Esc #23 – Não dá mais pra Rubem Fonseca

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por Otávio Campos

Não sei desde quando, muito menos o motivo, mas já faz algum tempo que minhas leituras são quase que exclusivamente de romances brasileiros contemporâneos. Tais narrativas não me incomodam, muito pelo contrário, me dão o lacere e o docere fundamentais da literatura – até certo ponto. Me incomoda sim é a literatura que vem sendo catalogada como contemporânea, a suposta massa uniforme feita de crachá para simplificar a designação das produções literárias brasileiras das últimas décadas. Apesar de acreditar não ser apenas isto, é inegável a enorme quantidade de livros na minha estante que servem para a crença de que este grupo se caracteriza pela narrativa urbana, violenta, com destaque para personagens marginais e situações incômodas.

É bem perigoso afirmar qualquer coisa em literatura sem os conhecimentos adequados, mas creio que tal movimento se inicia justamente como uma ruptura do que vinha sido produzido no país desde a geração modernista de 30, a prosa regionalista (que inegavelmente colocou o Brasil em holofotes internacionais), preocupada com a denúncia social e o apontamento das mazelas da parcela brasileira encoberta pelo eixo Sudeste. Chega um tempo em que a situação se inverte e a literatura que vem sendo produzida não reflete realmente a realidade brasileira (como se isso fosse o mais importante) e vem Rubem Fonseca com a famosa frase “Não dá mais para Diadorim” e deságua todo esse movimento que conhecemos hoje por literatura brasileira contemporânea.

Vivemos, desde então, nesse estado de negação do sertão, que se mostrou tão forte que foi capaz de abafar o Movimento Armorial, que tinha por princípios justamente sair do marasmo que havia se tornado a prosa regionalista. Até aí tudo bem, mas creio que o problema é deixar a literatura brasileira  produzida ultimamente se resigne e passe a se tornar essa coisa homogênea, pré-feita, cinza e inabalável. O comodismo é o que mata a arte. Chega um momento em que é nossa hora de dizer não, não dá mais para Rubem Fonseca, ou Patrícia Melo, ou Ana Paula Maia (que fique bem claro que não tenho nada contra esses autores, visto que sou leitor voraz dos mesmos). E não, não mesmo, a literatura contemporânea brasileira não é só isso. O que é então?

Creio que essa dúvida e a vontade de mudar e encontrar seu lugar (não necessariamente visando tal finalidade) não é algo que passa apenas na minha cabeça de leitor, mas também de muita gente boa que vem sendo publicada ultimamente e que ainda não é lida com tanto fervor, justamente pela “maldição” urbana que nos foi jogada. Existe um tema que se mostrou muito presente na minha vida de consumidor de arte neste ano: a estrada, e acredito que esteja aí a gênese de um movimento que vem se expandindo e dando novas feições ao que vem sendo produzido. Agora seria muito pertinente citar o On the Road, mas sinto muito em dizer que de maneira alguma este livro (como também o recente filme) cabe dentro do assunto. Falo da literatura exclusivamente brasileira (isso existe?), apesar de estar ciente das influências de Kerouac nessas obras.

O primeiro livro que li e que me fez abrir os olhos para estas “novas questões”, sem dúvida foi Lavoura arcaica que, apesar de não

A estrada em Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito

A estrada em Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito

estar muito presente, a estrada é a questão central – o deslocamento de André rumo ao desconhecido, à libertação, e sua volta à casa. Em seguida, veio Galiléia, do Ronaldo Correia de Brito, no qual a estrada é quase que o personagem principal do livro, palco de quase todas as ações e reações dos personagens no decorrer da narrativa. O movimento que Brito faz com sua obra deixa explícita essa relação de fuga da literatura contemporânea uniforme e a busca pelo “dentro”. Os personagens saem do caos da metrópole rumo à fazenda Galiléia, no sertão baiano. Como se fugissem de Rubem Fonseca e se aproximassem de Guimarães Rosa – não tão assim, não tão explícito, talvez o movimento não seja esse, mas por questões “didáticas” vamos acreditar que é assim que funciona.

Resquício da modernidade, a estrada se configura como esse não-lugar, sem laços, críticas, moralidade, um espaço de passagem. Nela se perdem as marcas do tempo e os olhares se multiplicam, se perdem, aumentam e diminuem. Nunca li o livro de Kerouac, apesar de o achar necessário, mas meu fascínio por esse tema começou a ser latente quando ouvi o disco Caravana Sereia Bloom¸ que a Céu lançou esse ano, no qual todas as músicas montam um Road disco, com referências ao nordeste brasileiro e as fronteiras da América Latina. Foi um casamento perfeito – de um lado minha atenção voltada para Galiléia junto da estética de músicas como “Retrovisor”.

Acho que foi a partir daí que eu comecei a pensar que isso é literatura, isso é literatura contemporânea, isso é literatura contemporânea brasileira (?), sem fronteiras, sem estigmas, de um jeito honesto sem cair no lugar comum. Sem cair em lugar algum, talvez, como que flanando pelo chão de asfalto, em um deslocamento que não necessariamente significa uma procura.

Daniel Galera morou por um tempo na pequena Garopaba para escrever Barba ensopada de sangue

Daniel Galera morou por um tempo na pequena Garopaba para escrever Barba ensopada de sangue

Agora aberta a questão posso citar inúmeros livros que me vêm à cabeça que começam ou fundamentam-se com o deslocamento para o interior, tanto dos personagens do livro ou até mesmo dos autores. Cito dois que ainda não li, mas estão na minha lista de próximas leituras. O primeiro é Os malaquias, da nova queridinha da Companhia das Letras, Andrea del Fuego. Vencedor da sétima edição do Prémio Literário José Saramago, o romance se desenvolve na pequena e pacata Serra Morena. As questões aqui não envolvem urbanicidade, violência, mas, pelo que me parece, possuem um caráter quase lírico de trabalho de linguagem e flertam com o realismo mágico. Outro exemplo a ser citado é o recente Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, no qual o autor esteve envolvido por quatro anos, chegando até mesmo a “fugir” do centro metropolitano no qual estava encerrado e viver durante o período de escrita, na cidadezinha praiana Garopaba.

É, não dá, não dá mesmo para enclausurar a produção brasileira contemporânea em uma caixinha etiquetada como: questões urbanas, o que muito me excita. Creio que o lugar da literatura é justamente esse: o não, a estrada, o asfalto (metafóricos, ou não). Mais do que encontrar um lugar, os escritores e também seus leitores devem não permitirem-se cair no lugar cômodo, no seguro. O caminho que faz a literatura recente respirar é justamente o deslocamento, possibilitando tanto uma aproximação com Diadorim quanto com Maiquel (O matador), ou todas as outras coisas que existem entre eles e que também necessitam de um lugar.

Escoliose #6 – uma coluna [ou não]

HOJE NÃO TEM COLUNA

nem subtítulo explicativo

por Danilo Lovisi?

É. Hoje não tem coluna. Isso que você lê não é – e não será – minha coluna das (segundas) sextas-feira do mês aqui no blog. E eu não falarei de todos os temas que me vieram à mente para (não) escrever esse texto.

1. O que os escritores ouvem no momento da escrita? Sei que Clarice Lispector ouvia Chopin. Ou era Cecília Meireles. Ou Hild Hilst. Não sei: e não importa, não falarei disso, porque hoje não tem coluna.

2. Tive também a ideia de contar algumas histórias que vivi (vivemos, como equipe) durante esses dez meses de Um Conto. Como quando fomos ao Festival Literário de Cataguases, em novembro passado, sem saber o que nos esperava e, quando vimos, na manhã do segundo dia, estávamos fazendo um roteiro turístico (de um quarteirão) com a escritora Ana Paula Maia – moça divertida, de humor ácido, diferente do que imaginávamos devido aos seus livros (que não lemos) marcados por uma violência brutal – e, na noite do mesmo dia, fomos comer um hambúrguer barato nessas lanchonetes de família, que têm sempre as melhores maioneses caseiras (com os maiores índices de contaminação, o que não importa, pois não falarei disso). E teve também a história (isso no primeiro dia do Festival)  do convite que o escritor Ondjaki nos fez (depois de umas cachacinhas) de passarmos no hotel dele – mais especificamente na piscina do hotel – às 4:22 da manhã. Sim! E com aquele sotaque portenho: “ixatament às cuatravintdoish!” – E não contarei, também, de quando fomos buscar o Nicolas Behr no aeroporto (não pela Um Conto, mas ela já existia na época e eu e Otávio estávamos no carro) e descobrimos, ao chegar no terminal, que o voo dele não pousaria ali, mas numa outra cidade (próxima, ainda bem) em poucos minutos. “Corre! Corre!” gritou o senhor que varria o átrio vazio. A história é boa, mas não continuarei. Posso apenas dizer que ele chegou bem.

3. Pensei também em falar sobre a arte da pescoçagem literária, inspirado no divertido texto que Vanessa Barbara publicou recentemente aqui. A ideia era sair pela cidade (a minha, Juiz de Fora) e fotografar algumas pessoas lendo, mas não encontrei ninguém, e você não verá as fotos clicando aqui, aqui e nem aqui.

Bem, foram essas as ideias que eu tive para escrever essa coluna de hoje, que não existe, e que não está terminando. Você (que chegou até aqui) provavelmente não gostou, e vou entender se não receber nenhum comentário, nenhum like, nenhum RT. Afinal, nada disso existe. Ou sim. Não sei. E não falarei disso hoje. Porque hoje, hoje não tem coluna.