Cartas para K.

Um chá com Mariana Botelho

Mariana Botelho nasceu no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Em 2010 lançou seu primeiro livro de poemas, O silêncio tange o sino, pela Ateliê Editorial. Desde então, mudou-se para a capital mineira e, no fim do último ano, voltou para o interior, onde divide o tempo cuidando dos filhos, construindo esculturas de cerâmica e trabalhando em dois novos livros. Mariana também, como qualquer ser contemporâneo, tem um perfil no Facebook, e, constantemente, posta em sua página poemas da própria autoria. Os que acompanham a poeta já puderam perceber a presença constante de uma interlocutora, denominada K., para quem são destinadas pequenas cartas. Em uma conversa por Facebook, como não poderia deixar de ser, Mariana nos contou um pouco mais sobre K., nos falou sobre os planos para publicações futuras, da sua relação com o primeiro livro e, é claro, sobre a vida de poeta na rede mundial de computadores.

foto de Ricardo Aleixo

Mariana, quem é K.? 

K., é um lugar. Ela começou como uma sereia de cerâmica que eu não dei conta de terminar por conta de turbulências na vida cotidiana e uma mudança de cidade. Aconteceram muitas coisas e eu precisava de um lugar pra passar por tudo que essas mudanças, geográficas e afetivas, acarretavam. Não pra entender as coisas, mas pra passar por elas com alguma serenidade, ainda que mínima. Então eu transformei K. numa interlocutora. Em cerâmica eu quis retratar uma pessoa específica. Tentei dar a ela os traços dessa pessoa. Mas não consegui e ela saiu com a minha cara, meu nariz, a careca, como eu tinha na época. 

Em alguma postagem, se me lembro, você dizia de uma dívida que tinha com ela. A dívida é com a matéria física, no caso, a de cerâmica? 

Sim. Na verdade, também. Ela se tornou um “livramento”. Eu fiquei grata e achei que deveria recompensá-la por isso. Mas ainda não sei como.

Mas ela ter saído com a sua cara… é como se esse livramento partisse de você mesma? 

Sim, bem isso.

Por exemplo, quando escreve para K., é como se escrevesse para sua própria persona poética – ou talvez uma parte de si mesma – ou ela se distancia disso? 

Acho que é, embora isso não seja claro nem pra mim. Só consigo vê-la como alguém fora de mim. Mas sei que passa por mim, essa conversa com ela. Digo, do mesmo modo que envio pra ela, recebo. Consigo aceitar coisas e até entender algumas, embora essa não seja uma premissa. Não tenho vontade de entender nada. Só de compreender meu conjunto (corpo, pensamento, coração) dentro de um contexto.

mariana1

E como vem as respostas de K. para você? 

Acho que a resposta vem “me situando”. Eu falo com ela (a poesia foi sempre isso pra mim) e pronto, foi uma ponte que eu atravessei, sobre um rio assustador. Tá tudo mais fácil depois disso. a ponte existe e eu nem sabia.

Isso me lembra uma música do Lenine:

“A ponte é até onde vai o meu pensamento
A ponte não é para ir nem pra voltar
A ponte é somente pra atravessar
Caminhar sobre as águas desse momento”

É isso. Caminhar sobre as águas com a mãe das águas (a sereia K.).

Existe uma certa técnica para essa escrita? Quero dizer, há um trabalho rígido? Por exemplo, tem aquele momento que você senta e pensa: “Bem, agora é hora de escrever para K.”?

Não tem técnica. Nem era pra ser uma série. Na verdade ela não tinha pretensão de ser coisa alguma. Foi sendo, apenas. Quando vinha a inquietação, eu pensava em K. E conversávamos. Vinha sempre de um gole. Sem rever, sem refazer, era como falar com um parceiro amoroso, algo como: bom dia, amor! Qualquer coisa corriqueira.

K,. então, seria uma pessoa com geografia? Como um espaço que responde por si? 

Sim. Que bonito isso.

Você disse que não havia pretensão em criar uma série, mas acabou surgindo. E nós estamos acompanhando esse processo, eu creio. Por que a opção de postar no Facebook? 

Não sei por quê. Talvez porque não tivesse pretensão nenhuma. E o retorno pelo Facebook foi muito legal. Daí eu continuei. Eu acabei tendo companhia.

Muita gente tem apostado nisso. Vemos cada vez mais poetas que surgem nas redes sociais, ou até mesmo os já publicados que divulgam suas recentes produções. Você acredita que é uma forma alternativa de fazer com que a poesia alcance mais leitores? 

Acho que sim! Acho que as pessoas acabam criando uma empatia pela palavra e o que ela foi capaz de expressar naquele momento e que de algum modo é universal. Só que tem dois lados. Um é esse, da aproximação, as pessoas chegam perto, gostam de repente, etc. Mas é muito dinâmico. As coisas somem e catapluft. Não tem materialidade. É um outro tempo.mariana2

E você pensa em um destino físico para essas cartas? 

Acho que elas vão compor um livrinho que tava ganhando corpo. Vai fazer parte dele, quem sabe. E depois algumas vão compor as peças de cerâmica que eu preciso terminar

Pois é. Seu livro foi publicado em 2010. Desde então, pensa em alguma outra publicação? 

Eu sou muito devagar pra essas coisas, mas venho pensando. E veio se construindo um livro que será em prosa (mas esse vai demorar mais). Um infantil, que nasceu em decorrência da chegada do Ravi e da recepção que ele teve dos outros irmãos, sobretudo o Vitor, de 5 anos, que é o mais imagético deles. (Esse vai se chamar A caixa de astronauta). E um de poesias, que vai ter K. como moradora. Mas por ora eles não passam de desejo. Não sei ainda por onde virão.

O que você acha que mudou após O Silêncio Tange o Sino? Dá para perceber um antes e um depois? (Ou o livro é só um marco simbólico?) 

Acho que dá pra perceber. Além de ser um marco simbólico. Porque não dá pra negar que algumas pessoas chegam até a gente depois disso. E a gente chega em determinadas pessoas. Então abriu um mundo de gente, de bons encontros, mesmo ele tendo sido assim, amiúde. Acho que ele ser assim também foi bom.

O livro foi amiúde? 

Acho que foi. 300 cópias, sem estardalhaço, amigos mostrando a amigos.

E por que isso foi bom? 

Porque ele aconteceu do jeito dele. Na intimidade. Eu acho que eu sou dessa escala, do pequeno, do íntimo.

foto de Gildásio Jardim

Algumas cartas

Querida K.,

dói agora, sobre a grama do passado, essa vontade de me deitar nua e sorrir entre os vaga-lumes. sorrir debochada desse céu que me chorou e que agora brilha, quase impossível. mas que eu quero mesmo assim.

M.

  *

Querida K.,

seu nome, querida. seu nome é um belo motivo pra repetí-lo.

M.

 *

Querida K.,

a gente enfia a vida num amontoado de caixas e tenta sair do lugar. toda a vida das coisas dentro das caixas e a gente dentro do dentro, indo pra longe, onde adeus amor.

M.

*

Querida K.,

entre o que é preciso te dizer e o que é possível dizer mora o fim do mundo. eu sei que é lá que você vai se acabar. no fim do mundo, em tudo o que está escrito nele e que, pasme, você não sabe ler. você não sabe.

M.

*

Querida K.,

vamos, querida. colo e calor: pedra quente sob o sol à nossa espera.

M.

*

Querida K.,

o que é o homem? o que é um homem? o que eu sei me diz que eu não sei de nada, dona. pode-se passar anos com um enigma. banhá-lo, alimentá-lo, casar-se com ele. até que num belo dia ele sente fome e te devora.

M.

*

Querida K.,

minha pele é puro sal. o suor secou, eu parei de caminhar, mas ainda está quente. eu quero a pedra maior, para caber meu cansaço. não durmo há noites e os dias são devotados a catar alegrias no sorriso dos meninos. só à noite eu posso ser triste. então estou sendo. vem me fazer dormir.

M.

*

Querida K.,

eu que voltei — naufrágio e náufrago, estou aqui pra te ouvir. canta nos meus olhos: abre uma janela.

M.

Anúncios

3 comentários em “Cartas para K.

  1. Filó disse:

    Incrível! Incrível mesmo…

  2. FABRICIA disse:

    Amo essa menina linda e sensível ,que merece toda felicidade que este mundo possa proporcionar á alguém.Bjs Má! Pronto,falei!

  3. Matheus Costa disse:

    Criativa a invenção desse personagem K. Muito merecidas as 300 cópias.
    Lembra o clássico “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, que no caso foi um romance escrito em forma de cartas endereçadas a um personagem como K.
    Talvez fosse um bom rumo para se tomar nas próximas obras, não? Um romance.

    Veja meus contos no blog http://fazerbelasartes.wordpress.com/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s