Da arte das armadilhas, de Ana Martins Marques

A poesia contemporânea brasileira vem passando por uma fase promissora (pelo menos acreditamos) e revela diariamente nomes que vêm surgindo na internet e publicados por pequenas editoras. O mais interessante nessa nova jogada é que (de uma forma ou de outra) as publicações e consequentes reverberações fogem do fixo eixo Rio – São Paulo. É o caso da poeta Ana Martins Marques, vencedora por duas vezes do prêmio Cidade de Belo Horizonte de Literatura, que estreou no mercado editorial com seus poemas premiados no livro A vida submarina (Scriptum, 2009). A repercussão de seu primeiro trabalho chamou a atenção do poeta Armando Freitas Filho e expôs Ana aos holofotes do mundo das letras.

Em seu segundo trabalho, Da arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011), Marques retoma alguns temas do livro anterior e se mostra capaz de suportar as expectativas depositadas nela ao longo dos anos. Da arte é um daqueles livros que não se pode ler deitado: talvez sentado, mas às vezes é inevitável dar um pulo, um soco no joelho e gritar: é isso! A mineira dispõe em versos a honesta poesia sentimental contemporânea, que passa por assuntos como abandono, solidão e observações íntimas – como é o caso da primeira parte do livro: “Interiores”, na qual há um movimento duplo de internalização do meio (no caso, a casa e seus arredores) e exteriorização do eu. Pode-se observar este movimento nos poemas que se seguem:

CÔMODA

E dela
o que restou
senão
sobre a cômoda
um par de brincos
que talvez não sejam dela?

TORNEIRA

Quem abre a torneira
convida a entrar
o lago
o rio
o mar

VARAL

Suas camisas
colorem
o vento

*

Seus jeans
atualizam
a paisagem

*

Sua camisa branca
rendida
com
ao fundo
a noite
ampla

“Da arte das armadilhas”, segunda seção do livro, parece manter esse mesmo eu, que agora já busca outros espaços de composição poética, como a mitologia (em poemas como Carta a Safo, Mitológicas, Ícaro (1) e (2) e Penélope). Observa-se poemas já mais preocupados com a forma, que beiram uma metapoesia, mas ainda passando pelo corpo e suas insinuações:

A descoberta do mundo

Procuro alcançar-te
com palavras
com palavras
conhecer-te

como quem
com uma lanterna e um mapa
crê empreender
a descoberta do mundo

levanto-me
estou sozinha no escuro
com dois pés
no cimento frio

(onde estás
no que escrevi?)

A linguagem simples e acessível ajuda na retirada da poesia do pedestal hermético no qual esteve por tanto tempo mantida. Ler os poemas de Ana Martins Marques assemelha-se (até certo ponto) à leitura de uma prosa bem colocada, disposta em versos, mas com uma apuração “teórica” e formal capaz de inseri-la (com excelência) no universo lírico. A máscara vestida nesse livro (ou talvez persona, visto que parece ser um mesmo personagem que se deixa mostrar em todas as páginas) é uma espécie de Penélope (citada diversas vezes, da mesma forma que em A vida submarina) que, cansada de esperar também sai para ver:

Três postais

AMAZONAS

O mundo cheio
vazio

À beira da água
as núpcias da anta
e da vitória-régia

Peixe luminoso
água escura

Na primeira parada do barco
um enxame
de crianças antigas

SÃO PAULO

Depois de um tempo
todas as coisas ficam marcadas
como se estivessem
impregnadas de veneno

Há um tempo em que os lugares
são limpos e novos
abertos como clareiras
mas já não é este o tempo

Sobre cada lugar se sobrepõe
a experiência do lugar
como um selo
num cartão postal

Por exemplo
hoje sempre que sobrevoo
São Paulo
penso que em algum apartamento
desta cidade interminável
você
fumando
de óculos
exerce seu direito
inalienável
de não mais pensar
em mim

BELO HORIZONTE

[1]

Um dia vou aprender a partir
vou partir
como quem fica

[2]
Um dia vou aprender a ficar
vou ficar
como quem parte

Mas ainda é a mesma que fica, na tensão de um Odisseu que pode ou não voltar, confundindo entre poemas lembranças e perda.

Cinema

Encontramos na rua
uma fileira de cadeiras
de um velho cinema
levamos para casa
colocamos na varanda
passamos toda a tarde
bebendo e fumando
assistindo passar
um dia qualquer

 

A partilha
……………………d’après Joan Brossa, Pequena apoteose

Eu
e você

ao menos este poema
dividimos
meio a meio

Otávio Campos

  • Da arte das armadilhas
  • Ana Martins Marques
  • Companhia das Letras, 2011, 86 páginas
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Livros que você precisa ler em 2013

livros que precisa ler

O ano mal começou e o mercado editorial já chega com algumas promessas. A Companhia das Letras já anunciou que esse será o ano das narrativas ficcionais brasileiras, prometendo fechar 2013 com um número de, mais ou menos, 16 romances produzidos em terras tupiniquins. A Intrínseca também prepara seu primeiro lançamento neste circuito e a Cosac Naify tem planos de aumentar sua frequência de romances brasileiros. Com todas essas notícias, nós selecionamos alguns dos prometidos que, com certeza, figurarão nas nossas listas de livros lidos em 2013. São eles:

Divórcio, de Ricardo Lísias. Será lançado pela Alfaguara, ainda sem data prevista. É promessa por conta, é claro, das polêmicas da Granta e da capacidade que conhecemos do autor de O céu dos suicidas.

Edifício Midori Filho, de Andrea del Fuego. Cara, ela escreveu Os Malaquias e teve cinco grandes editoras no pé dela e recusou oferta de quatro para publicar o novo romance com a Companhia das Letras. É de se esperar menos?

Rabo de Baleia, de Alice Sant’Anna. Bem, a Alice a gente já conhece, né? Pelo título do livro, acreditamos que essa lindeza que foi publicada na nossa edição de aniversário (quadro 3, e você pode ver aqui) estará presente nesse novo número da coleção de poesia da Cosac Naify. (E ainda podemos tirar onda que publicamos primeiro)

Desde que eu te amo sempre, de Cecilia Giannetti. Mais um da coleção “Amores Expressos” da Companhia das Letras. Segundo a autora em uma conversa recente que tivemos, o livro já está pronto há um bom tempo e estava tendo problemas para ser publicado. Mas parece que desse ano não passa e, enfim, conheceremos o sucessor de Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi. Ah, a gente ainda teve a oportunidade de ouvir a autora lendo um trecho do romance e, sim, é bom.

O novo livro do Chico Buarque. Esse aí não precisa falar nada. Não tem título ainda e a Companhia não sabe se o autor/compositor/deus vai entregar o romance esse ano. Mas mantemos os dedos cruzados e esperamos fechar 2013 com algo, se possível (é possível?), melhor que Leite derramado.

Nossa parceira, Laura Assis, produtora editorial da Aquela Editora, em uma conversa informal (via Facebook), contou pra gente quais são seus livros mais aguardados desse ano:

Faíscas, de Carol Bensimon (Companhia das Letras)

Digam a Satã que o recado foi entendido, de Daniel Pellizzari (Companhia das Letras)

A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, de Joca Reiners Terron (Companhia das Letras)

Distância, de Otávio Campos (Aquela Editora) – aí a gente aproveita e faz aquela propaganda do autor e da editora que, é claro, não podia faltar.

Trovadores elétricos, de Anderson Pires (Aquela Editora) – este último já está com lançamento previsto para o dia 9 de março e o booktrailer você confere agora:

Bom, nosso objetivo agora é ter, durante o ano todos esse livros em mãos e compartilhar com nossos leitores aquelas famosas resenhas, de muito bom gosto e com técnicas super apuradas. Tá esperando algum livro e ele não está aqui? Deixe nos comentários.

Uma edição. Um colaborador. Um livro.

Sua universidade está de greve? Sim? Então esse é seu post! Nossos colaboradores de maio prepararam 7 motivos pra tirar você da frente do pc, e nós explicamos porquê. Abaixo você poderá ler sete indicações de livros, seguidas de um link que o direcionará para o melhor preço deste pela internet. Nada de ficar assistindo o facebook ou jogando Song Pop. Bora ler!

1. Reinaldo Ramos indica “Elza, a Garota”, de Sérgio Rodrigues. ”O livro resgata um episódio trágico na história do partido comunista brasileiro: o assassinato da garota Elza Fernandes na década de 30 após um confuso processo de justiçamento seguido do fracasso da intentona de 1935. O autor conduz uma interessante trama investigativa que mistura realidade e ficção, tendo como liame uma narrativa romanceada que se apóia sobre a figura de Molina, um jornalista quarentão em crise profissional e com uma namorada 20 anos mais jovem, às voltas com a missão de reescrever as memórias do crime a partir de uma série de entrevistas com Xerxes, um misterioso ex-militante de esquerda, não sabendo se está diante do último zelador de segredos valiosíssimos ou de apenas um velho sarcástico brincando com seu voluntarismo ingênuo. Mistura de documentário do History Channel com minissérie da HBO, “Elza, a Garota” é uma leitura para ser degustada com curiosidade histórica, mas com alguma dose despretensão literária.”

2. Prisca Agustoni está lendo e indica o ensaio biográfico de Louis Begley, “O mundo prodigioso que tenho na cabeça: Franz Kafka”. “Trata-se de uma forma interessante de entrar no universo fascinante e obscuro da obra de Kafka – um dos primeiros escritores que li com avidez e fascínio – através de trechos de cartas que cotejam fatos históricos e biográficos relativos ao autor e seu contexto. Isso permite reconstruir em parte o painel que foi a complexa vida interior desse gênio das letras de língua alemã.”

3. Paula Vasconcelos indica ”1922 – a semana que não terminou, de Marcos Augusto Gonçalves. “Uma aula de história diferente. É inquestionável as consequências desta semana até hoje e o livro nos aproxima das histórias de Mario, Lobato, Estado, Anita, Oswald, e Pirralho, com suas dificuldade, relações, conflitos. Uma narrativa crítica, que mescla jornalismo com história, e traz a tona mitos, crenças e verdades na reconstituição de cada passo deste grande evento. Com imagens das exposições, folhetos, páginas de jornal e fotografias da época, Marcos Antônio Gonçalves ilustra toda a história contada.

4. Frederico Spada indica “A recusa”, de Prisca Agustoni*. “A poesia de Prisca alia a densidade do chumbo à delicadeza da seda. É minimalista, mas não efêmera: ecoa. Inscreve fundo sua letra, sua lavra, afinal “não sai-se indene/ da obsessão alheia”. Em “A recusa”, os corpos são feitos reféns, e o desejo partilha a dissonância, cultiva o indecente silêncio “antes que as palavras/ se tornem apenas palavras”. Os olhos se deixam levar, há sombras, e a “noite se exila além das pálpebras”. A mão espalmada na capa não repele, mas oferta: “minha oferenda/ é a recusa”, escreve a autora. A recusa, aqui, é a posteriori.

5. Mayara Peixoto indica ”Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand. “É uma peça de teatro francesa, de 1897. Não sei nada técnico sobre ela; sei que ela já foi amplamente interpretada – inclusive no Brasil -, e adaptada para o cinema. É uma leitura deliciosa, fácil, boa para descansar a mente e as emoções. O enredo é simples: desencontros amorosos. Fórmula universal retratada com muito bom humor, e com a dose de drama de que muitas pessoas gostam. Os poetas – e aspirantes – vão se identificar com o protagonista, que dá nome à peça. Acho genial, ainda que simples – altamente recomendável.”

6. Cristina DeSouza está relendo e indica “A Redoma de Vidro”, de Sylvia Plath. “Poesia visceral, profunda, e a flor da pele, de uma das minhas autoras favoritas.”

7. Bruna Maria indica ”Cartas de um escritor solitário, de Sam Savage. “Sam, através da compilação da “mais trágica história de Andrew Whittaker – seus escritos coligidos, finais e absolutamente completos” narra, através de cartas do personagem principal aos seus inquilinos, amantes, mãe, ex-mulher, amigos, colaboradores literários etc, a trajetória cômico-deprimente do arrogante escritor e editor Whittaker. Através do conteúdo das cartas enviadas, vamos, pouco a pouco, concebendo a estória desse personagem que se assume a todo tempo como autor e editor da revista literária “Sabonete”, mas cuja obra completa se resume apenas às cartas corriqueiras e simplórias apresentadas no livro. As cartas apresentam Andrew, na verdade, como um escritor fracassado e levemente patético, com uma vida pessoal confusa e desinteressante, que crê em seu potencial genial e que, na posição de editor de uma revista de literatura, se vê com o poder de julgar o trabalho de iniciantes, de afetos e de desafetos. O livro tem um início enfadonho, mas, depois, atinge um ritmo interessante, com trechos risíveis – técnica de Savage para demonstrar o ridículo de Andrew Whittaker? Pode ser. Para responder a esta pergunta, deixo a indicação de leitura.”