Esc #17 – [Maria Amélia – Bibliotecária]

Querida Maria Amélia,

Ainda não entendo como você conseguia manter sua cara de estante vazia enquanto ficava sentada na biblioteca do colégio. O frame ainda permanece na memória: você, inerte, à frente uma plaqueta – “Maria Amélia – Bibliotecária” – e, atrás, o porta-retrato com a foto em sépia que dava nome à escola: Cosette de Alencar. E insisto: havia mais vazio no seu rosto do que nas salas de aula em véspera de feriado prolongado. Não entendo.

O trabalho, pra você, não devia ser de fato muito gratificante: ficar oito horas sentada, todo dia, tendo que manter sua cara de estante (vazia), e ainda por cima precisar levantar da cadeira pra buscar o caderno de registros, quando alguma criança decidia levar um dos livros pra casa. Complicado, Maria. Complicado. E você não lia, nem pra passar fazer passar o tempo. Milhares de livros te sufocando (você resmungava) e você não lia nenhum.

Íamos pouco à biblioteca, é verdade. Primeiro porque não nos deixavam ir sozinhos (ler é de fato muito perigoso, até hoje) e só nos mandavam pra lá quando precisávamos ficar de castigo, ou quando algum professor faltava, ou nas aulas de leitura – que, te falo: de leitura nada tinham, porque ficávamos (eu e alguns) tão absortos com os livros que só conseguíamos folhear, ansiosos, ofegantes, infantis.

E hoje te digo, Maria. Dez anos depois. Hoje te digo porque os livros sumiam tanto: nós roubávamos. Isso mesmo. Roubávamos vários. Muitos. Deixávamos as estantes vazias como sua cara. Contos Grimm? Tão aqui em casa. Coleção Vaga-lume? Metade aqui e metade com o Felipe. Sem Família, do Hector Malot? Mudou minha vida, mas só depois de passar uma boa temporada na minha estante. E vários outros, Maria. Vários. E rodam por aí até hoje, mas não são mais sugados pelo seu vazio que sufoca (concluo).

Mas olha, lembrei de uma coisa – e fica calma porque prometo não contar pra ninguém -: um dia, quando saí da aula da tia Carmen pra beber água, passei pela biblioteca (não era caminho, mas a aula dela era chatísssima) e te vi, Maria, te vi lendo um livro. E pode ter sido minha fome (era quase a hora do intervalo), pode ter sido o óculos que eu não sabia que precisava usar, mas eu vi outra coisa, Maria, eu te vi sorrindo. Mas foi um riso duro, é. Um riso, assim, um riso sépia, feito a foto da Cosette atrás de você. Mas foi um riso, Maria. Foi um riso.

Daí eu penso: vai ver que sua frieza, sua inércia de cara, era tudo medo da gente; era tudo porque você não sabia o que fazer com aquilo tudo envolta (que sufoca, sim, a literatura ainda sufoca a gente), e principalmente: não sabia o que fazer com nossos olhos nada vazios, nada inertes, nada nada. Era seu desespero que te paralizava. Mas não se preocupe: o que você não fez nós fizemos: pegamos (e não devolvemos) o máximo que pudíamos, e fizemos rodar por aí. Preenchemos os vazios. E fizemos Marias, Amélias, Cosettes e Alencares deixarem sair um riso que, mesmo frouxo, mesmo sépia, mesmo duro, mesmo falso, foi um riso. Um riso a mais.

Assinado,

Danilo Lovisi

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Um comentário em “Esc #17 – [Maria Amélia – Bibliotecária]

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