Escoliose – uma coluna #5

FICAR EM CASA

Um papo com Drummond, Ronaldo Correia de Brito, livros vivos, mortos e felicidade clandestina

                                                                                                                                             por Otávio Campos

Abri a porta do armário e estava ela, minha prateleira de livros me olhando. Corri o indicador pela lombada de alguns, mesmo já sabendo qual escolheria… e foi. Afastei os livros dos demais, segurei firme nas mãos e fiquei por um bom tempo parado, olhando a capa – a foto, a logo da editora, a disposição do título e do nome do autor, as cores. O bastante. Já estava preparado para ir mais fundo na relação… e fui. Com a mão esquerda, acariciei de leve a capa e, com a direita, aparei a quarta capa, virando o miolo na direção dos meus olhos. Abri com os polegares. A primeira reação, claro, foi meter o nariz entre as páginas e sugar o cheiro do papel (aproveitando enquanto o ministério público não caracteriza tal ato como vício prejudicial à saúde). Deixei ventar algumas páginas até que os olhos parassem em algumas linhas e seriam elas o prato de entrada. Caso meu paladar concordasse, devoraria o livro ainda hoje. “Gosto de meias finas, mas é preciso cuidado com as unhas para não puxar os fios. Adoro batom vermelho, peruca loura, sandálias altas.”

O ostracismo, o ócio criativo, a procrastinação com as coisas simples. Nenhum compromisso me esperando lá fora e eu e o quarto nos tornando uma coisa só. Infelizmente, o prazer de não fazer nada é algo que me deixa culpado e a simples noção de que estou desocupado, ou pior, desacompanhado, faz com que eu surte. Hoje, a primeira coisa que fiz quando me dei conta dessa minha condição foi abrir um exemplar de A bolsa e a vida que tinha sobre a mesa. Sem métodos, caí logo na crônica “Ficar em casa” – uma terapia.


1- “Aceitar a solidão; escolhê-la e desfrutá-la.” Tá, aceitei, ou melhor, escolhi. Desfrutarei.

2- “Reconsiderar os livros; arrumá-los primeiro com método, depois com voluptuosidade, fazendo com que cada prateleira exija o maior tempo possível.” Meu lar se resume a um quarto, que mal tem espaço para minha cama e a gaiola do Melquíades, mas sou guerreiro e faço caber uma escrivaninha e uma pequena estante. Logo, a tarefa de me perder no tempo durante tal “arrumação” era meio que absurda. Pois bem, retirei do lugar os quarenta livros que me acompanham por aqui. Abri páginas, passei dedos, reli passagens marcadas e, de um certo modo tentei revivê-los. Coloquei cada um de volta no seu devido lugar e fiquei pensando “e agora?”. Não, nada a ver com o Drummond, mas e agora os livros? Será que eles morrem? Às vezes fico aqui, sentado, olhando para eles de lado, só pela lombada e eles quase não dizem nada. Eles estão mortos.

3- “verificar que é preciso antes tirar a poeira de um, remover a boba capa de celofane que envolve a encadernação de outro”

Em estado de sonolência, então, talvez. Depois de lidos, devidamente rabiscados, sentidos, dialogados, retornam à estante e possivelmente nunca mais serão abertos. São lombadas.

4- “Reler dedicatórias; abrir ao acaso livros de poetas que preferimos e que infelizmente não são os mais modernos nem os mais célebres.”

Os livros viram acaso. Por acaso abro uma página, por acaso acho uma frase grifada, por acaso o livro ressuscita.

5- “separar volumes que não nos falam mais nada e que devem tentar seu destino em outras casas”

E nesses acasos, por acaso, por descaso, nem mesmo a lombada continua viva. É hora de ir embora e dar lugar a outro livro recentemente lido. Pois é, a estante é exclusiva para livros lidos. Os ainda intactos ficam numa prateleira dentro do armário. São livros para se espiar de vez em quando, correndo o indicador pela lateral e decidindo qual será o próximo a mudar de lugar. Mesmo fechados, mesmo também de lado, são livros vivos, ou melhor, num processo de vir a ser (quase uma vida intrauterina), com uma breve vida pela frente. Fica ali aquele livro lindo, de capa branca, do Ronaldo Correia de Brito, que às vezes eu pego com prazer, mas o medo de vê-lo morrendo aos poucos, definhando a lombada na estante do lado, me faz colocá-lo de volta no lugar, sem nenhuma linha lida.

6- “Reconhecer que muitos livros comprados a duras penas, pedidos ao estrangeiro ou longamente mineirados nos sebos, não têm mais do que essa oportunidade de comunicação durante o ano, deixar que fique a sós conosco e nos confiem seu segredo”.

Era o momento de mais um assalto. Eu ali, como um violentador, empurrando meu livro para a vida, depois de já ter deflorado suas páginas com o nariz.

“Adoro batom vermelho, peruca loura, sandálias altas.
Ninguém mais ouve Libertad, nem assiste a seus filmes”.

De um golpe, o fechei. Eu já sabia o bastante. O coloquei de volta na estante dos vivos. Não há pressa, ele ficará ali até que, um dia, queira de novo me contar o resto do segredo. Segredo esse que, clandestinamente feliz, fica vivo na prateleira atrás da porta do meu armário.

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Um comentário em “Escoliose – uma coluna #5

  1. […] Comprei esse livro há uns meses, logo que acabei de ler Galiléia. Está aqui na estante, esperando minha coragem de lê-lo (conforme registrei aqui). […]

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