Escoliose – uma coluna #5

FICAR EM CASA

Um papo com Drummond, Ronaldo Correia de Brito, livros vivos, mortos e felicidade clandestina

                                                                                                                                             por Otávio Campos

Abri a porta do armário e estava ela, minha prateleira de livros me olhando. Corri o indicador pela lombada de alguns, mesmo já sabendo qual escolheria… e foi. Afastei os livros dos demais, segurei firme nas mãos e fiquei por um bom tempo parado, olhando a capa – a foto, a logo da editora, a disposição do título e do nome do autor, as cores. O bastante. Já estava preparado para ir mais fundo na relação… e fui. Com a mão esquerda, acariciei de leve a capa e, com a direita, aparei a quarta capa, virando o miolo na direção dos meus olhos. Abri com os polegares. A primeira reação, claro, foi meter o nariz entre as páginas e sugar o cheiro do papel (aproveitando enquanto o ministério público não caracteriza tal ato como vício prejudicial à saúde). Deixei ventar algumas páginas até que os olhos parassem em algumas linhas e seriam elas o prato de entrada. Caso meu paladar concordasse, devoraria o livro ainda hoje. “Gosto de meias finas, mas é preciso cuidado com as unhas para não puxar os fios. Adoro batom vermelho, peruca loura, sandálias altas.”

O ostracismo, o ócio criativo, a procrastinação com as coisas simples. Nenhum compromisso me esperando lá fora e eu e o quarto nos tornando uma coisa só. Infelizmente, o prazer de não fazer nada é algo que me deixa culpado e a simples noção de que estou desocupado, ou pior, desacompanhado, faz com que eu surte. Hoje, a primeira coisa que fiz quando me dei conta dessa minha condição foi abrir um exemplar de A bolsa e a vida que tinha sobre a mesa. Sem métodos, caí logo na crônica “Ficar em casa” – uma terapia.

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Mixtape de Junho

A partir desse mês nossas fitamistas ganharão um toque mais, hm, poético: serão sempre iniciadas com algum poema em áudio. Para começar bem, temos Chico Buarque (aniversariante do mês) declamando “Os Inocentes do Leblon”, do Drummond (homenageado da próxima Flip). Em seguida, surgem os leves acordes da hypada “Somebody That I Used To Know”, do Gotye (confiram o belo clipe aqui), acompanhada por “Jesus, Etc.”, do Wilco, nos levando para uma cidade onde ‘voices escape singing sad sad songs’. Correndo a viagem, chegamos ao Brasil, recebidos pelo “Vampiro” de Caetano Veloso e pela “Vou me afundar na lingerie”, canção xuxu beleza de Arnaldo Baptista, que abre caminho para a interpretação arrepiante de Elis Regina em “Cartomante”, derrubando reis de espadas, ouros, paus, até não ficar nada, apenas a não menos densa “Shattering Sea” da estreante nas nossas mixtapes Tori Amos, abrindo um ciclo para que every line, curve, twist and turn of a brutal word sejam dissolvidas na experimentalista “Ionisation” de Edgard Varèse. No mais, ouçam essa que é uma das mixtapes mais harmônicas e fluídas que já tivemos por aqui. É só clicar no player abaixo e aproveitar:

Um Conto Indica: “Conversa de Botas Batidas”, por Cícero

O pessoal do Musicoteca – fantástico blog de música brasileira – organizou, em comemoração aos 15 anos da banda Los Hermanos, a coletânea Re-Trato, composta por releituras de canções dos hermanos elaboradas por inúmeros músicos da nova cena brasileira. Dessa coletânea saiu o belo cover de Cícero para “Conversas de Botas Batidas”, e a Um Conto Indica o simples e delicado vídeo feito para ilustrar a canção, construído com imagens nostálgicas de cartões postais do Rio de Janeiro visitados descompromissadamente pelo próprio Cícero – contando, inclusive, com a participação especial de Drummond declamando seu poema “Memória”. O clipe e o poema você confere, na íntegra, abaixo:

Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

(Carlos Drummond de Andrade – em “Claro Enigma”)