Esc #19 – Pequena carta geográfica

por Frederico Spada Silva

Pode haver
um ponto de partida.
Um epicentro de onde
soe
alguma palavra exata. (…)

(Ronald Polito, “Encruzilhada”)

Há geografias que se pisam e outras que se sentem, uma geografia afetiva que se escreve sobre a própria pele, cartografia de desejos e descobertas, caligrafia de memórias e sensações – acessíveis pelo tato, pelos poros, pelo olho armado. O atlas anatômico não contempla o inexato arquivo da vivência; a geometria espacial não encontra o ponto alheio a planos e equações; os guias ilustrados não são diferentes de catálogos museológicos. A memória, enfim, é texto que se escreve sobre linhas que se vão apagando à medida que o novo ocupa seus vazios.

Tal qual o corpo, a cidade também (se) escreve, e (se) inscreve em nós. Andar por suas ruas, quer de maneira apressada, como o comum dos dias há muito nos obriga, quer de maneira irresponsável, desobrigação contemplativa hoje tão rara, aguça-nos os olhares e a memória, revela-nos surpresas, suspiros e dissabores. O ponto de partida, a página em que se perde, a se apagar, a caligrafia da memória, pode ser uma rua da infância, passeios familiares ou um local de trabalho: seja como for, é também na palavra, e não apenas em imagens e outras reminiscências, que se inaugura, pois que a geografia a que nos referimos, mais do que física e sensorial, é também nomeadora.

As ruas de Juiz de Fora, assim, desenham também contornos outros, distintos destes que ora enfrentamos, avessos a suas identidades; traçados que nos guiam a outros destinos, a que só chegamos por uma memória simultaneamente afetiva e literária.

Avistemos o Morro do Imperador, “pompeando em aleias de bambus!/ Vertiginando caminhos!” e, “longe, Mariano Procópio das paralelas!/ Reticenciando em dormentes!/ E o Parque do Museu/ tropicalíssimo!”. E sigamos ainda com Austen Amaro, deixando este “bairro proletário” rumo à “Rua do Espírito Santo!/ rampando certa/ retilínea!/ de vivendas florindo entre grades boas de se ver!”. E a “Rua linda de Santo Antônio!/ com árvores redondas! De brinquedo! (…)// Casas adolescendo na indeterminação mesclada dos estilos!”. “E os teus poetas, Juiz de Fora?! (…)/ Cantando a poesia que impulsiona o teu pulsar!/ Cantando o latejar metalizado/ das tuas polias estalantes!/ Cantores/ da tua verdade cotidiana!”

Então o poeta menino, Murilo Monteiro Mendes, em suas reminiscências, faz seu footing na rua Halfeld, “uma reta muito comprida, começando às margens do Paraibuna e terminando na Academia de Comércio [e em cujos] dois lados levantam-se casas, sobressaindo (…) a Livraria Editora Dias Cardoso (…) e a Casa da América, sortida com uma infinidade de objetos e instrumentos de toda a espécie; delícia e terror, pois entre eles torqueses, serrotes, martelos, tenazes, tesouras, alicates”. Pela cidade cercada de pianos por todos os lados, os olhos e ouvidos armados rastreiam “donas de olhos, boca e outras delícias vedadas aos menores de 17 anos (…), um cachorro morrendo no meio dos vivos e um cego caminhando no meio dos videntes (…) as sirenes das fábricas apitando para o almoço”.

Avançando no tempo, deixemos os ruídos das fábricas; uma viagem outra, em nada silenciosa, nos aguarda, “viagem [que] feita zera as por fazer, que uma/ são todas”: o Shangai para na estação, “passageiro e passagem/ soletram a poeira rentes”. Deixada a estação, Edimilson de Almeida Pereira nos leva a uma aguardada sessão da Neo-Carriço Films, memória magnética da cidade vanguardista que só em projeções existe – e persiste: à Av. Getúlio Vargas “todos os meios-dias desceram”, na birosca do luxo “os meninos parecem/ emissários leais”, enquanto na pastelaria do China “o balcão nos olha”.

A Juiz de Fora de hoje engole e regurgita a do passado. Digerir a cidade, suas ruas, galerias, avenidas, casas, prédios e habitantes, cabe apenas à memória. Virar as páginas como a virar suas esquinas, folhear suas muitas camadas de tinta e asfalto, penetrando fundo em sua história e reavivando as lembranças, é saber lê-la com os olhos armados e preparar-se para um novo Caminho Novo.

JUIZ DE FORA

(Edimilson de Almeida Pereira)

Nomeação feita pelo rio
em sua passagem passa.
Tem duração leve
a que não é mala

O nomeado permanece
sem nome se organiza.
Lembra sequer o rio
a origem de sua marca.

E o que nomeou antes
segue seu ofício.
Procura nomeando
a regra que o explique.

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Frederico Spada Silva há 29 anos se perde entre lembranças, mapas e lugares inventados, nem todos de Juiz de Fora.

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– Confira as outras colunas da Escoliose de Outubro:

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