Se dissesse as palavras certas – uma resenha de palavras opacas

Mesclando simbologias de senso-comum (ou de mitos clássicos) e definições presentes no Dicionário de Símbolos, de Herder Lexikon, pode-se dizer que o objeto espelho costuma estar relacionado com o autoconhecimento, o saber, a consciência, ou até mesmo – na mitologia cristã – com Deus (devido ao reflexo perfeito; à pureza da criação). Em Antes que os espelhos se tornem opacos (Dublinense, 2012) de Juarez Guedes Cruz, encontra-se, talvez, uma apropriação desconstrutiva desses simbolismos. Em seu conjunto de 22 contos, o autor (des)constrói não exatamente narrativas, mas ideias em texto, descrições de personagens e seus pensamentos; o fragmentário da literatura contemporânea se faz presente no que diz respeito à textos que se dão por reflexões de momentos, não exatamente na apresentação dos momentos em si. Estes que tratam, além de outros temas (ou, no caso, temáticas) da solidão consentida do homem, do “sofrimento com hora marcada”, do ruir dos sonhos, da dor perpassada pelo sangue da família, e da repetição: do mundo que se repete; dos sons que se repetem; da vida que se repete. Mas será mesmo, sempre, apenas repetição? Ou é nosso olhar viciado que organiza tudo em gavetas já etiquetadas, repetidas? 

Logo no primeiro conto, “Estender-se a limites incomuns”, que inicia com a descrição de um rosto – provavelmente refletido – “um rosto, pouco mais que banal” (p. 7), temos o que poderia ser a chave da obra, quando se lê o trecho “pois, aqui, é somente um território escrito, e este mundo irá se desfazer quando for registrada a frase mesmo que alguém diga que se conto o que, a rigor, não precisaria ser contado” (p. 11-12). Ora, se há na abertura do conjunto de contos uma sentença que enfoca não na criação imaginativa das narrativas, mas num território escrito que se desfaz enquanto se faz, o que resta é, então, prosseguir nessa leitura tendo em mente esse piso instável da criação textual, sempre exposta pelo autor em diversos outros contos (questão essa, a da insistente exposição do estar criando, que é por vezes válida mas chega, em alguns contos, na repetição massante, no excesso de exposições metalinguísticas).

Continuando no que concerne a repetição, pode-se comentar o conto “Tango” que, baseando-se no embalo da dança, no ritmo dos passos, nos desencontros – tudo reverberação de uma repetição imagética e física – há a mescla da também repetitiva solidão humana, metaforizada por um homem que projeta (repete) a imagem de uma mulher na parede nua de seu quarto, uma mulher sempre ausente (fisicamente), mas presente, sempre presente, num doloroso embalo de saudade.

Em “Terrenos Baldios” encontra-se outro viés da repetição, de cunho mais metafísico e reflexivo, que é o das (quase) infinitas possibilidades de encontro, físico ou não, entre pessoas ou não. Um casal que vive há mais de vinte anos na mesma casa se encontra, dentro dela, de um jeito que não acontecia há anos. Aquele instante; espaço temporal e geográfico, é novo mas ao mesmo tempo já visto, revisto. O subir e descer da escada é repassado em flashs, que de intervalo em intervalo produzem novas possibilidades, até se esgotarem na indiferença; no continuar da rotina, na automatização de impulsionar o corpo nos degraus de uma escada já velha, conhecida. Porém, “alguns chamam baldios esses terrenos onde poderiam ser construídas casas nas quais, logo após o último degrau, mais cedo ou mais tarde, Matias encontraria Cristina. E já nem saberia se e quando amor, ou ódio ou indiferença. (…) Porque, nesse terreno, não aconteceu casa alguma e o local continuou sendo, apenas, uma possibilidade no centro do universo.” (p. 51)

Mas não é justo – como também não é justo apresentar esta resenha sem trazer os elementos citados anteriormente – deixar de dar enfoque aos highlights da obra ou, aproveitando os simbolismos do título, os reflexos menos opacos, começando pelo conto “Se dissesse as palavras certas”, que, já na sua forma, traz elementos diferenciados, pois é apresentado na forma de um relatório policial que descreve como foi encontrado o corpo de um escritor morto, e trazendo, também, excertos de seu diário, encontrado no mesmo local. É nesse momento, quando emula a literatura – na necessidade de ter de criar anotações de um escritor fictício – que Juarez tem seu ponto alto, ou, aproveitando do título do conto, esse é o ponto que o autor usa das palavras certas. Mas, todavia, porém, contudo, entretanto, fica aqui reflexão: se um dos poucos (porém válidos) pontos altos de uma obra literária se dá justamente quando esta emula uma outra obra, seria esse ponto, de fato, válido de aplauso?

Deixando de lado as inquietações críticas, chega-se ao segundo ponto menos opaco, que é o conto responsável por dar título ao livro. Mas antes de tecer um comentário sobre ele, é interessante focar na epígrafe presente no mesmo, que se refere ao conto “Continuidade dos parques”, de Júlio Cortázar. O conto do escritor argentino traz, como o título sugere, o elemento da continuidade e da tão falada repetição. Porém constrói esse pensamento de forma impressionante, que você pode ler aqui. O texto de Juarez é um texto curto que, em resumidas palavras, fala da dor, mas uma dor perene, consentida, uma dor contínua não apenas no tempo de uma vida humana, mas na espinha dorsal da hierarquia de uma família. Uma dor que foi e deve ser passada de geração em geração.

Respondidas ou não, as questões que a obra instiga se mantém, sendo o presente texto apenas um dos vários reflexos (opacos ou não) que ela pode promover. Mas que os espelhos (e suas simbologias) estão, de fato, se tornando embaçadas, é uma observação pertinente. Que o livro deu conta disso – sendo esse ou não seu objetivo – é uma afirmação (ou negação) a ser pensada com mais cuidado. Mas, atingindo ou não seu reflexo mais limpo, há um trecho no conto “Um poema na sua ausência” que consegue, calmamente, aquietar os possíveis (e passados) leitores de Antes que os espelhos se tornem opacos, de Juarez Guedes Cruz, postulando que essa é (ou foi) “apenas mais uma vez, entre inúmeras outras, em que fracassamos ao tentar dizer, pintar, escrever o que queremos e ficamos limitados a dizer, pintar escrever o que se pode”. E é talvez assim, nessa repetição de espelhos, que se mantém a literatura.

por Danilo Lovisi

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2 comentários em “Se dissesse as palavras certas – uma resenha de palavras opacas

  1. Muito inspirador e inteligente esse texto. Gostei

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