Sob o céu de agosto: uma resenha ou um breve retrato da literatura contemporânea

Há algum tempo que venho observando de que maneira a literatura contemporânea brasileira (para ser mais exato, a literatura contemporânea urbana brasileira) vem se repetindo. Em uma infinidade de livros e autores (como Marçal Aquino, Lourenço Mutarelli, Daniel Galera e Patrícia Melo) há temas que são recorrentes e, de certa maneira, cruelmente presentes, dentre eles estão o problema com o casamento, o envolvimento em algum tipo de “crime”, problemas com trabalho, inquietações psicológicas, a confusão do eu com a cidade e, obviamente, a solidão. Posteriormente, gostaria de fazer um estudo mais aprofundado nesse tema, apesar de já ter encontrado algumas respostas que soam como “confortáveis” no momento. A atual cultura urbana brasileira se reflete quase que exclusivamente nestes pontos, os quais não poderiam, obviamente, deixar de conduzir a veia narrativa dos que estão imersos nesse mundo.Porém, como era de se esperar, os romances começaram a ficar repetitivos e a solução de encontrar o “novo” foi não mexer no tema, mas sim na forma.

O gaúcho Gustavo Machado sem dúvida é um reflexo da nova tendência literária, conforme pode-se constatar com seu primeiro romance, Sob o céu de agosto (Dublinense, 2010). Algo que visivelmente se destaca no texto de Machado é a presença de duas narrativas: num primeiro momento, somos apresentados a Otto, artista plástico, 35 anos, narrador. O protagonista, ainda com cacos nos olhos, descreve a cela carcerária na qual se encontra e o policial que o observa e o pede para narrar o que realmente aconteceu, já que está sendo acusado de duplo homicídio e, por ter influentes amigos na política, possivelmente será posto em liberdade. A segunda narrativa, iniciada a partir do segundo capítulo, começa justamente daí – é o mesmo narrador, porém o foco narrativo é outro: os eventos que antecedem o capítulo inicial do livro; outro também é o destinatário da narrativa que, apesar de o leitor se desfrutar desses fatos, não deve se esquecer de que os mesmos são cuidadosamente preparados para o conhecimento do oficial, que deve ser convencido de que Otto não é o culpado dos crimes. As narrativas “distintas” caminham inicialmente separadas por capítulos, sendo fácil percebe qual número precede a cada. Mais adiante, o policial interrompe a fala do narrador dentro de um capítulo destinado à história de Otto e já no capítulo 19 (dos 21 do livro) as duas narrativas se encontram, visto que o tempo passa a ser o mesmo. Com o encontro do tempo apenas no fim do livro, percebe-se que logo de cara encontraremos desde o início o final da história, mas realmente isso é o que pouco importa. Somos tentados a descobrir o que Otto faz na delegacia, e quem são os personagens que ele supostamente matou.

Pintor solitário, Otto vive em um apartamento no que parece ser a região urbana de Porto Alegre. Já há muito desempregado, recebe um telefonema do amigo Teo, oferecendo-o um emprego. Como professor de pintura conhece a femme fatale do romance: Sophia, a jovem (com sérios problemas com o marido) com a qual se envolve e tenta ajudar a fugir para o Uruguai. Moradora do apartamento acima, a jovem de 15 anos Berta brinca de “casal” com o artista (quando sua mãe não está em casa, é claro), denunciando uma relação pedófila que caminha à beira do abismo mas que, graças à maestria de Gustavo Machado, se mostra dócil e delicada, até simpática, pela construção descontraída da personagem secundária.

O espaço e o personagem se bifurcam. No início e no fim do romance vemos Otto recluso no apartamento. Lugar quente, devido à estufa que ele mantém sempre ligada. É este o personagem centrado em si, convivendo com a sua decadência intelectual e suas limitações, percebendo a relação perigosa que vem mantendo com Berta mas, ao mesmo tempo, reconhecendo o quão importante a menina se apresenta (talvez Berta seja a expressão máxima de companheirismo dentro do livro). Com a oferta do emprego, o protagonista flerta com a rua, com a cidade e sua vida passa a tomar o mesmo fluxo: desordenado, barulhento. É convivendo com a movimentação urbana que Otto conhece Sophia, faz sexo com Berta, destrói o carro de Teo, invade uma propriedade privada. Apesar de ser a rua a responsável pelo maior número de relações, é nela também que se encontra o frio, daqueles de doer os ossos e arder os olhos.

Dentro de casa percebemos as cores: do café, da massa do bolo de cenoura, dos cabelos, dos instrumentos dos discos de jazz. Na rua, apesar das tintas da aula de pintura, a cor é uma só: um cinza azulado, a qual Otto batizara de Céu de Agosto. Mesmo com todas as técnicas, o pintor nunca conseguira reproduzir tal cor, apenas a descrevia, com pesar. O lado de fora e o lado de dentro nunca dialogavam no mesmo espaço, até que, após todas as desventuras, Otto chega em casa e pinta. Mais uma vez sem emprego, de novo entregue ao lar e à companhia de Berta, apesar das condições finais se equipararem às iniciais, as coisas já não seriam a mesma. Dessa vez, dentro de casa e perto do calor da estufa, está também o Céu de Agosto, imortalizada numa tela na sala.

Mesmo que os temas se esgotem, fica claro que eles nunca se repetem. Mais do que a forma, creio que o diferencial de um livro é a cor. Sob o Céu de Agosto, Gustavo Machado confirma seu potencial diante desse mundo de livros que não para de crescer.

por Otávio Campos

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Um comentário em “Sob o céu de agosto: uma resenha ou um breve retrato da literatura contemporânea

  1. […] Um romance fenomenal, com tudo que um romance contemporâneo brasileiro precisa ter, sem perder a originalidade de estréia do jornalista gaúcho. Sem muito para dizer no momento, visto que acabei de resenhá-lo aqui. […]

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