Laura Assis

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Laura Assis nasceu em 1985 em Juiz de Fora, MG. É graduada em Letras e mestre em Estudos Literários pela UFJF. Atualmente cursa doutorado em Literatura na PUC-Rio. Os poemas a seguir fazem parte de seu primeiro livro, Depois de rasgar os mapas (Aquela Editora, 2014).

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Manual

Primeiro: cortar
no meio o verso,
equilibrar
espelho
e regência.

Depois planejar
espaço e ação:
tramar o risco
(talvez não
caiba
essência).

Mas antes rasgar os mapas.
Ritmo pede
mais que ar:
asa.

Signo quer
o universo
ou nada

Tomar da carne verbo.
A vida é no imperativo
e o amor, meu bem,
não é só uma palavra.

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Desencontro

Você deve estar agora
andando por Copacabana,
chorando no chão da sala
ou desistindo de um livro chato.

Quisera eu estar agora
Inteira sob teus quadris.
E estou – enquanto febres
atravessam-me enorme
e deslizo entre dedos
mercúrio, memória
e a tua boca,
a tua boca.

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Oberkampf

Nossos pais morreram
no mesmo acidente estúpido:
vimos o sangue,
vimos os corpos.
E você me fez prometer
que jamais
te deixaria

Morávamos
no mesmo
prédio,
no mesmo
andar.
Sua porta era colada
à minha porta e
entrar no seu quarto
e no meu quarto
era igual
mas ao contrário.

O metrô passava a cada
três ou quatro
minutos
a estação era a cozinha
da sua casa,
parecia Oberkampf
mas com menos
azulejos amarelos.

Sua voz ainda era
uma força da natureza
que me alcançava
na sinestesia
dos sonhos.

E dos sonhos
acordei
e nunca mais
escrevi sobre cadernos
folhas
em branco
desertos
palavras escondidas
atrás de
palavras escondidas

Então as coisas passaram
a ser como antes eram:
as coisas
e só as coisas:

pouco importa a ênfase
pouco importa a verdade

o que importa é a vida
(e a vida
não cabe).

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Adeus

I
nós dois e um mesmo salto
décimo quarto andar
não pensar em motivos
enquanto caímos
você explica
em linhas gerais
porque prefere a natureza
à cultura
e discordamos duas vezes
antes do último impacto

II
quando voltei à casa
aquela noite
todos estavam mortos
por isso não me viram entrar
eu soube
eu vi
e era estranho saber
ainda
existir e saber
que ali algo acontecera
sem mim
como aconteciam os astros
como aconteciam os dias
as reações químicas
e tudo que vem depois da luz
e da força
das escolhas

III
eu que hoje esvazio
maços de cigarro que não me pertencem
a paciência de amigos em outros continentes
descobri que o mundo
continuava correndo sem mim
se eu desse aquele salto
astros cigarros noites poemas
o reflexo dos faróis nos vidros dos prédios comerciais
nomes estranhos grafados em viadutos abandonados
estradas mais escuras que a noite anterior
tudo continuaria no mesmo lugar
talvez eu apenas me tornasse
uma inicial desbotada no ombro esquerdo
de alguém que um dia eu deixei para trás
que se gastaria
como tudo se gasta
que se apagaria
como tudo se apaga
mas que antes de esmaecer e virar
nada
seria âncora
sumário
e ponto final.

*

No vídeo abaixo, o poema “Desencontro” na voz de Anelise Freitas.

Um baião de muitas mãos

Laura Assis entrevista Fabrícia Valle

A Um Conto continua com sua série de poeta-entrevista-poeta. Neste número a produtora editorial Laura Assis, autora de Depois de rasgar os mapas, conversa com a poeta e musicista Fabrícia Valle por conta do recente lançamento de Baião de Uma (Aquela Editora, 2014). O ritmo do poema e o ritmo musical possuem uma íntima relação, tanto pelo “salto mortal” necessário para se entrar no reindo de ambos, de acordo com Octavio Paz, quanto na constituição primeira e característica da célula ritimica, que impede uma desassociação entre música e poesia. Nesta conversa, Fabrícia toca em questões semelhantes, além de discorrer sobre uma suposta cena poética atual, o processo de produção do seu livro e, é claro, sobre a importância do livro físico nos dias de hoje.

Fotografia de Felipe Saleme

Fabrícia, apesar de você ser graduada, especialista e mestre em Letras, muita gente te conhece como musicista. Você se considera poeta desde sempre? Sempre escreveu poesia? E no seu trabalho de criação, as duas linguagens – música e literatura – se comunicam de alguma maneira?

Tenho muito orgulho de ter me formado academicamente em Letras, sobretudo, por durante o período na Faculdade de Letras da UFJF, ter bebido da literatura e suas possibilidades de diálogo com linguagens artísticas diversas e plurais, como a dança, artes plásticas e a música, por exemplo. Entretanto, nosso processo de formação se dá por outras vias também, que não somente as institucionalizadas, como numa roda de conversa, oficinas de formação e afins. Ou seja, de maneiras de racionalização e sistematização por muitas vezes não tão lineares quanto a uma graduação. E, enquanto musicista popular, minha formação veio acontecendo assim, de maneira prática até me ocorrer o desejo de cursar Percussão Popular na Bituca – Universidade da Música Popular de Barbacena, Grupo Ponto de Partida. Lá pude ter contato com a dimensão profissional do tocar, da vida artística e me trouxe experiência nesse sentido. Mas entre esses percursos existia o desejo e a curiosidade de pesquisa e uma vontade de fazer algo diferente de “se dar bem na vida”. E, nesse sentido, se pensarmos na dimensão performática e contra-ideológica dessa escolha, acho que posso me considerar “sempre” poeta (no sentido romântico do termo), uma vez que, poesia é vida e seus modos de estar e operar com ela. Escrevo desde minha adolescência e jamais pensava em publicar até te mostrar os textos. A poesia sempre fez parte da minha vida,dos livros aos encontros com amigos, assim como a música. Agora, do ponto de vista do diálogo entre as duas linguagens, arriscaria dizer que fundi-las não é uma busca da escrita que se estabelece a partir de mim… isso acaba acontecendo… e é tudo literatura, só não vale qualquer coisa!

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Lançamento: Um Conto 20

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Estaremos, na próxima sexta-feira, 22 de agosto, lançando nossa edição número 20 no Eco – Performances Poéticas.

A  Um Conto – 20 tem poemas de Bruna Werneck, Ernesto von Artixzffski, Luca Argel, Patrícia Lino e Paulo Henriques Britto. Conto de Daniela Lima e ilustrações de Marianna Arcuri.

Se você é de Juiz de Fora ou das redondezas, pode adquirir um exemplar no Eco – Performances Poéticas, no Museu de Arte Murilo Mendes, a partir das 20h00. Nessa edição do evento contaremos com a presença dos poetas Anderson Pires da Silva, Edimilson de Almeida Pereira, Fabrícia Valle (lançando Baião de uma) e Paulo Henriques Britto, lendo seus textos.

A entrada é gratuita e o microfone é aberto.

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Link para o evento no Facebook.

Como fazer (ou não) uma solidão povoada

Anderson Pires entrevista André Monteiro

 

Definir o que é poesia contemporânea ou mesmo delimitar um cenário poético é tarefa um tanto arriscada e (sem dúvida) perigosa. No entanto, é inquestionável que o cenário atual e toda sua diversidade de poesia vem crescendo cada dia mais, vide o número de novas editoras que são criadas e poetas inéditos recentemente publicados. Não é o caso de André Monteiro, que publicou seu primeiro livro (Ossos do ócio) em 2001 e, desde então, possui uma produção poética editada constantemente (seja no meio físico ou virtual). Apesar de dizer que não se encaixa em nenhuma “cena poética”, Monteiro é figura constante, principalmente no cenário juizforano, há algum tempo, dialogando – seja no meio acadêmico, seja nos copos de cerveja, ou nas discussões políticas e poéticas – com poetas e artistas diversos da região Sua mais recente publicação Cheguei atrasado no campeonato de suicídio (Aquela Editora) foi lançada em junho desse ano, e reúne trabalhos de 1990 a 2013.

Pensando nesse cenário inconstante, mas existente, convidamos Anderson Pires da Silva, autor de Trovadores elétricos (Aquela Editora, 2013) e amigo e agora colega de trabalho de André, para conduzir uma entrevista com o poeta – remontando uma pareceria que existe há décadas, dentro e fora do mercado editorial (em 2006, por exemplo, os dois publicaram na antologia Livro de sete faces, editado pela Funalfa Edições e pela Nankin Editorial). Nessa conversa, que poderia ter acontecido em uma mesa de bar ou em uma sala de aula, Monteiro fala sobre a cena poética de Juiz de Fora, sobre seu trabalho solitário (mas povoado), além de suas produções recentes e, é claro, sobre o elogio à anáfora no seu novo livro. Confere aí.

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Fotografía de Stephan Rangel

Olá, André! Como vai? Antes de conversar sobre seu último livro, não posso deixar de lembrar o quanto foi divertido e rock’n roll o lançamento do Cheguei atrasado no campeonato de suicídio. Por causa disso, queria saber qual a sua análise da atual cena poética em Juiz de Fora e como você se encaixa nela?

Nos últimos anos, há muitos poetas, de gerações e filiações distintas, exibindo seus trabalhos em Juiz de Fora. Não apenas através de livros, mas também via blogs, redes sociais e “microfones abertos”. Penso que o surgimento do Eco, do qual tive a alegria de participar algumas vezes, inclusive de sua primeira edição, contribuiu, em grande parte, para essa espécie de boom da poesia em nossa cidade, seja abrindo espaço para que muitos “engavetados”, para lembrar Sérgio Sampaio, pudessem colocar sua poesia na calçada, seja estimulando encontros e reencontros (nem sempre pacíficos, o que é saudável) de poetas de tempos e lugares distintos. Acho que a cena poética de Juiz de Fora é, hoje, tão vasta e tão diversificada que é difícil analisá-la como um todo, ou reduzi-la a um denominador comum. Continuar lendo

Poemas de André Monteiro

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André Monteiro é doutor em literatura pela PUC-Rio, professor na Universidade Federal de Juiz de Fora, bolsista de produtividade do CNPq, escritor e compositor. Publicou os livros A ruptura do escorpião – Torquato Neto e o mito da marginalidade (1999) e Ossos do ócio (2001). Os poemas a seguir foram retirados de sua recente publicação Cheguei atrasado no campeonato de suicídio (Aquela Editora, 2014).

 

elogio da anáfora
________________________________________para alexandre faria

*
não é porque não vai à assembleia que não faz política
não é porque não diz que te ama que não te ama
não é porque não diz que te odeia que não te odeia
não é porque parece calmo que seu corpo não frita
não é porque parece estar de acordo que não está driblando
o
fascismo dos dias
não é porque não é grosseiro que não é transgressor
não é porque parece manso que não é perigoso
não é porque não está escrevendo que não está escrevendo
não é porque consome que se torna consumista
não é porque paga o ingresso do espetáculo que é amigo da

propriedade
não é porque tá alegre que não fica triste
não é porque tá triste que não fica alegre
não é porque não sabe tocar guitarra que não pode tocar guitarra
não é porque eu é um outro que eu é um outro qualquer
não é porque o confundem com o lixo que ele abre mão do luxo
________________________________de viajar com as
estrelas…
não é porque não faz parte da história que não faz história
não é porque todas as formas de prisão querem lhe dar colo que ele
não
________ chuta o traseiro dos senhores pastores e das senhoras
ovelhas
não é porque é forte que não é frágil
não é porque é destrutivo que não é delicado
não é porque é anafórico que não é disfórico
não é porque é disfórico que não é eufórico
não é porque toca o foda-se que não é dedicado
não é porque faz pan-flertes que não faz panfletos
não é porque faz panfletos que não faz pan-flertes
não é porque repete que se repete
não é porque não repete que não se repete
não é porque existe um muro que só existe o muro

 

um pan-flerte é o que é

não é por mim
não é por você
não é pela maioria
não é pela minoria
é pelo que em nós
infinitamente é
o que está por ser

 

vanguardente

se queres chocar
por que não te chocas?

 

sôfrego

amanhã não terminará o poema

*

*

Livros que você precisa ler em 2013

livros que precisa ler

O ano mal começou e o mercado editorial já chega com algumas promessas. A Companhia das Letras já anunciou que esse será o ano das narrativas ficcionais brasileiras, prometendo fechar 2013 com um número de, mais ou menos, 16 romances produzidos em terras tupiniquins. A Intrínseca também prepara seu primeiro lançamento neste circuito e a Cosac Naify tem planos de aumentar sua frequência de romances brasileiros. Com todas essas notícias, nós selecionamos alguns dos prometidos que, com certeza, figurarão nas nossas listas de livros lidos em 2013. São eles:

Divórcio, de Ricardo Lísias. Será lançado pela Alfaguara, ainda sem data prevista. É promessa por conta, é claro, das polêmicas da Granta e da capacidade que conhecemos do autor de O céu dos suicidas.

Edifício Midori Filho, de Andrea del Fuego. Cara, ela escreveu Os Malaquias e teve cinco grandes editoras no pé dela e recusou oferta de quatro para publicar o novo romance com a Companhia das Letras. É de se esperar menos?

Rabo de Baleia, de Alice Sant’Anna. Bem, a Alice a gente já conhece, né? Pelo título do livro, acreditamos que essa lindeza que foi publicada na nossa edição de aniversário (quadro 3, e você pode ver aqui) estará presente nesse novo número da coleção de poesia da Cosac Naify. (E ainda podemos tirar onda que publicamos primeiro)

Desde que eu te amo sempre, de Cecilia Giannetti. Mais um da coleção “Amores Expressos” da Companhia das Letras. Segundo a autora em uma conversa recente que tivemos, o livro já está pronto há um bom tempo e estava tendo problemas para ser publicado. Mas parece que desse ano não passa e, enfim, conheceremos o sucessor de Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi. Ah, a gente ainda teve a oportunidade de ouvir a autora lendo um trecho do romance e, sim, é bom.

O novo livro do Chico Buarque. Esse aí não precisa falar nada. Não tem título ainda e a Companhia não sabe se o autor/compositor/deus vai entregar o romance esse ano. Mas mantemos os dedos cruzados e esperamos fechar 2013 com algo, se possível (é possível?), melhor que Leite derramado.

Nossa parceira, Laura Assis, produtora editorial da Aquela Editora, em uma conversa informal (via Facebook), contou pra gente quais são seus livros mais aguardados desse ano:

Faíscas, de Carol Bensimon (Companhia das Letras)

Digam a Satã que o recado foi entendido, de Daniel Pellizzari (Companhia das Letras)

A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, de Joca Reiners Terron (Companhia das Letras)

Distância, de Otávio Campos (Aquela Editora) – aí a gente aproveita e faz aquela propaganda do autor e da editora que, é claro, não podia faltar.

Trovadores elétricos, de Anderson Pires (Aquela Editora) – este último já está com lançamento previsto para o dia 9 de março e o booktrailer você confere agora:

Bom, nosso objetivo agora é ter, durante o ano todos esse livros em mãos e compartilhar com nossos leitores aquelas famosas resenhas, de muito bom gosto e com técnicas super apuradas. Tá esperando algum livro e ele não está aqui? Deixe nos comentários.