Escoliose #8 – uma coluna

CARTA A NOVA YORK

por Letícia Simões*

minha amada,

não sei se te contei, mas estou me mudando do rio de janeiro para são paulo. e da mesma forma como fiz quando saí da bahia, agora me despeço da ilha de são sebastião em grande estilo: fugindo. (como você bem sabe, as fugas são sempre necessárias).

explico-me: entrei num carro e decidi descortinar a pequena ilha, tendo como único critério parar apenas em cidades com menos de vinte habitantes. cidades, não: sítios onde pousar a cabeça (e onde o coração, bem perto, vagueia).

daqui de morro azul, essa cidade que me congelou os ossos, ouço caetano e penso nos seus cavalos. (pois que as suas perguntas são sempre indóceis e quase nunca me encaram de frente. assim, como quem diz – bem, você sabe o que elas querem dizer).

– aliás, antes de qualquer coisa, bote o araçá azul, o disco de caetano de setenta e três e acenda um cigarro para começarmos o trajeto –

a primeira parada foi em ferreiros, cidade estacionada em mil novecentos e cinqüenta e dois, a uma e meia da tarde. seria quase possível dizer que, estando-se muito quieto, poderíamos ouvir o silêncio das primeiras palavras. há uma praça, quatro árvores, dois postes, uma igreja e um armazém. uma casa amarela, uma verde e na azul há flores nas janelas. também há um trenzinho (com capacidade para três), parado na varanda da casa verde. disse-me o dono do armazém – com uma breve mágoa à flor dos olhos: grande pena o trem estar parado; a senhora adoraria viajar nele.

 – talvez por ter voltado a fumar, talvez culpa dessa adquirida obsessão pelo pina (esse português que me secou as palavras), creio que na corrida de obstáculos, tenho-me saído bem esse ano. mas você insiste na pergunta: como prosseguir sem medo? –

ainda ontem estive na broadway. atravessa-se uma ponte lilás, cruza-se o banalidades (para almoço e janta) e de repente estás de frente para o rio, em uma praça que poderia ser uma praça qualquer, em uma cidade que poderia ser uma cidade qualquer – não fosse um senhor vendendo bizarros palhaços que explodem em bolhas de sabão. rir do amarelo e do azul, do branco e do azul, do coração e do azul.

– outro dia, um delicado amigo disse-me que carrego uma agonia na pele. como se ardesse ser eu. por conta dessa dita ‘agonia’, nunca estou em lugar algum, ele teoriza. sempre escorrendo pelos cantos, arrefecendo, olhando para as esquerdas. condiz com o diagnóstico do homeopata: desconforto provocado por desequílbrio marinho. me receitou um sal. então talvez seja mesmo falta de mar, penso cá com meus botões –

“a realidade é uma hipótese repugnante”. mastigo esse verso português há doze dias. talvez nele more a resposta para a sua inevitável (e já assombrosa) pergunta. respirar fundo, agarrar-se às gaivotas, aplainar um azul – todas essas metáforas baratas talvez fossem soluções (mas a curtíssimo prazo). estou também assustada e seguro-me às palavras minha querida. mas as palavras depõem contra o coração, que já não mais quer escutar nada.

– olhe: somos instantes. –

o que posso te dizer, então, agora, sim, com suficiente certeza: ali, na esquina da miracema com a hollywood, chegando bem perto da fronteira da ilha de são sebastião com o reino das gerais, há um senhor que vende cadeiras com vistas para o mar. mas de onde partem essas ondas, você me pergunta.

– aqui, ele explicou, ainda estamos na parte do rio. mais à frente, a água esverdeará para o mar. eu vendo a vista pro futuro.

e quem vai dizer que não.

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*Letícia Simões nasceu em Salvador, em 1988. Formou-se em Comunicação na PUC-Rio e estudou Cinema e Artes Plásticas na University of London. Nos últimos anos, trabalhou como produtora, roteirista e assistente de direção em diversas produtoras. Em 2011, publicou o livro de poemas “Pessoas de quem roubei frases” pela Editora 7 Letras. No mesmo ano, dirigiu seu primeiro longa-metragem, o documentário “Bruta Aventura em Versos”, selecionado para o Festival do Rio de Janeiro, a Mostra de Cinema de São Paulo e a Mostra de Cinema de Tiradentes. Atualmente, trabalha com desenvolvimento de projetos e assistência de direção e está em fase de pré-produção de seu segundo longa-metragem, “Tudo vai ficar da cor que você quiser”, sobre o escritor Rodrigo de Souza Leão.

– Confira as outras colunas da Escoliose de Julho:

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Um comentário em “Escoliose #8 – uma coluna

  1. nelson disse:

    Agora entendo porque demorei te achar….fostes fugida encontrar aquilo que desejas na realidade dos instantes….bom me perder nas quebradas de seu conto quase futuro a vista….
    beijos
    Nelson

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