Esc #25: A presença na ausência

escnão é
a falta
nem
a existência

é a
presença
na
ausência.

Larissa Andrioli – “Negação”

Uma das coisas que sempre me chamou mais atenção na ficção literária, sem dúvida, foi a constituição dos personagens. Mais do que a própria trama em si, eles são o que há de mais intrigante e fascinante na literatura. Como agem, como são descritos, se têm nome ou não, como eles se mantêm (ou não) dentro de seu universo particular criado, como interagem entre si, etc. Por outro lado, este interesse está profundamente ligado ao que eu penso do trabalho do autor. Ou seja, ver como o escritor pensa e age para criar os mais inusitados tipos de personas e se elas funcionam bem ou não dentro da história ou da trama. Ultimamente, venho me interessando mais profundamente por um tipo nada usual: a personagem ausente.

Se eu me referir aqui sobre um Nick Carraway poucos devem se lembrar do livro em que ele aparece e é protagonista. Porém, se eu disser sobre Gatsby, tenho certeza que todos vão saber que estou dizendo sobre o romance O grande Gatsby, mesmo sendo o narrador e um dos protagonistas o tal Nick Carraway. Tudo bem que isso se deve ao fato de Gatsby já aparecer logo no título do romance, demonstrando sua importância dentro do mesmo. Mas, se formos pensar, é Nick quem está consco desde o primeiro momento. São as ações dele que são descritas, aparecendo Gatsby apenas já decorrido mais de um terço do livro. Me refiro à presença física, pois as primeiras palavras do narrador já mencionam Gatsby – por isso o personagem é tão importante. O que temos é a construção da personagem ausente, uma boa sacada do Fitzgerald para criar o clima de tensão e suspense em torno do personagem título do livro.

O que constitui, afinal, o personagem ausente? Carol Bensimon elencou essas seis categorias:

a) A personagem ausente é constantemente referida pelas outras personagens.

b) A personagem ausente pode ser evocada através de objetos, como fotografias.

c) A personagem ausente é parte da história, mas não da trama.

d) A personagem ausente não está em cenas, mas está em sumários.

e) A personagem ausente não age, mas sua ausência motiva os outros personagens a agirem.

f) A personagem ausente, portanto, faz parte do conflito da narrativa.

Pensando nisso, e levando ao extremo a ausência-parcial produzida por Fitzgerald, a autora construiu Antônia, protagonista de Sinuca embaixo d’água, morta em um acidente de carro e, portanto, ausente durante toda a trama. O irmão Camilo, o amigo Bernardo o dono do bar frequentado pela jovem, Polaco, são os principais responsáveis por manter Antônia presente durante toda a trama. Sua morte e a maneira como as pessoas ao seu redor lidam com ela é o que move o conflito da trama.

A ausência da personagem não leva, como se pode pensar, ao esvaziamento de sentido das relações. Há durante toda a trama uma produção de sentido dentre tal ausência que resulta em uma produção de presença. O movimento de retirada da personagem e a percepção disso pelos outros, configura o deslocamento de um objeto que, por ser percebido e causar a ausência, é colocado na posição de matéria (ou seja, resulta em presença). O mesmo efeito pode-se notar com a personagem Jingle Jangle do livro/filme/movimento Os famosos e os duendes da morte, de Ismael Caneppele e Esmir Filho. Os personagens vivem tentando se equilibrar no mundo após a morte da protagonista. A não aceitação desse fato e a procura do sentido são as responsáveis pela bela frase (clichê do filme): “Estar perto não é físico”. E a produção de presença atinge um limite que ultrapassa o livro ou o filme, mas chega até nós, seja pelo flickr ou pelo canal do youtube de Jingle Jangle.

Jingle Jangle, a personagem ausente de Os famosos e os duendes da morte

Jingle Jangle, a personagem ausente de Os famosos e os duendes da morte

O que move a constituição dessas tramas não é, portanto, uma presença, mas o sentimento da falta. As personagens, mesmo ausentes, continuam ali, porque fazem parte não da trama, mas da história. E aí vem a parte mais interessante: como fazer com que os outros personagens sejam responsáveis por construir este protagonista? Aí entra meu fascínio, o escritor se coloca num jogo em que deve dividir a autoria de um personagem a outros criados por ele mesmo. Desse modo, a personagem ausente, nada mais é do que um personagem, dentro da própria narrativa. Quase um personagem dentro do personagem. Confiamos não nele, mas nos papéis que deixou para trás, nas fotografias em que ele aparece, no livro que ele sublinhou e na presença que ele tem sobre os outros personagens.

É perceptível que esse meu fascínio não é assim tão simples e vai muito além da passividade de observar um personagem moldando o outro. Nós, leitores, entramos nesse jogo, tomando parte da falta e construindo, também, essa presença na ausência. 

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