Ismar Tirelli Neto

ismar

Ismar Tirelli Neto é poeta e ficcionista. Nasceu a 1985, no Rio de Janeiro, e publicou os livros synchronoscopio Ramerrão, ambos pela editora 7Letras. O texto a seguir é inédito.

 

Os Piores Anos de Nossas Vidas (Aproximações)

I.

_____Por um breve período de tempo, ei-lo o homem que se debruçava sobre a amurada e via a água colear um antigo slogan revolucionário, se bem me lembro, “é preciso explorar sistematicamente o acaso”. Segue-se a este outro breve, espocado homem, homem sentado a um banco de praça, homem que em sua grande maioria vem se dedicando única e exclusivamente à tarefa um tanto árdua de voltar a si –, isto já faz quantos anos? Ora

II.

_____Nicolau é mesmo de uma indelicadeza imperdoável quando

III.

_____Ressalva, ao pé de Dagmar (ao pé de Dagmar serve-se de mais um copo de sangria, ressalva), que não acredita nem em reproduções de quadros nem em poemas traduzidos, porque “a arte é muito ciumenta, há que buscá-la em casa”. De resto, trata-se de encontro amplamente documentado, um grande acontecimento para o cinema, um grande acontecimento para o “mundo cultural”, um grande acontecimento para

_____poucos

_____anos depois

IV.

_____Ela abandona a União Soviética em definitivo – segundo artigo que traduzi ano passado, pouco depois de conhecer Daniel, isto já faz quantos anos?, pouco depois de conhecer Daniel, Dagmar abandona a União Soviética em circunstâncias “menos que idílicas”. Mesmo hoje em dia, não é incomum que se rejeite sua produção no exílio como autoindulgente

V.

_____Triste, genuinamente enraivecido porque não consegue pensar em termo mais bíblico para “autoindulgente”

VI.

_____Agora meditemos um pouco nisso. Meditemos um pouco nas recusas que não nos envaidecem

VII.

_____É preciso fazê-lo, é preciso fazê-lo sem emporcalhar a água. Reconstrói passo a passo uma velha e esboroada fantasia: dirigir-se continuamente às escusas do outro, sendo as escusas do outro aquilo que –, no outro –, trama continuamente às voltas com tentar tornar o exílio em

_____método

VIII.

_____Não é sem alguma vergonha que me pego fazendo agora essas ponderações. Ontem, ao telefone com Daniel, tive ocasião de concluir que estou fazendo tudo errado (novamente). Eis a hipótese –, a hipótese –, a hipótese –, que desencadeou todo o processo: embora não tenha feito outra coisa ao longo do verão afora minutar neste caderno de maneira mais ou menos fidedigna o pouco que lhe costuma acontecer a cada dia, é certo que não encontraria o que dizer caso alguém lhe pedisse para descrever o que de fato está se passando neste exato momento:

IX.

_____Uma parede branca à minha frente é dizer a vizinhança do outono é dizer o que se passa comigo neste exato momento com a maior frontalidade possível dirigir-se àquele outro no outro àquele outro no outro àquele outro até mesmo em Daniel aquele outro encruado no outro que precisa sempre tomar o voo das nove e meia urgentemente

X.

_____De resto, pensei que a renúncia papal acabaria por devolver à ordem do dia os insultos do espírito. Acreditei (ingenuamente, concedo) que esta seria minha segunda grande chance

XI.

_____Meus amigos, inteligentes e cínicos como médicos legistas, pendem para o cinema. Dizem: “cinema”, dizem: “há mais cinema nisto do que naquilo outro”. Certamente desejariam ouvir que me circunstanciei com a cidade novamente, à força de uns quantos passeios pela Urca ao anoitecer ou golpes de vento à boca da Cinelândia. Poderia, então, ocupar o lugar que me reservam à mesa, suspirar de cansaço diante do rocambole – afinal, ninguém tem dinheiro, – afinal, seremos nós os aventureiros? perdoarão um dia o nosso recato? – afinal, os aventureiros grassam. Contudo, falando estritamente, não me foi dado ver coisa alguma desse deserto, dessa terrível, terrível lentidão – aparecem-me sem propriamente imagem, ainda e talvez permanentemente irrepresentáveis, o que também não quer dizer muita coisa. A propósito

XII.

_____Daquela sequência de “Nostalgia” em que o Erland Josephson ateia fogo às vestes, diremos apenas que já falta pouco para o fim do verão, pode-se afrouxar. Este, como se sabe, foi um bocado pior do que o anterior – que, por sua vez, foi um verdadeiro inferno comparado ao de ’79 – que eu já julgava ter esgotado todo o cristianismo de minha outrora mansíssima natureza, que

XIII.

_____Isto vai retrocedendo, retrocedendo, até já não fazer mais sentido algum propalar por aí asneiras como este realmente não foi o nosso ano.

_____É vergonhoso, sim, vergonhoso

_____como falar de grandes vacâncias dentro de uma cabeça, vergonhoso como descobrir à base da nuca uma nova e diminuta dor que só vibra inconteste quando rimos ou engolimos um pouco de saliva,

_____vergonhoso como voltar de uma longa viagem de mãos abanando

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