Esc #20 – Entre quatro paredes

Um papo sobre quartos

 

por Otávio Campos

Acredito que uma das partes mais difíceis em uma mudança é “desmontar” o quarto e erguê-lo de novo em outro ambiente. Como estou às vésperas de uma mudança, comecei a pensar hoje no que fazer com as coisas do meu quarto. Ter que encaixotar os milhares de livros, separar as fotos, arrumar as roupas e, claro, deixar para trás o que já não é mais útil. Pensando nisso, passei a observar mais atentamente o meu quarto e percebi que, de alguma forma, as coisas que eu vim jogando nele durante esses dois anos que estou aqui, se encaixam e possuem uma harmonia engraçada – como um prato verde sobre minha caixa da Tropicália, na frente do meu mural de fotos, que, por sua vez, fica do lado de uma caixa de sapatos, na qual está o LP do Chico sobre e serve de apoio para alguns livros, tudo isso em cima da minha escrivaninha. O resultado é uma bagunça um painel das minhas influências, que se estende pelos demais cantos do pequeno cômodo.  Agora eu já não sei se as coisas que faço e escrevo são reflexo do meu quarto ou se são refletidas na concepção deste.

Nessa perspectiva, passei a analisar, a caráter de curiosidade apenas, os quartos de alguns escritores famosos e vi que o espaço coincidia na maioria das vezes com as obras literárias dos autores. Vejamos só: Virginia Woolf possuía uma quarto que mesclava elementos de “classe”, como uma lareira, com alguns tantos mais “despojados”. Além disso, é cheio de detalhes, com vários livros que a autora encapou com papéis coloridos.

Algumas pessoas afirmam que o quarto de Alexander Masters reflete seu processo de produção. O autor acordava e já começava a escrever. O crocodilo sobre sua cama, além de ser um talismã, serviu para ilustrar a capa de seu livro Stuart: uma vida revista.

O quarto de Henry David Thoreau reflete a mesma humildade simplicidade presentes em seu livro Walden.

Em contraponto, temos esse quarto luxoso, com um vermelho quente e tons escuros, que só podia pertencer a Victor Hugo, claramente influenciado pelo Romantismo.

Por último, tem esse quarto simples que pede um aconchego, do Mário Quintana.

Enquanto procurava por essas coisas, encontrei o site Writers’ House, que mostra não apenas o quarto, mas a casa toda de diversos escritores, desde Agatha Christie a Fernando Pessoa.

Bom, a dúvida continua a mesma: o quarto influencia na escrita ou a escrita influencia no quarto? Creio que na segunda começo a colocar as minhas coisas nas caixas e desmontar esse meu retrato que veio se formando nesses anos. A forma que ele vai tomar na minha casa nova pode ser bem parecida com essa ou destoar totalmente. Não sei, mas acho que observando a concepção do meu “lar” desde o início posso encontrar essa resposta. Quem sabe, ficar dormindo com um olho aberto e perceber as coisas, magicamente, se encaixando e reconstruindo o painel.

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