Esc #11 – uma coluna

COMO SE POESIA NÃO FOSSE MÚSICA, E MÚSICA NÃO FOSSE LITERATURA

por Tassiana Frank

Dois meses. Rio, Saquarema, Rio, Paraty, Teofilo Otoni, Rio, Rio, Rio. Não venho aqui falar sobre estradas, cidades, cheiros ou gostos (deixo claro que eu gostaria), mas venho falar sobre música. Pop, rock, funk, jazz, samba, pagode, sertanejo, blues. Aonde eu quero chegar com tudo isso? Nas letras. Por musica, chamamos tudo aquilo que embala as vidas por sua presença continua, por seus ritmos diferentes e por suas letras marcantes. Letras marcantes?

Sim e não e depende. Achei engraçado um discurso que numa dessas escutei: “Sou restritivo quanto a música. Acho funk a escória da humanidade. Não pode ser chamado de música. Sertanejo? As letras são mais xulas que as do funk. Pagode eu não aguento é so um ai ai ai, assim você me mata… Não sei dizer se é sertanejo, pagode ou funk, parece um ‘Movimento Corrompe Geração’. Jazz é tipo musica instrumental, me dá sono, sabe? Você confunde o nome dos caras e, no fim, é tudo igual. Um americano típico, uma variação de Sinatra ou de Armstrong. Blues é aquela coisa que depende de uma garrafa de whisky pra você curtir, sabe como é, né? Eu sou um brasileiro típico. Se é pra escutar, que seja chorinho. Se é pra dançar, que seja com um samba do Noel! E se for pra chorar, que seja ouvindo Tom, Vinícius, Chico ou Toquinho. Isso sim é musica de verdade.” Então você gosta de poesia? “Não muito. Acho uma coisa muito abstrata, complicada, entende? Ninguém gosta mas fala que gosta porque senão é tachado de insensível ou de ignorante.”

A graça: a pessoa que abomina o funk é a mesma que desce até o chão, que escuta pagode enquanto lava o carro e que conhece todos os sertanejos que tocam na Itatiaia. Como viu sempre presente o rosto de Sinatra e Armstrong, nunca vai se esquecer do rosto, mas nunca vai saber que o Sinatra era so intérprete e que o Armstrong não é parente do primeiro cara que pisou na lua. E essa história de típico brasileiro que valoriza o produto nacional é uma grande desculpa para falar com propriedade daquilo que desconhece. Mas pior que não reconhecer que cada música pertence – por mais que não seja a sua favorita – a um momento da sua vida (ou a vários, como quando quebrei o braço com oito anos e estava tocando: “se ela é um morango aqui do Nordeste” e sempre que falam do braço, lá vem ela, mesmo quatorze anos depois) independente da letra, do cantor ou do estilo, é não perceber que a sua mísica favorita (grifo em música favorita) pode ser uma das mais belas poesias de todos os tempos.

Vou te contar
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho… (Jobim, Tom; Wave)

E agora, depois de relembrar não so o diálogo mas o cotidiano, agradeço a você que pacientemente leu o que eu escrevi. Não é poema, então não é complicado. Mas é grande e muitas letras agrupadas são muitas palavras e demandam tempo. E tempo é dinheiro. Então, eu deveria ter cantado e assim teria sido mais escutada, já que ser lido é complicado e ser ouvido depende do estilo musical. E pra ser literatura? Só se não for grande ou se não for poesia, porque poesia não é musica e musica não é literatura.

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Um comentário em “Esc #11 – uma coluna

  1. […] #11: Como se poesia não fosse música, e música não fosse literatura, por Tassiana Frank Um Conto. Um Clique.Gostar disso:GosteiSeja o primeiro a gostar disso. This […]

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