Esc #21 – O amor como objeto de consumo

Reflexões sobre Amor e Consumo em Sleeping Beauty de Julia Leigh

por Danilo Lovisi

A realidade contemporânea, abarrotada de informações, inovações, e promotora da coisificação do homem e do seu entorno, produz no interior deste ser uma inquietação sem origem evidente. E essa inquietação é, talvez, uma necessidade de preenchimento do vazio construído nessa realidade do excesso, do acúmulo, do desperdício. O sujeito contemporâneo, inserido no meio urbano e numa sociedade capitalista, tem, em sua vida, a necessidade de preencher este vazio, e o faz consumindo algo. Todavia, este consumo não está estritamente relacionado à compra e venda de produtos no mercado capitalista, pois há aqui um consumo da necessidade, que irá prover – ou não – o preenchimento, mesmo que efêmero, deste vazio interior; o preenchimento desta vida escassa. Mas que produtos seriam estes capazes de preencher um vazio, uma necessidade existencial?

Para responder esta pergunta, é interessante trazer à tona as relações do tema trabalhado com o filme Sleeping Beauty (Beleza Adormecida, no Brasil). A história, resumidamente, se consiste na vida de uma bela jovem universitária que, vista numa situação de grande necessidade financeira, passa a trabalhar para uma misteriosa agência, que contrata garotas para satisfazerem desejos velados de clientes de altas classes sociais. À princípio, visto apenas por essa perspectiva superficial, o filme não parece desenvolver questões mais subjetivas e profundas, o que é um engano, pois, no decorrer do enredo, a personagem principal (Lucy), evoluindo de posto, passa a atuar numa função mais restrita, peculiar e intrigante: ela deve tomar um chá especial, que irá fazê-la entrar em sono profundo por algumas horas. Neste interim, os clientes estarão livres para fazer o que desejarem com a jovem, havendo apenas uma regra: não pode existir penetração. E há um cliente que, ao utilizar este serviço, apenas deita na cama para dormir algumas horas ao lado de Lucy. E é aqui que pode se estabelecer uma relação com um conceito mais diferenciado de consumo, pois não há ali uma satisfação carnal: gasta-se e consome-se o momento, não o corpo.

Mas para chegar até este posto, a jovem trabalhou em outras áreas da empresa, como quando atuou servindo jantares, em companhia de várias outras garotas, para senhores da alta sociedade. Porém não se tratava de um serviço comum, visto que todas as garotas trabalhavam seminuas, com vestimentas fora do padrão, e algumas tinham que ficar em posições peculiares, servindo de objetos de voyeurismo. Ora, o preenchimento do vazio inquietante destes senhores provém, então, do estranho, do bizarro, e não do já conhecido e também já escasso – como suas vidas – sexo.

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Se dissesse as palavras certas – uma resenha de palavras opacas

Mesclando simbologias de senso-comum (ou de mitos clássicos) e definições presentes no Dicionário de Símbolos, de Herder Lexikon, pode-se dizer que o objeto espelho costuma estar relacionado com o autoconhecimento, o saber, a consciência, ou até mesmo – na mitologia cristã – com Deus (devido ao reflexo perfeito; à pureza da criação). Em Antes que os espelhos se tornem opacos (Dublinense, 2012) de Juarez Guedes Cruz, encontra-se, talvez, uma apropriação desconstrutiva desses simbolismos. Em seu conjunto de 22 contos, o autor (des)constrói não exatamente narrativas, mas ideias em texto, descrições de personagens e seus pensamentos; o fragmentário da literatura contemporânea se faz presente no que diz respeito à textos que se dão por reflexões de momentos, não exatamente na apresentação dos momentos em si. Estes que tratam, além de outros temas (ou, no caso, temáticas) da solidão consentida do homem, do “sofrimento com hora marcada”, do ruir dos sonhos, da dor perpassada pelo sangue da família, e da repetição: do mundo que se repete; dos sons que se repetem; da vida que se repete. Mas será mesmo, sempre, apenas repetição? Ou é nosso olhar viciado que organiza tudo em gavetas já etiquetadas, repetidas?  Continuar lendo

Jardim de veredas que coincidentemente (ou não) se reincidem

Ultimamente, ando mesmo julgando o livro pela capa (concordando totalmente com o que a Larissa Andrioli já disse por aqui). E em uma dessas minhas aventuras de começar uma leitura pela diagramação frontal me deparei com Em que coincidentemente se reincide (Dublinense, 2010), primeiro livro “individual” da paulista Leila de Souza Teixeira, que me serviu não apenas para enfeitar a estante, mas também para me encantar cada vez mais com a alta qualidade das produções literárias atuais. O interessante é que nunca sei como começar uma resenha de um livro de contos, ainda mais desse tipo de livro, em que é quase impossível deixar de falar de um conto sequer, visto que estão interligados, sendo o livro cortado ao meio e refletido na mesma proporção da metade adiante. Em que coincidentemente se reincide traz essa levada bacana do Cortázar em O jogo da amarelinha, em que, seguindo o “roteiro” marcado no sumário, o leitor pode tanto começar o livro e seguí-lo linearmente, ou ir “pulando” os contos e chegar no que corresponde ao último lido.

Como a própria capa indica, o livro é mesmo uma árvore, com galhos paralelos que se encontram no topo. Uma brincadeira circular, iniciada em “Corte seco”, no qual, em primeira pessoa, o narrador constrói um roteiro, ou melhor, narra na forma de um roteiro de edição os fatos que culminaram na cena de sua amada deitada sobre um caixão, com as mãos em cima do estômago; e refletida no último conto “Processo desconstrutivo”, com as mesmas imagens do espelho, do carro e uma crise criativa que faz com que o contista exclua tudo que já foi escrito. As relações se tornam mais evidentes nos demais, como “Girassóis” e “Oito”, que apresentam uma Luiza atormentada, fugida, indo para São Paulo, com o sol dourado na cara, que de tamanha perfeição narrativa nos deixa tonto. Creio que independente da ordem que os contos são lidos, farão todo o sentido, mas, se a autora os colocou nessa disposição é porque talvez tenha pensado ser essa a melhor forma de concebê-los, e é o que acontece ao lermos “(Ana)” e “Ato III”, nessa cronologia. O primeiro, com o marido no carro e as mãos nas pernas de Danilo, e o segundo com Ana, plena, reconstruindo Hamlet para mostrar que sim, ela sabia da paixão do marido pelo seu melhor amigo. E o conto que dá título ao livro “Em que coincidentemente se reincide” é reflexo de “Doutrina dos ciclos” e talvez o par mais intrigante que traça os destinos simétricos de mãe e filha, não que o acaso conspire para que se repitam, mas, pela ciência de uma, a repetição se torna quase necessária – expondo de maneira magistral (e metalinguística) o jogo que o leitor vem percebendo durante toda a leitura.

Pela sutileza das composições e o visível labor em cada capítulo, percebe-se que, para Leila, a concepção de conto ultrapassa os limites de uma simples short story, mas se enraíza em um universo de quem trilhou com maestria essa arte, que é Jorge Luis Borges, o qual a autora faz questão de deixar claro sua influência, seja por meio da narrativa ou na epígrafe do borgiano “O palimpsesto de Sür”.  Uma leitura que puxa outra leitura e chega novamente na inicial, lembrando, o também citado no livro, Nietzsche, que postula a teoria do Eterno Retorno (aqui entrando mais uma vez Borges, sendo o autor que cita a leitura do filósofo). Por mais que soe complicado, creio que o livro – mesmo sendo um trabalho sério – não passa de uma brincadeira, trazendo o universo lúdico, que faz tanta falta, de volta à literatura.

Por minha vez, trago Borges, pois creio que, tomando a árvore da capa, o livro pode ser lido com um grande jardim, de veredas que se bifurcam.

por Otávio Campos

Sob o céu de agosto: uma resenha ou um breve retrato da literatura contemporânea

Há algum tempo que venho observando de que maneira a literatura contemporânea brasileira (para ser mais exato, a literatura contemporânea urbana brasileira) vem se repetindo. Em uma infinidade de livros e autores (como Marçal Aquino, Lourenço Mutarelli, Daniel Galera e Patrícia Melo) há temas que são recorrentes e, de certa maneira, cruelmente presentes, dentre eles estão o problema com o casamento, o envolvimento em algum tipo de “crime”, problemas com trabalho, inquietações psicológicas, a confusão do eu com a cidade e, obviamente, a solidão. Posteriormente, gostaria de fazer um estudo mais aprofundado nesse tema, apesar de já ter encontrado algumas respostas que soam como “confortáveis” no momento. A atual cultura urbana brasileira se reflete quase que exclusivamente nestes pontos, os quais não poderiam, obviamente, deixar de conduzir a veia narrativa dos que estão imersos nesse mundo.Porém, como era de se esperar, os romances começaram a ficar repetitivos e a solução de encontrar o “novo” foi não mexer no tema, mas sim na forma.

O gaúcho Gustavo Machado sem dúvida é um reflexo da nova tendência literária, conforme pode-se constatar com seu primeiro romance, Sob o céu de agosto (Dublinense, 2010). Algo que visivelmente se destaca no texto de Machado é a presença de duas narrativas: num primeiro momento, somos apresentados a Otto, artista plástico, 35 anos, narrador. O protagonista, ainda com cacos nos olhos, descreve a cela carcerária na qual se encontra e o policial que o observa e o pede para narrar o que realmente aconteceu, já que está sendo acusado de duplo homicídio e, por ter influentes amigos na política, possivelmente será posto em liberdade. A segunda narrativa, iniciada a partir do segundo capítulo, começa justamente daí – é o mesmo narrador, porém o foco narrativo é outro: os eventos que antecedem o capítulo inicial do livro; outro também é o destinatário da narrativa que, apesar de o leitor se desfrutar desses fatos, não deve se esquecer de que os mesmos são cuidadosamente preparados para o conhecimento do oficial, que deve ser convencido de que Otto não é o culpado dos crimes. As narrativas “distintas” caminham inicialmente separadas por capítulos, sendo fácil percebe qual número precede a cada. Mais adiante, o policial interrompe a fala do narrador dentro de um capítulo destinado à história de Otto e já no capítulo 19 (dos 21 do livro) as duas narrativas se encontram, visto que o tempo passa a ser o mesmo. Com o encontro do tempo apenas no fim do livro, percebe-se que logo de cara encontraremos desde o início o final da história, mas realmente isso é o que pouco importa. Somos tentados a descobrir o que Otto faz na delegacia, e quem são os personagens que ele supostamente matou.

Pintor solitário, Otto vive em um apartamento no que parece ser a região urbana de Porto Alegre. Já há muito desempregado, recebe um telefonema do amigo Teo, oferecendo-o um emprego. Como professor de pintura conhece a femme fatale do romance: Sophia, a jovem (com sérios problemas com o marido) com a qual se envolve e tenta ajudar a fugir para o Uruguai. Moradora do apartamento acima, a jovem de 15 anos Berta brinca de “casal” com o artista (quando sua mãe não está em casa, é claro), denunciando uma relação pedófila que caminha à beira do abismo mas que, graças à maestria de Gustavo Machado, se mostra dócil e delicada, até simpática, pela construção descontraída da personagem secundária.

O espaço e o personagem se bifurcam. No início e no fim do romance vemos Otto recluso no apartamento. Lugar quente, devido à estufa que ele mantém sempre ligada. É este o personagem centrado em si, convivendo com a sua decadência intelectual e suas limitações, percebendo a relação perigosa que vem mantendo com Berta mas, ao mesmo tempo, reconhecendo o quão importante a menina se apresenta (talvez Berta seja a expressão máxima de companheirismo dentro do livro). Com a oferta do emprego, o protagonista flerta com a rua, com a cidade e sua vida passa a tomar o mesmo fluxo: desordenado, barulhento. É convivendo com a movimentação urbana que Otto conhece Sophia, faz sexo com Berta, destrói o carro de Teo, invade uma propriedade privada. Apesar de ser a rua a responsável pelo maior número de relações, é nela também que se encontra o frio, daqueles de doer os ossos e arder os olhos.

Dentro de casa percebemos as cores: do café, da massa do bolo de cenoura, dos cabelos, dos instrumentos dos discos de jazz. Na rua, apesar das tintas da aula de pintura, a cor é uma só: um cinza azulado, a qual Otto batizara de Céu de Agosto. Mesmo com todas as técnicas, o pintor nunca conseguira reproduzir tal cor, apenas a descrevia, com pesar. O lado de fora e o lado de dentro nunca dialogavam no mesmo espaço, até que, após todas as desventuras, Otto chega em casa e pinta. Mais uma vez sem emprego, de novo entregue ao lar e à companhia de Berta, apesar das condições finais se equipararem às iniciais, as coisas já não seriam a mesma. Dessa vez, dentro de casa e perto do calor da estufa, está também o Céu de Agosto, imortalizada numa tela na sala.

Mesmo que os temas se esgotem, fica claro que eles nunca se repetem. Mais do que a forma, creio que o diferencial de um livro é a cor. Sob o Céu de Agosto, Gustavo Machado confirma seu potencial diante desse mundo de livros que não para de crescer.

por Otávio Campos

Precisamos falar, rapidamente, sobre o Kevin

Pela tradição judaico-cristã Eva é o nome da primeira mulher que, ao provar do fruto proibido é expulsa do paraíso. Eva Khatchadourian, sem dúvida, não se difere muito da homônima descrita na Bíblica e no Alcorão, pois ao conceber seu fruto, no caso, o filho, sua vida se torna um verdadeiro inferno. Sim, estamos falando sobre a personagem principal do romance de Lionel Shriver, Precisamos falar sobre o Kevin.

A arte de tirar o fomento para romances das primeiras páginas dos jornais não é novidade, mas a maneira como Shriver utiliza a notícia de um adolescente de 15 anos ter matado 12 pessoas em uma escola nos Estados Unidos é o que faz desse livro um marco da literatura contemporânea. A autora não se vale apenas do fato em si, mas de todos os acontecimentos que precedem a “chacina”, desde a concepção e nascimento de Kevin Khatchadourian até as constantes visitas de sua mãe na penitenciária. Pois bem, o livro já começa com uma dessas visitas, ou melhor, o relato dela por Eva. A narrativa toda se baseia em cartas dessa mãe para Franklin, seu marido que está ausente.

Apesar de ser uma pergunta recorrente na história e, com certeza, na cabeça de todos que a leem ou pelo menos ouvem falar sobre, o que levou Kevin a cometer o crime de longe é o que necessita ser respondido nesse livro. De forma perturbadora, a autora visa traçar uma narrativa mais preocupada na relação entre Eva e Kevin e a pergunta que fica é “pode uma mãe odiar seu filho?”. Num primeiro momento, responderíamos que sim, visto que desde o início Eva detesta Kevin (porque ele representa pra ela a derrota da dor do parto?), apesar de ela tentar nos convencer que isso não é verdade, que era Kevin quem a detestava. Nesse ponto, é necessário ressaltar que precisamos ser muito cuidadosos ao ler o livro, para não cairmos nas “armadilhas” do narrador. Mais do que um livro em primeira pessoa, o romance é constituído de cartas, nas quais Eva tenta (acredito) eximir sua culpa sobre os acontecimentos.

Em quase quinhentas páginas (mal revisadas pela Intrínseca), somos levados a conhecer o ápice e o declínio profissional de uma mulher, que entra na vida adulta como promissora diretora de uma empresa de guias de viagens baratas e passa a ser uma frustrada dona de casa, que não consegue se encaixar no papel de mãe. Vendo que seu esperado bebê não saiu conforme a encomenda, o que Eva faz? Desiste? Não, mas tenta novamente e, dessa vez, parece dar certo, já que a pequena Celia exala a feminilidade e a doçura que tanto conforta Eva. É plausível que Kevin seja uma criança problemática e que tenha realmente cometido todos os pequenos delitos infantis que a narradora elenca, mas são dúvidas que nunca serão respondidas e o que nos resta é ter tal consciência e nos deixar estremecer toda vez que o pequeno Khautchadorian entra em cena (com nãnãnãnã, revólveres de brinquedos ou à la Robbin Hood).

A adaptação do livro para as telas, apesar de render um post à parte, sem dúvida é algo que deve ser ressaltado por aqui. Sem a burra pretensão da fidelidade que tanto estraga esse tipo de trabalho, Lynne Ramsay tem consciência da transposição das letras para frames da história de Shriver, e realiza da melhor maneira possível (me arrisco em dizer que talvez seja essa uma das mais brilhantes adaptações que já houve). A cronologia inexistente e arrebatadora é o elemento perturbador da película, que é deliciosamente perpassada por pelo menos um detalhe vermelho em todas as cenas (o que renderia uma grande discussão sobre a simbologia do Vermelho e o Negro na história). Eva é incrivelmente representada por Tilda Swinton, e consegue passar toda pulsação de culpa x inocência presente na narrativa, apenas com o olhar. O livro e o filme são obras distintas que dialogam (e não necessariamente se encaixam) e criam dois universos sobre este fato.

Tilda Swinton interpretando Eva Khatchadourian na adapatação de Lynne Ramsay

Um tapa na cara e um soco no estômago: é a sensação que se expande depois de cada capítulo. Apesar de não haver tal necessidade para o livro ser classificado como excelente, o final é algo catártico, chocante, desesperador que, se até lá o leitor não tiver conseguido responder, Shriver mostra a resposta para a questão cerne do romance. Sem mais delongas (o texto é curto porque é quase impossível comentar sobre o livro sem disparar um importante spoiler), sem dúvidas Precisamos falar sobre o Kevin é um livro que merece ser lido, lido, estudado, escondido, flechado, temido, lido e comentado.

por Otávio Campos

Bom Dia Camaradas: um panorama íntimo de Angola narrado por uma criança imersa em antigamentes

por Danilo Lovisi

O romance Bom dia camaradas (Agir, 2006), do escritor angolano Ondjaki, nos apresenta uma Angola pós-independência, através de uma história ambientada na Luanda da década de 80. Um panorama íntimo que tem como condutor um narrador infantil, adequadamente consciente e não demasiado lírico: a justa medida que apreende o leitor sensível e interessado logo nas primeiras páginas.

O termo panorama íntimo se dá pelo caráter interno e memorialístico que transpira da história, provavelmente pela forma como é apresentada: através de uma criança da classe média, construindo sua consciência política e existencial, envolta – mesmo inserida numa classe um pouco mais elevada – envolta, invariavelmente, numa realidade social densa, pitoresca, mas não por isso menos viva e aberta ao lírico.

Além disso, há elementos da própria construção narrativa que já nos colocam, queiramos ou não (no fundo, é uma escolha do leitor), dentro dessa realidade, desse fragmento ficcional. A história começa dentro da casa, na cozinha, e o garoto-narrador (sem nome) pergunta ao personagem António: “Mas camarada António, tu não preferes que o país seja assim livre?” – essa pergunta, carregada de cunho político, na voz de uma criança, dá todo – ou quase – o tom do restante do livro, pois Ondjaki consegue, de forma natural, diluir o discurso político na fala infantil e, utilizando da flexibilidade e da natural presença do lirismo na infância, mescla parte da narrativa com belíssimos momentos poéticos, amenizando, de certa forma, passagens brutais e frias, impossíveis de ignorar em se tratando daquela (e por que não da atual) realidade social de Luanda.

Acompanhando o ano letivo do garoto, a história é tecida, mesclando os afazeres escolares com os acontecimentos inerentes à realidade de Luanda. Como a ida dos estudantes à rádio local, onde supostamente apresentariam seus próprios textos, mas são impelidos à ler um certo papel datilografado, demonstrando, de forma sutil, a imposição política ainda viva naquele tempo; ou o quase fuzilamento do garoto e sua tia (que vem de Portugal para uma visita, portanto não inserida na cultura do medo fortemente instaurada em Luanda) simplesmente por não estarem – por pouco! – em posição de sentido na passagem do carro do então presidente; ou as passagens tragicômicas, sendo a melhor de todas, a descrição da cena da professora de inglês – que tinha algum problema na perna – correndo, junto aos estudantes desesperados, de um suposto grupo reacionário que estaria invadindo a escola.

Tchissola, Lelinha, Ndalu, Kiesse e Dilo. Personagens de “Bom dia camaradas”.

Tudo isso, e muito mais, construído através de um vocabulário peculiar ao leitor estrangeiro, por razão da inserção de inúmeras palavras e expressões originalmente africanas (mas detalhadamente explicadas num glossário ao final da bem cuidada edição da Agir), ali inseridas de forma talvez excessiva, mas presentes nessa quantidade por uma questão, talvez, política, relacionada à um ideário de propagação da cultura angolana/africana através da língua.

E é exatamente sobre língua e linguagem que prosseguimos, pois é interessante ressaltar que as imagens evocadas pelas palavras utilizadas e as descrições delicadamente elaboradas pelo narrador, nos remetem a uma fotografia sépia, porém tão nítida e real que parece estar em alto relevo, sendo possível quase tocar suas texturas; ou nos lembram uma gravação antiga de família, tão nostálgica e saudosa, que chega a ser capaz de nos fazer sentir o cheiro do almoço de domingo, ou de ver “a chávena à minha frente, o fumo que saía da chávena” e sentir “o cheiro do pão torrado, o cheiro da manteiga a derreter nele”,  culminando em momentos de extremo lirismo: “mas o mais bonito era ver ali em frente o abacateiro. Vocês sabiam que o abacateiro também se espreguiça?”.

O próprio Ondjaki, quando pequeno, sob o “abacateiro que se espreguiça”.

O romance, então, além de nos evocar reações várias, também promove reflexões substanciais. Sobre isso, é interessante basear na premissa de que a literatura africana por vezes se divide na literatura do mar e na literatura do deserto, sendo a primeira caracterizada pela busca do/no outro, pela ânsia do novo e do real, e a segunda, associada a reflexões mais internas, relacionadas ao eu. O que promoveria, então, a literatura proveniente do meio urbano? Talvez, uma imposição: ou conscientiza-se hibridamente (o eu, o todo e o além) ou aliena-se, seja pelo senso comum, ou pela fuga do real – ações estas extremamente compreensíveis, devido à realidade lá encontrada.

Bom dia camaradas é, portanto, um romance capaz de promover no leitor desde momentos de sincero riso, perpassando por sagazes captações de lirismo em meio ao caos, até reflexões sociológicas e políticas, sem cair no meio panfletário, por razão da justa palavra, da justa descrição, mediada por um narrador atento, objetivo, sensível e imerso em seus antigamentes, que embora já passados, são capazes de dialogar de forma simples, direta, e por ora despretensiosa – como numa conversa entre crianças e adultos – com um presente ainda carente de respostas, definições, e diálogos. Diálogos entre camaradas.

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Ndalu de Almeida, mais conhecido por Ondjaki, é um escritor angolano nascido em 1977 que vem ganhando notoriedade internacionalmente. Participou da Um Conto na edição de dezembro de 2011. Tem mais de 15 livros publicados, sendo os de maior destaque Bom Dia Camaradas, de 2001; a novela O Assobiador, de 2002; o livro de poesia Há Prendisajens com o Xão, de 2002; o infantil Ynari: A Menina das Cinco Tranças, de 2004, e Materiais para confecção de um espanador de tristezas, de 2009. Em 2010 ganhou o prêmio Jabuti, na categoria juvenil, com AvóDezanove e o Segredo do Soviético. Além das letras, tem experiência com artes plásticas, teatro e cinema.

Pitanga madura

………………………………………………………………………………………………..por Otávio Campos

Quem não conhece Mallu Magalhães, a menina pródiga da música brasileira, que, em 2008, irritou plateias com tchubarubas e papapapapás? Mas, acho que a pergunta que vem a calhar hoje é: quem conhece Mallu Magalhães? Estou falando de música, pois, na verdade, é isso que fica, e não da menina de 19 anos, que namora o cara barbudo daquela banda barbuda, ex-Anna Júlia. Se bem que aqui, acho que o relacionamento com Marcelo Camelo pode ser importante sim. Enfim, onde quero chegar é no último disco de Mallu Magalhães. Pitanga (2011) é um tapa na cara da sociedade vestida de rede globo. Quem conheceu a menina do Tchubaruba e só ficou por aí (porque no disco de 2009 a menina já evoluíra um pouco, com “Shine Yellow”, “Versinho Número Um”, “Make It Easy”, etc), com certeza vai estranhar quando ouvir esse seu novo trabalho. Mallu está madura, em todos os sentidos, tanto fisica, como musicalmente, e parece não mais se importar com o que veiculam dela por aí, como afirma em “Velha e Louca” (faixa de abertura do CD): “Pode falar que eu nem ligo/ Agora amigo, eu tô em outra”. Realmente está em outra. No disco, podemos sentir a clara influência dos sons brasileiros, que estiveram quase de fora dos anteriores. “Sambinha bom”, “Olha só moreno” e “Ô Ana” são uma prova disso. Não que os versos em inglês tenham sido abandonados, mas agora eles vem mais trabalhados e menos pretensiosos, também mesclados com ritmos brazucas. Aí entra o trabalho e a influência de Camelo, um dos produtores de Pitanga. Quem ouviu o último CD do músico e se encantou com os metais quase hermanos, vai perceber que eles estão presentes nessa nova Mallu Magalhães.  To  que Dela, por muitos, foi definido como um disco romântico, com remetente, apesar de a namorada do cantor só dar sua colaboração na linda “Vermelho”,  Pitanga, então, pode ser uma resposta. As canções mais bonitas do CD com certeza são as românticas “Baby, I’m Sure” (“Todo dia a gente tem um ao outro/ Manhã cedo agora é bom de levantar/ Toda dor que me aparece eu te conto/ Você me cura sem sequer notar”) e “In the morning” (“Só pra constar nos registros por aí/ Que todo meu amor é seu/ Só pra contar pra quem quiser ouvir/ Que eu encontrei alguém”). Uma declaração de amor sem medo de ser piegas, revelando uma sinceridade que há muito não ficava exposta. A maturidade vem daí. Mallu Magalhães cresceu, aprendeu a ouvir e a fazer boa música e soube aproveitar ao máximo a influência romântica e musical de seu namorado.

Uma pitanga, quando verde, é de amargar e arrepiar a espinha, mas quando madura, tão laranja que quase vermelha, é suave e por vezes doce. A pitanga da jovem musicista demorou um tempo, mas parece que, enfim, amadureceu, e os que ainda a julgam azeda, com certeza não a provaram nesta época.

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Mallu Magalhães – Pitanga
(Sony Music – 2011)