Livros que você precisa ler em 2013

livros que precisa ler

O ano mal começou e o mercado editorial já chega com algumas promessas. A Companhia das Letras já anunciou que esse será o ano das narrativas ficcionais brasileiras, prometendo fechar 2013 com um número de, mais ou menos, 16 romances produzidos em terras tupiniquins. A Intrínseca também prepara seu primeiro lançamento neste circuito e a Cosac Naify tem planos de aumentar sua frequência de romances brasileiros. Com todas essas notícias, nós selecionamos alguns dos prometidos que, com certeza, figurarão nas nossas listas de livros lidos em 2013. São eles:

Divórcio, de Ricardo Lísias. Será lançado pela Alfaguara, ainda sem data prevista. É promessa por conta, é claro, das polêmicas da Granta e da capacidade que conhecemos do autor de O céu dos suicidas.

Edifício Midori Filho, de Andrea del Fuego. Cara, ela escreveu Os Malaquias e teve cinco grandes editoras no pé dela e recusou oferta de quatro para publicar o novo romance com a Companhia das Letras. É de se esperar menos?

Rabo de Baleia, de Alice Sant’Anna. Bem, a Alice a gente já conhece, né? Pelo título do livro, acreditamos que essa lindeza que foi publicada na nossa edição de aniversário (quadro 3, e você pode ver aqui) estará presente nesse novo número da coleção de poesia da Cosac Naify. (E ainda podemos tirar onda que publicamos primeiro)

Desde que eu te amo sempre, de Cecilia Giannetti. Mais um da coleção “Amores Expressos” da Companhia das Letras. Segundo a autora em uma conversa recente que tivemos, o livro já está pronto há um bom tempo e estava tendo problemas para ser publicado. Mas parece que desse ano não passa e, enfim, conheceremos o sucessor de Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi. Ah, a gente ainda teve a oportunidade de ouvir a autora lendo um trecho do romance e, sim, é bom.

O novo livro do Chico Buarque. Esse aí não precisa falar nada. Não tem título ainda e a Companhia não sabe se o autor/compositor/deus vai entregar o romance esse ano. Mas mantemos os dedos cruzados e esperamos fechar 2013 com algo, se possível (é possível?), melhor que Leite derramado.

Nossa parceira, Laura Assis, produtora editorial da Aquela Editora, em uma conversa informal (via Facebook), contou pra gente quais são seus livros mais aguardados desse ano:

Faíscas, de Carol Bensimon (Companhia das Letras)

Digam a Satã que o recado foi entendido, de Daniel Pellizzari (Companhia das Letras)

A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, de Joca Reiners Terron (Companhia das Letras)

Distância, de Otávio Campos (Aquela Editora) – aí a gente aproveita e faz aquela propaganda do autor e da editora que, é claro, não podia faltar.

Trovadores elétricos, de Anderson Pires (Aquela Editora) – este último já está com lançamento previsto para o dia 9 de março e o booktrailer você confere agora:

Bom, nosso objetivo agora é ter, durante o ano todos esse livros em mãos e compartilhar com nossos leitores aquelas famosas resenhas, de muito bom gosto e com técnicas super apuradas. Tá esperando algum livro e ele não está aqui? Deixe nos comentários.

Indicações literárias dos editores: Otávio Campos

Leu: Sob o céu de agosto, de Gustavo Machado (Dublinense, 2010)

Um romance fenomenal, com tudo que um romance contemporâneo brasileiro precisa ter, sem perder a originalidade de estréia do jornalista gaúcho. Sem muito para dizer no momento, visto que acabei de resenhá-lo aqui.

Por que leu?

Tinha que escolher um livro do catálogo da Dublinense para que a editora nos mandasse para resenha. Como era o primeiro, decidi escolher um romance e, pra ser sincero, achei a capa interessante e o peguei sem nem ler a sinopse. Não me arrependi.

Está lendo: O torreão, de Jennifer Egan (Intrínseca, 2012)

Segundo livro da Egan que leio. Por enquanto está se mostrando um romance muito fraco, com personagens caricatos demais e clichês que parecem ser essenciais à literatura americana.

Por que está lendo?

Li, no início do ano, A visita cruel do tempo e o achei muito bom. Quando vi que a Intrínseca ia lançar no Brasil também esse livro da Jennifer Egan, fiquei curioso e, depois de ler uma crítica sobre na Bravo! achei que seria interessante e corri pra comprar.

Vai ler: Retratos Imorais, de Ronaldo Correia de Brito (Alfaguara, 2010)

Comprei esse livro há uns meses, logo que acabei de ler Galiléia. Está aqui na estante, esperando minha coragem de lê-lo (conforme registrei aqui).

Por que vai ler?

Depois que li Galiléia, Ronaldo Correia de Brito entrou na minha lista de autores essenciais. Como só li um livro dele, achei necessário conhecê-lo mais um pouco antes de colocá-lo nesse patamar, então comprei esse livro do contos e sempre o coloco na lista de próxima leitura – mas até hoje não tive coragem de começá-lo.

Precisamos falar, rapidamente, sobre o Kevin

Pela tradição judaico-cristã Eva é o nome da primeira mulher que, ao provar do fruto proibido é expulsa do paraíso. Eva Khatchadourian, sem dúvida, não se difere muito da homônima descrita na Bíblica e no Alcorão, pois ao conceber seu fruto, no caso, o filho, sua vida se torna um verdadeiro inferno. Sim, estamos falando sobre a personagem principal do romance de Lionel Shriver, Precisamos falar sobre o Kevin.

A arte de tirar o fomento para romances das primeiras páginas dos jornais não é novidade, mas a maneira como Shriver utiliza a notícia de um adolescente de 15 anos ter matado 12 pessoas em uma escola nos Estados Unidos é o que faz desse livro um marco da literatura contemporânea. A autora não se vale apenas do fato em si, mas de todos os acontecimentos que precedem a “chacina”, desde a concepção e nascimento de Kevin Khatchadourian até as constantes visitas de sua mãe na penitenciária. Pois bem, o livro já começa com uma dessas visitas, ou melhor, o relato dela por Eva. A narrativa toda se baseia em cartas dessa mãe para Franklin, seu marido que está ausente.

Apesar de ser uma pergunta recorrente na história e, com certeza, na cabeça de todos que a leem ou pelo menos ouvem falar sobre, o que levou Kevin a cometer o crime de longe é o que necessita ser respondido nesse livro. De forma perturbadora, a autora visa traçar uma narrativa mais preocupada na relação entre Eva e Kevin e a pergunta que fica é “pode uma mãe odiar seu filho?”. Num primeiro momento, responderíamos que sim, visto que desde o início Eva detesta Kevin (porque ele representa pra ela a derrota da dor do parto?), apesar de ela tentar nos convencer que isso não é verdade, que era Kevin quem a detestava. Nesse ponto, é necessário ressaltar que precisamos ser muito cuidadosos ao ler o livro, para não cairmos nas “armadilhas” do narrador. Mais do que um livro em primeira pessoa, o romance é constituído de cartas, nas quais Eva tenta (acredito) eximir sua culpa sobre os acontecimentos.

Em quase quinhentas páginas (mal revisadas pela Intrínseca), somos levados a conhecer o ápice e o declínio profissional de uma mulher, que entra na vida adulta como promissora diretora de uma empresa de guias de viagens baratas e passa a ser uma frustrada dona de casa, que não consegue se encaixar no papel de mãe. Vendo que seu esperado bebê não saiu conforme a encomenda, o que Eva faz? Desiste? Não, mas tenta novamente e, dessa vez, parece dar certo, já que a pequena Celia exala a feminilidade e a doçura que tanto conforta Eva. É plausível que Kevin seja uma criança problemática e que tenha realmente cometido todos os pequenos delitos infantis que a narradora elenca, mas são dúvidas que nunca serão respondidas e o que nos resta é ter tal consciência e nos deixar estremecer toda vez que o pequeno Khautchadorian entra em cena (com nãnãnãnã, revólveres de brinquedos ou à la Robbin Hood).

A adaptação do livro para as telas, apesar de render um post à parte, sem dúvida é algo que deve ser ressaltado por aqui. Sem a burra pretensão da fidelidade que tanto estraga esse tipo de trabalho, Lynne Ramsay tem consciência da transposição das letras para frames da história de Shriver, e realiza da melhor maneira possível (me arrisco em dizer que talvez seja essa uma das mais brilhantes adaptações que já houve). A cronologia inexistente e arrebatadora é o elemento perturbador da película, que é deliciosamente perpassada por pelo menos um detalhe vermelho em todas as cenas (o que renderia uma grande discussão sobre a simbologia do Vermelho e o Negro na história). Eva é incrivelmente representada por Tilda Swinton, e consegue passar toda pulsação de culpa x inocência presente na narrativa, apenas com o olhar. O livro e o filme são obras distintas que dialogam (e não necessariamente se encaixam) e criam dois universos sobre este fato.

Tilda Swinton interpretando Eva Khatchadourian na adapatação de Lynne Ramsay

Um tapa na cara e um soco no estômago: é a sensação que se expande depois de cada capítulo. Apesar de não haver tal necessidade para o livro ser classificado como excelente, o final é algo catártico, chocante, desesperador que, se até lá o leitor não tiver conseguido responder, Shriver mostra a resposta para a questão cerne do romance. Sem mais delongas (o texto é curto porque é quase impossível comentar sobre o livro sem disparar um importante spoiler), sem dúvidas Precisamos falar sobre o Kevin é um livro que merece ser lido, lido, estudado, escondido, flechado, temido, lido e comentado.

por Otávio Campos