Esc #16 – Ars Oratoria

ou Azul teu cu

por  Otávio Campos

“Citando Lucas Viriato, que citou Chacal: ‘A tecnologia sempre está à nossa frente ou atrás da gente, nunca do nosso lado’”. E assim começou o microfone aberto do Eco Performances Poéticas de ontem. Em cima do palco estava este humilde colunista, com todos os problemas de oratória que um ser humano pode enfrentar, pedindo desculpas às cem pessoas atentas, espalhadas nas simpáticas mesinhas do Mezcla, pelo problema com o data show.

Há aproximadamente um ano, sentávamos na cantina da Faculdade de Letras, eu, Danilo e Tassiana, discutindo de que forma exportar para fora das barreiras da academia a literatura que vinha sendo produzida ali dentro, sem grandes dimensões, restritas a leitores de sala de aula e centro acadêmico. Com mais alguns encontros chegamos à conclusão de que poderíamos fazer circular em uma folha A4 cinco poemas, um desenho e um conto. Colocamos algumas coisas nossas e convidamos uns amigos para aquela que seria a primeira edição da Um Conto – Revista de Literatura. Desde então, fomos recebendo colaborações de todos os lugares do Brasil, de pessoas na nossa mesma situação, esperançosas agora por encontrar um veículo de publicação sem depender do grande mercado editorial.  Blá blá blá, papo chato de sempre, que vocês, acostumados a frequentar aqui, já devem estar cansados de ouvir. O que hoje vim falar não é sobre o zine, muito menos da “nova” literatura, mas sim de festa. Mais especificamente, sobre a festa que rolou ontem. Para que esta coluna não vire bagunça, acho que devemos colocar uns conceitos mais requintados, para dar um certo ar intelectual, por isso a gente finge que vou me centrar aqui na questão da oratória, ou seja, da Ars Oratória.

1. Inventio:

O evento estava marcado para as oito. Por mais que fôssemos convidados, o bom senso nos indicava que deveríamos chegar mais cedo, pois teríamos que “preparar” algumas coisas para nossas apresentações. Eu, com toda minha pontualidade britânica, só consegui sair de casa às oito e quinze. Felizmente agradeço ao milagroso trânsito de Juiz de Fora que me permitiu chegar ao Mezcla às oito e meia.

Não sei se todos estão sabendo, mas fizemos uma campanha pedindo a todos os nossos oitenta e poucos colaboradores desse um ano que nos mandasse um vídeo recitando o poema/conto que foi publicado. Alguns deles mandaram e fizemos um vídeo lindo que seria passado no fim da nossa apresentação. Enfim, ao chegar, fiquei sabendo que estava tudo certo com o vídeo, que não precisava da minha preocupação.

2. Dispositio:

Entraríamos logo após a bela Carolina Barreto, que lançava seu livro Voragens no evento. A casa começava a encher e minhas mãos a suar. Ficou decidido que eu leria um conto publicado na nossa segunda edição, “Signo”, da Joyce Scoralick. Eu, como aluno dedicado, tinha ensaiado durante toda a semana a leitura, mas ainda existiam aquelas palavras decididas a me fazer tropeçar na fala. Nossa ideia inicial era fazer uma performance poética, dando jus ao momento, mas como todas as ideias que vinham à nossa (minha) mente envolviam, de alguma forma, tirar a roupa, optamos por cada um ler o texto que mais chamou sua atenção durante as publicações da revista.

Algumas cervejas (para tirar o nervosismo), gravatas borboletas (para o baile de gala), gente bacana que não parava de chegar, de todos os lugares (como o amigo Lucas Viriato que veio de “longe” para nos ver). O Eco tomava seu formato de sempre, com a diferença que a noite ontem era nossa (não muito diferente das outras).

3. Elocutio:

Por volta de nove e meia, Anelise Freitas foi ao microfone e nos chamou “Vem que a festa é de vocês, Um Conto”. Fomos. E eu já nem via nada. Fui o primeiro a subir, com a cerveja na mão e uma ideia na cabeça. Olhos atentos. Assim estava combinado: eu, Tassiana e Danilo, cada um com sua performance, sem olhar pro lado, chegar e falar no microfone, com se não houvesse público, como se não precisasse de explicação. No final tudo de esclareceria.

O negócio começou a ir pro lado errado quando minha cerveja caiu da cadeira, entornando sobre o palco, fazendo com que a plateia me apontasse e eu precisasse interagir com eles, saindo da minha persona. Mas não houve abalo sísmico. Comecei: arcabouços teóricos, epistemas, ser pós-moderno e nunca esquecer Nietzsche (claro), e que a ferroada do escorpião cai sempre, sempre sobre seu próprio lombo. Tassiana: baleia, rabo de baleia, sala. Por fim, Danilo, e uma das apresentações mais lindas da noite. Enquanto ele lia trechos da “Carta à Nova Iorque”, em alguns pontos era acompanhado pela bela voz da autora Letícia Simões, que invadia o Mezcla e fazia com que as pessoas olhassem para todos os cantos para saber de onde estava vindo, mesmo que o som estivesse um pouquinho baixo e em algumas partes não desse para entender o que ela estava falando.

Fim. Agora estava livre. Nos apresentamos, contamos da performance e anunciamos o vídeo, com uma colcha de retalhos dos colaboradores, misturando sotaques e swings do Brasil.

4. Memoria:

Sim, o vídeo. O vídeo dos colaboradores. Vai começar. O vídeo. Mas cadê o vídeo? Silêncio. Maldita tecnologia! Mas o data show não estava funcionando? É pilha? Tenta outro computador. E eu já sentia os pés batendo no chão. Toda aquelas pessoas, que, por instantes estavam entusiasmadas agora batucavam a unha na mesa, esperando, esperando, entediadas. Sorte que tinha os vinis do Pedro e as poesias da Anelise. Quando vimos que não tinha jeito mesmo, abrimos o intervalo. Estava tudo perdido até que: tcharã! A imagem aparece, como se nada tivesse acontecido. Mas todo mundo agora estava lá fora, fumando um cigarro, bebericando uma cerveja, e o data show esquentando. Maldita tecnologia! Mande trazer todos. E vieram a seu tempo, alguns já trôpegos, e curtiram, de longe, essa literatura que veio em bits de partes distintas. Aplausos.

5. Pronunciatio:

Éramos nós e o teor alcoólico um tanto avançado. Eis que me convidam para apresentar o clássico microfone aberto. Para os que não sabem, essa é a parte em que qualquer um do evento pode subir ao palco e dizer o que vem na telha (na verdade, é pra ler poesia, mas essa não era uma noite convencional). E fui. Meu espírito de stand up comedy falou mais alto (ou foi a cerveja?). Iniciei com um poema do Lucas Viriato que era, não sei o motivo, a atração da noite, por mais que eu tenha insistido no microfone que a noite era minha, a festa era minha. Convidei para subir ao palco aqueles que tinham se inscrito, e o resultado foram performances incríveis, passando pelo nosso colaborador do mês Alexandre Faria, pelo Lucas, que me deu uma rosa para completar o look, por pessoas descamisadas, declarações de amor e produções feitas ali, na hora, no calor da poesia.

Desde a primeira vez que eu subi no palco naquela noite, fiquei pensando “será que as pessoas realmente entendem o que é dito ali em cima?”. Digo, será que todas as palavras jogadas ali em cima são assimiladas da maneira que devem ser? Ou será que a poesia se perde no ar e o ato de proferi-la em um ambiente aberto faz com que ela se desfaça? Minha teoria é que apenas algumas palavras ficam, aquelas que arrancam aplausos, que fazem as pessoas rirem e, nessa altura, nesse espaço, acho que essas palavras que despertam a atenção são apenas as de mais baixo calão, como “cu”. Mesmo o mais bêbado e sonolento da plateia, ao ouvir um “cu” bem pronunciado, balança o corpo na cadeira, nem que seja envergonhado. Tá, eu não disse “cu”, porque, na verdade, acredito que a poesia existe sim, na vida, no ar. Mesmo que quando subimos no palco ela, de alguma forma se perca, vira outra coisa. Sai do papel, correndo e se mistura à microfonia, às vozes, aos gritos, às chamadas do garçom. A poesia estava lá, presente em todos os cantos, respirada por aquelas cem cabeças (e o “cu” também, que não deixa de ser poesia).

Para terminar, me despedia, extasiado, emocionado, crente no poder transformador da palavra e da literatura (ou seria da cerveja?). Mas, como eu disse, não era uma noite comum, ou era, não sei, e, para despertar aquele cara dormindo na arquibancada, fechei com versos do Poema sujo, do Gullar: “Azul era o gato/ azul era o galo/ azul o cavalo/ azul…”, e não veio de mim o “cu”, mas de um coro forte de vozes, subvertendo o caminho da minha teoria. Maldita tecnologia!

PS.: Nunca confunda oratória com retórica. Hoje pode, já que não é uma noite convencional.

Anúncios

3 comentários em “Esc #16 – Ars Oratoria

  1. Pamella Oliveira disse:

    Fui fraca, perdi a noite de vocês. Adorei o texto e fico feliz que tenham chegado a um ano, esperando mais muitos e muitos anos de poesia, que é o que vocês fazem com “cu” ou sem.

  2. Anna Duzzi disse:

    Maravilha de texto.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s