Um Conto | Edição 20

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carta encontrada num sebo de estrada. se é que existem, os sebos de estrada.

prefiro observá-los, daqui, ao invés de ler o que escrevem: há tanto poema na nesga de sol que toca os óculos daquele homem, no rodar o anel daquela, nos sete degraus que seguram o chão dos pés d’um outro ali. daqui detrás das estantes desse sebo – e do alto das minhas olheiras, faço silêncio: foram tantos os que partiram esse mês. não é abril, nem fevereiro, muito menos agosto o mais cruel dos meses, como ouço falarem: é que acontece, às vezes, partir. eu mesmo, toda noite, parto. mas antes observo Ernesto no seu jardim de sombras. elas giram, em círculos, as sombras. daqui jogo pedras que somem na queda, silenciosamente. não rebatem na grama, no rio ou no chão: do momento onde não mais me pertencem, são breu. não percebo e não quero perceber os limites entre meu corpo e a pedra, que, de propósito, deixo cair (e não ouço, nunca, o baque). não leio, como disse, nem escrevo: porém anoto o que mais escuto e vejo. ter vem sendo uma palavra muito maior do que ser. e ser, sem repetições diárias, tem sido difícil. quando imagino que dos meus sapatos reverberam círculos feito pedra caída no lago (sem baque), tento respirar o máximo que posso antes que o ar termine quando o círculo imaginário tocar os limites da cidade, do país e dessa pedra flutuante que chamamos terra. feito Lino, o peixe de Patrícia, treinando respiração dentro d’água, eu vivo. no limite do verbo e o que dele, no fim, sobra, procuro a presença. mesmo que sintética, apertada como um torniquete úmido de sangue; mesmo que resumida, assisto. assisto a esse filme procurando por ela, a vida, ou por uma nesga, um baque surdo. daqui não escrevo, não leio. daqui recuo. e observo o que escrevem (principalmente quando não o fazem).

Danilo Lovisi

Paris, 20 de Agosto de 2014

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Participaram da Um Conto – Revista de Literatura, n.20, Agosto de 2014, Danilo Lovisi, Laura Assis e Otávio Campos, no Conselho Editorial. Com poemas de Ernesto von Artixzffski, Bruna Werneck, Luca Argel, Patrícia Lino e Paulo Henriques Britto. Conto de Daniela Lima e ilustrações de Marianna Arcuri. As fotografias, na versão digital, são de Ana Clara Nunes Roberti. A revisão e arte final (versão física) são de Anelise Freitas.

Para ler a versão digital da revista, clique na imagem da capa abaixo. Para baixar o arquivo em .pdf, clique aqui.

A versão física será distribuída em breve e atualizaremos com o endereço dos locais onde estará disponível.

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Um Conto – 16ª edição

Foto: Anelise Freitas

Foto: Anelise Freitas

Nossa décima-sexta edição já está nas ruas e agora vocês conferem um pouco sobre a vida e obra (ui) dos colaboradores desse mês. Temos desde escritos vindos de terras lusitanas à poemas produzidos em contextos nômades, sem contar nos que vieram de cidades mil pelo Brasil (rimou, ui). Além disso, clicando na imagem acima (ou aqui) vocês podem ler a edição na íntegra e compartilhá-la pelas interwebs.

EDSON BUENO DE CAMARGO

edson bueno

Edson Bueno de Camargo – Santo André – SP, 1962, mora  em Mauá – SP. Poeta, pedagogo, fotógrafo extemporâneo e entusiasta de arte-postal.  Publicou: cabalísticos Orpheu – Editora Multifoco – Rio de Janeiro – 2010; De Lembranças & Fórmulas Mágicas, Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2007; O Mapa do Abismo e Outros Poemas, Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2006,  Poemas do Século Passado-1982-2000, participou de algumas antologias poéticas e publicações literárias diversas: Babel Poética, Zunai, Germina, Meiotom, Confraria do Vento,  O Casulo, Celuzlose, entre outras.  http://umalagartadefogo.blogspot.com

MARCUS VIN G

markus

Paulistano, 22 anos, louco por animações vintages e terror

GIL T. SOUSA

Gil T. Sousa (1957) nasceu e reside  em Vila Nova de Gaia e é Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Jornalismo do Porto. Escreveu: poemas (2001) e falso lugar (2004) e água-forte (2007) edições privadas do autor. Nos anos 90 participou em leituras públicas de poesia, 4.ªs-feiras do pinguim café no Porto e na Casa Fernando Pessoa em Lisboa, no âmbito dos encontros promovidos pelo canal de poesia de irc do qual foi um dos fundadores. É autor dos blogues: poesia, falso lugar e exercícios de esquecimento, onde escreve e divulga poesia regularmente desde 2004.

CARLA DIACOV

carla diacov

sou carla diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci (09/04/1975) e moro em São Bernardo do Campo e brinquei na praça-dos-meninos. morei a Londrina e ela a mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de forma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. babando.

MIRIANNE S.

mirianne

Mirianne mora e trabalha temporariamente em um navio de cruzeiro. Fica correndo pra lá e pra cá em um buffet, junto de indonesianos, indianos, italianos, brasileiros, etc. Nas raras horas vagas, lê um livro de cabeceira com contos clássicos ingleses até o sono vir. É formada em Psicologia e dona do blog O Céu É Vermelho. Contribuiu com um poema no Coletivo Declame Para Drummond 2012. Gosta de massas.

 ANELISE FREITAS

anelise freitas

Anelise Freitas nasceu na cidade mineira de Lima Duarte. Reside em Juiz de Fora/MG desde 2007 e acumula conhecimento sobre a cidade desde 2004. Publicitária por formação, poeta e graduanda do curso de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora/UFJF. Nascida em 87, sob o signo de sagitário, já publicou em periódicos como o Caderno Encontrare, jornal Plástico Bolha e revista Um Conto. Editou e redigiu durante um ano O Jornal, publicação independente, divulgada em Lima Duarte/MG. Em 2011lançou seu primeiro livro Vaca contemplativa em terreno baldio (Aquela Editora), com poemas do blog homônimo;  expôs seus poemas no IV Festival Mulheres no Volante e participou, como convidada, da mesa redonda da  IV Semana de Letras da UFJF, ao lado dos poetas Lucas Viriato e Nicolas Behr. Em 2012 participou da Exposição de Poesias do Dia Internacional das Mulheres, promovida pelo Coletivo Maria Maria/UFJF e ministrou a Oficina de Criação Literária, no V Festival Mulheres no Volante. Desde 2010 é uma das organizadoras do evento ECO – Performances Poéticas, que acontece há cinco anos na cidade de Juiz de Fora/MG, promovendo encontros mensais entre poetas consagrados, novos escritores e o público.

DANILO LOVISI

danilo lovisi

Danilo Lovisi nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1991. Ainda não morreu. É graduando em Letras e coedita o zine/blog literário Um Conto desde meados de 2011. Não tem livros publicados mas costuma fazer, vez ou outra, sua Chaleira Muda falar. Recebe cartas no endereço lovisi.danilo@gmail.com

Esc #24 – Cidade, city, cité: imperativos e deslocamentos.

ou “while we sleep I know the streets get rearrenged”.você pode me ver se você quiserpor Danilo Lovisi.

Por viver na cidade, penso muito nela. Talvez até concorde, com ressalvas, com aquela teoria de que o meio influencia o ser, seja fazendo-o mais próximo (do meio) ou um total oposto. Enfim. Sei que percebi, há um tempo, que não estou na cidade, mas ela, sim, está em mim, tanto que a metáfora dela como um corpo é a que mais me agrada (e instiga). A imagem da cidade-corpo seria comparar as ruas com o sistema circulatório (veias, artérias) e respiratório, os órgãos vitais com as construções… Vitais e, bem, as associações são várias e de fácil correlação.

Acontece que por viver na cidade e pensar nela, seja como local ou símbolo, passo a procurar na sua manifestação física (feita, é claro, por nós, mas não tão controlada assim), acabo procurando (e encontrando) cidades invisíveis (alô, Calvino). Acabo percebendo, além disso, o quão ela nos controla (mas não somos nós que a construímos?) e limita os caminhos. Ela dá ordens: pare, olhe, escute e obedeça. E obedecemos. Temos (temos?) que obedecer. A ordem vem pela palavra, mas uma palavra-imagem: dos outdoors às silhuetas luminosas dos semáforos somos sempre direcionados, conduzidos. Mas encontramos fissuras. Válvulas de escape, escafandros que vestimos para conseguir andar (e viver) nesses caminhos concretos (concretos) que, embora abertos, sufocam, afogam.

São nos muros – talvez o símbolo maior de cerceamento – que abrimos as brechas, os cortes. Usamos da própria imagem-palavra para pausar ou redirecionar a condução que não para. É, sim, um outro tipo de ordem, são quase sempre imperativas as imagens-palavra, mas ela (a cidade) é assim. Usamos, então, dos mesmos elementos dela para confundir e trocar os focos, as direções, seja

barra funda, sp

abrindo possibilidades de uso,

bauru, sp

reproduzindo a paisagem para desconstruir a paisagem,

diluindo a ordem

diluindo a ordem,

instigando

instigando,

sao jose do rio preto, sp

se fazendo entender, porra!

fazendo rir (ou não)

fazendo rir (ou não),

criando referências para deslocar os sujeitos

criando referências para deslocar os sujeitos,

ou dando possibilidades.

ou dando possibilidades.

E cantamos, também. Seja reconhecendo que “O banco, o asfalto, a moto, a britadeira/ Fumaça de carro invade a casa inteira” e que “Algum jeito leve você vai ter que dar.

Ou percebendo a efemeridade da urbe, da flexibilidade (até mesmo do concreto) que se constrói para logo mudar, quebrar. Porque “this town’s so strange, they built it to change/ And while we sleep we know the streets get rearranged“.

A reflexão é extensa e perecível. Esses apontamentos já estão se diluindo pelo tempo, pela chuva,  por um balde de cal no muro, um fechar da aba do brownser, um stop no player. As ruas continuam mudando de lugar enquanto dormimos e nós continuamos mudando de ruas enquanto acordados. É a cidade/city/cité.

[P.S.: O crédito de todas as imagens desse post vai para o necessário olheosmuros]