Um Conto 19 – Quem faz:

brunaQUADRO I: BRUNA BEBER

Bruna Beber nasceu em Duque de Caxias (RJ), em 1984. Publicou a fila sem fim dos demônios descontentes (7Letras, 2006), balés (Língua Geral, 2009) e a pequena coletânea rapapés & apupos (7Letras, 2012) e Rua da padaria (Record, 2013). Seus poemas já foram traduzidos e publicados na Alemanha, Argentina, Espanha, Estados Unidos, México e Portugal.

  …………………………………………..(Para ler o poema de Bruna Beber clique aqui)

 

laurindoQUADRO II: LAURINDO FELICIANO

Laurindo Feliciano é um artista e ilustrador nascido em Belo Horizonte, Brasil, em 1980. Ele colabora com revistas e jornais do mundo todo e já expôs seus trabalhos nos Estados Unidos e França, pais onde reside e trabalha desde 2003.

(Para ver as ilustrações de Laurindo Feliciano clique aqui e aqui. Para conferir sua fanpage no Facebook, aqui)

 

anaQUADRO III: ANA GUADALUPE

Ana Guadalupe nasceu em 1985 em Londrina (PR) e hoje mora em São Paulo (SP). Seus poemas foram publicados em antologias, revistas e projetos no Brasil, Espanha, México, Chile e Estados Unidos. Seu primeiro livro se chama Relógio de Pulso (7letras, 2011).

(Para ler o poema de Ana Guadalupe clique aqui)

 

júliaQUADRO IV: JÚLIA DE CARVALHO HANSEN

Júlia de Carvalho Hansen nasceu em São Paulo, em 1984. É autora dos livros: cantos de estima, alforria blues ou Poemas do Destino do Mar, e O túnel e o acordeom – diário fóssil encontrado após a explosão. Vive em Lisboa.

(Para ler o poema de Júlia de Carvalho Hansen clique aqui)

 

anamQUADRO V: ANA MARTINS MARQUES

Ana Martins Marques nasceu em Belo Horizonte em 1977. Publicou A vida submarina (Scriptum, 2009) e Da arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011). Com Da arte das armadilhas, foi finalista do Prêmio Portugal Telecom e recebeu o Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional 2013

(Para ler o poema de Ana Martins Marques clique aqui)

 

aliceQUADRO VI: ALICE SANT’ANNA

Alice Sant’Anna nasceu em 1988, no Rio de Janeiro. Lançou Dobradura (7Letras, 2008), Pingue-Pongue (uma publicação independente em coautoria com Armando Freitas Filho, 2012) e Rabo de baleia (Cosac Naify, 2013).

(Para ler o poema de Alice Sant’Anna clique aqui)

 

 

laura

CONTO: LAURA ASSIS

Laura Assis nasceu em 1985 em Juiz de Fora, MG. É graduada em Letras e mestre em Estudos Literários pela UFJF. Atualmente cursa doutorado em Literatura na PUC-Rio e é professora substituta na Faculdade de Letras da UFJF. Publicou artigos, resenhas, contos e poemas nos jornais Plástico Bolha e Tribuna de Minas, nas revistas Estação Literária e Darandina e em sites como Amálgama e Posfácio. Em 2013, ficou em primeiro lugar na categoria poesia do V Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia. Seu primeiro livro, Depois de rasgar os mapas, está no prelo.

(Para ler o conto de Laura Assis clique aqui)

Da arte das armadilhas, de Ana Martins Marques

A poesia contemporânea brasileira vem passando por uma fase promissora (pelo menos acreditamos) e revela diariamente nomes que vêm surgindo na internet e publicados por pequenas editoras. O mais interessante nessa nova jogada é que (de uma forma ou de outra) as publicações e consequentes reverberações fogem do fixo eixo Rio – São Paulo. É o caso da poeta Ana Martins Marques, vencedora por duas vezes do prêmio Cidade de Belo Horizonte de Literatura, que estreou no mercado editorial com seus poemas premiados no livro A vida submarina (Scriptum, 2009). A repercussão de seu primeiro trabalho chamou a atenção do poeta Armando Freitas Filho e expôs Ana aos holofotes do mundo das letras.

Em seu segundo trabalho, Da arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011), Marques retoma alguns temas do livro anterior e se mostra capaz de suportar as expectativas depositadas nela ao longo dos anos. Da arte é um daqueles livros que não se pode ler deitado: talvez sentado, mas às vezes é inevitável dar um pulo, um soco no joelho e gritar: é isso! A mineira dispõe em versos a honesta poesia sentimental contemporânea, que passa por assuntos como abandono, solidão e observações íntimas – como é o caso da primeira parte do livro: “Interiores”, na qual há um movimento duplo de internalização do meio (no caso, a casa e seus arredores) e exteriorização do eu. Pode-se observar este movimento nos poemas que se seguem:

CÔMODA

E dela
o que restou
senão
sobre a cômoda
um par de brincos
que talvez não sejam dela?

TORNEIRA

Quem abre a torneira
convida a entrar
o lago
o rio
o mar

VARAL

Suas camisas
colorem
o vento

*

Seus jeans
atualizam
a paisagem

*

Sua camisa branca
rendida
com
ao fundo
a noite
ampla

“Da arte das armadilhas”, segunda seção do livro, parece manter esse mesmo eu, que agora já busca outros espaços de composição poética, como a mitologia (em poemas como Carta a Safo, Mitológicas, Ícaro (1) e (2) e Penélope). Observa-se poemas já mais preocupados com a forma, que beiram uma metapoesia, mas ainda passando pelo corpo e suas insinuações:

A descoberta do mundo

Procuro alcançar-te
com palavras
com palavras
conhecer-te

como quem
com uma lanterna e um mapa
crê empreender
a descoberta do mundo

levanto-me
estou sozinha no escuro
com dois pés
no cimento frio

(onde estás
no que escrevi?)

A linguagem simples e acessível ajuda na retirada da poesia do pedestal hermético no qual esteve por tanto tempo mantida. Ler os poemas de Ana Martins Marques assemelha-se (até certo ponto) à leitura de uma prosa bem colocada, disposta em versos, mas com uma apuração “teórica” e formal capaz de inseri-la (com excelência) no universo lírico. A máscara vestida nesse livro (ou talvez persona, visto que parece ser um mesmo personagem que se deixa mostrar em todas as páginas) é uma espécie de Penélope (citada diversas vezes, da mesma forma que em A vida submarina) que, cansada de esperar também sai para ver:

Três postais

AMAZONAS

O mundo cheio
vazio

À beira da água
as núpcias da anta
e da vitória-régia

Peixe luminoso
água escura

Na primeira parada do barco
um enxame
de crianças antigas

SÃO PAULO

Depois de um tempo
todas as coisas ficam marcadas
como se estivessem
impregnadas de veneno

Há um tempo em que os lugares
são limpos e novos
abertos como clareiras
mas já não é este o tempo

Sobre cada lugar se sobrepõe
a experiência do lugar
como um selo
num cartão postal

Por exemplo
hoje sempre que sobrevoo
São Paulo
penso que em algum apartamento
desta cidade interminável
você
fumando
de óculos
exerce seu direito
inalienável
de não mais pensar
em mim

BELO HORIZONTE

[1]

Um dia vou aprender a partir
vou partir
como quem fica

[2]
Um dia vou aprender a ficar
vou ficar
como quem parte

Mas ainda é a mesma que fica, na tensão de um Odisseu que pode ou não voltar, confundindo entre poemas lembranças e perda.

Cinema

Encontramos na rua
uma fileira de cadeiras
de um velho cinema
levamos para casa
colocamos na varanda
passamos toda a tarde
bebendo e fumando
assistindo passar
um dia qualquer

 

A partilha
……………………d’après Joan Brossa, Pequena apoteose

Eu
e você

ao menos este poema
dividimos
meio a meio

Otávio Campos

  • Da arte das armadilhas
  • Ana Martins Marques
  • Companhia das Letras, 2011, 86 páginas