Esc #21 – O amor como objeto de consumo

Reflexões sobre Amor e Consumo em Sleeping Beauty de Julia Leigh

por Danilo Lovisi

A realidade contemporânea, abarrotada de informações, inovações, e promotora da coisificação do homem e do seu entorno, produz no interior deste ser uma inquietação sem origem evidente. E essa inquietação é, talvez, uma necessidade de preenchimento do vazio construído nessa realidade do excesso, do acúmulo, do desperdício. O sujeito contemporâneo, inserido no meio urbano e numa sociedade capitalista, tem, em sua vida, a necessidade de preencher este vazio, e o faz consumindo algo. Todavia, este consumo não está estritamente relacionado à compra e venda de produtos no mercado capitalista, pois há aqui um consumo da necessidade, que irá prover – ou não – o preenchimento, mesmo que efêmero, deste vazio interior; o preenchimento desta vida escassa. Mas que produtos seriam estes capazes de preencher um vazio, uma necessidade existencial?

Para responder esta pergunta, é interessante trazer à tona as relações do tema trabalhado com o filme Sleeping Beauty (Beleza Adormecida, no Brasil). A história, resumidamente, se consiste na vida de uma bela jovem universitária que, vista numa situação de grande necessidade financeira, passa a trabalhar para uma misteriosa agência, que contrata garotas para satisfazerem desejos velados de clientes de altas classes sociais. À princípio, visto apenas por essa perspectiva superficial, o filme não parece desenvolver questões mais subjetivas e profundas, o que é um engano, pois, no decorrer do enredo, a personagem principal (Lucy), evoluindo de posto, passa a atuar numa função mais restrita, peculiar e intrigante: ela deve tomar um chá especial, que irá fazê-la entrar em sono profundo por algumas horas. Neste interim, os clientes estarão livres para fazer o que desejarem com a jovem, havendo apenas uma regra: não pode existir penetração. E há um cliente que, ao utilizar este serviço, apenas deita na cama para dormir algumas horas ao lado de Lucy. E é aqui que pode se estabelecer uma relação com um conceito mais diferenciado de consumo, pois não há ali uma satisfação carnal: gasta-se e consome-se o momento, não o corpo.

Mas para chegar até este posto, a jovem trabalhou em outras áreas da empresa, como quando atuou servindo jantares, em companhia de várias outras garotas, para senhores da alta sociedade. Porém não se tratava de um serviço comum, visto que todas as garotas trabalhavam seminuas, com vestimentas fora do padrão, e algumas tinham que ficar em posições peculiares, servindo de objetos de voyeurismo. Ora, o preenchimento do vazio inquietante destes senhores provém, então, do estranho, do bizarro, e não do já conhecido e também já escasso – como suas vidas – sexo.

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