitos pontos pelos inúmeros erros de concordância e ortográficos, possivelmente resultantes de uma pressa imensurável de fazer com que o volume saísse. Infelizmente, perde ponto também a editora, que até então vinha surpreendendo em cada lançamento pela qualidade visual e textual das obras. Obviamente isto não interfere na compreensão do texto e acreditamos que estes problemas serão resolvidos nas próximas edições.

Por fim, Ficção de Polpa – Aventura! sem dúvida se mostra um leitura indispensável, tanto para os que curtem a literatura de entretenimento, quanto para os mais “pseudinhos”, que querem saber o que está rolando no mercado atual. Um livro para se ler debaixo dos cobertores em dias de chuva enquanto não começa o filme na TV.

PS.: Para quem curte essa parte do design dos livros, recomendo dar uma conferida no incrível blog Sobrecapas, do Samir Machado de Machado, mais exatamente no post sobre a “confecção” deste livro (só clicar aqui).

por Otávio Campos

nota fcição

Monstros fora do armário

É interessante pensar em como a relação entre pais e filhos vem sendo tratada no âmbito da literatura brasileira contemporânea (e lá vou eu tocando mais uma vez nesse assunto), bem como o esvaziamento de sentido da instituição familiar como um todo nas últimas décadas. Em seu livro de estreia, o gaúcho Flavio Torres se propõe (ou não) a “estudar” essas relações delicadas e perigosas, tornando-as mote para a concepção dos onze contos que compõem Monstros fora do armário (Não Editora, 2012).

O livro é dividido em três sessões: “Concepção”, “Gestação” e “Legado”, cada qual, no projeto gráfico, com sua tonalidade característica, o que nos faz lembrar um pouco de A fera na selva, de Henry James, editado pela Cosac Naify. À medida que as situações no livro vão se tornando mais intensas, as páginas vão escurecendo, trazendo ao leitor a experiência ativa da leitura. A primeira parte do livro (“Concepção”), composta por um único conto, transborda um lirismo desconfortável desde a primeira linha até o final. Mesmo tratando de dois temas que causam um impacto, Flavio transforma o conto em uma sutil, porém desesperada, procura pela gravidez e, consequentemente, a busca em deixar descendentes por uma mulher que já possui seus dias contados. Pode-se ler este como o conto mais leve dentre os demais, possivelmente por este motivo, as páginas são brancas, com tipografia negra.

A sessão seguinte é composta por nove contos, sintéticos (não passam de dez páginas), densos e sem títulos. Qual um soco no estômago, “Gestação” traz, quase em sua totalidade, personagens crianças, que guiam ou amparam a narrativa para que esta atinja seu objetivo, que parece ser única e exclusivamente causar o desconforto do leitor. Com páginas acinzentadas, a segunda parte do livro traz contos como o de uma criança de rua que procura uma prostituta, pensando ser esta sua mãe, um pai que obriga o filho a cometer zoofilia, duas crianças que matam um cachorro para evitar o sofrimento deste, entre outros, mas creio que o destaque maior deve ser dado à prosa intitulada “Quarto” (no sentido ordinal). Um simples almoço entre pai e filho, preparado nas primeiras linhas e, logo em seguida, em flash back, somos apresentados aos fatos que precederam esta cena. Somos remetidos, no instante, à narrativa dura, sangrenta, e crua, de Ana Paula Maia na Trilogia “A saga dos brutos” – os mais cinéfilos provavelmente se lembrarão de Estômago , ou até mesmo Sweeney Todd.

Os contos presentes na segunda parte do livro dificilmente serão classificados como originais ou surpreendentes, mas operam quase como dentro de uma brincadeira, na qual o leitor, para fugir do choque anterior, procura saída nas páginas seguintes e, qual uma leitura no escuro, compreendem que não há saída. Uma sucessão de fatos e imagens que se escurecem até a parte final: “Legado”. De páginas completamente negras, o único conto que compõe a terceira sessão do livro surge para quebrar a velocidade e a dinâmica da parte anterior. O que parece ter sido jogado no papel e embaralhado em “Gestação”, aqui já aparenta ter sido um trabalho muito mais cuidadoso, com uma rigidez técnica que remete ao conto de abertura do livro. Esse sim é um conto que deve ser lido mais vezes, para que possamos captar nas entrelinhas (mas não necessariamente) a perversão e a palidez urbana. Sem exageros, o livro termina com um beijo que, diferente da leitura da orelha, não deve ser enxergado como uma esperança, mas uma armadilha cravada no asfalto.

Todos temos nossas paranoias e medos, é claro, mas enquanto alguns preferem deixá-las trancadas em casa, outros as exacerbam descaradamente. Flavio Torres traz para fora (do armário) esses monstros que não existem apenas no nosso imaginário, mas estão nas ruas, nas relações cotidianas, nas moedas que são pedidas no trânsito. Mais do que um simples livro de contos contemporâneo, Monstros fora do armário é um estudo antropológico hiper-realista mesclado com uma experiência estética única (?), devido ao zeloso e bem cuidado projeto gráfico de Samir Machado de Machado (que explica tudo direitinho aqui), que permite ao leitor ser instrumento quase ativo nessa obra.

por Otávio Campos

nota monstros