Precisamos falar, rapidamente, sobre o Kevin

Pela tradição judaico-cristã Eva é o nome da primeira mulher que, ao provar do fruto proibido é expulsa do paraíso. Eva Khatchadourian, sem dúvida, não se difere muito da homônima descrita na Bíblica e no Alcorão, pois ao conceber seu fruto, no caso, o filho, sua vida se torna um verdadeiro inferno. Sim, estamos falando sobre a personagem principal do romance de Lionel Shriver, Precisamos falar sobre o Kevin.

A arte de tirar o fomento para romances das primeiras páginas dos jornais não é novidade, mas a maneira como Shriver utiliza a notícia de um adolescente de 15 anos ter matado 12 pessoas em uma escola nos Estados Unidos é o que faz desse livro um marco da literatura contemporânea. A autora não se vale apenas do fato em si, mas de todos os acontecimentos que precedem a “chacina”, desde a concepção e nascimento de Kevin Khatchadourian até as constantes visitas de sua mãe na penitenciária. Pois bem, o livro já começa com uma dessas visitas, ou melhor, o relato dela por Eva. A narrativa toda se baseia em cartas dessa mãe para Franklin, seu marido que está ausente.

Apesar de ser uma pergunta recorrente na história e, com certeza, na cabeça de todos que a leem ou pelo menos ouvem falar sobre, o que levou Kevin a cometer o crime de longe é o que necessita ser respondido nesse livro. De forma perturbadora, a autora visa traçar uma narrativa mais preocupada na relação entre Eva e Kevin e a pergunta que fica é “pode uma mãe odiar seu filho?”. Num primeiro momento, responderíamos que sim, visto que desde o início Eva detesta Kevin (porque ele representa pra ela a derrota da dor do parto?), apesar de ela tentar nos convencer que isso não é verdade, que era Kevin quem a detestava. Nesse ponto, é necessário ressaltar que precisamos ser muito cuidadosos ao ler o livro, para não cairmos nas “armadilhas” do narrador. Mais do que um livro em primeira pessoa, o romance é constituído de cartas, nas quais Eva tenta (acredito) eximir sua culpa sobre os acontecimentos.

Em quase quinhentas páginas (mal revisadas pela Intrínseca), somos levados a conhecer o ápice e o declínio profissional de uma mulher, que entra na vida adulta como promissora diretora de uma empresa de guias de viagens baratas e passa a ser uma frustrada dona de casa, que não consegue se encaixar no papel de mãe. Vendo que seu esperado bebê não saiu conforme a encomenda, o que Eva faz? Desiste? Não, mas tenta novamente e, dessa vez, parece dar certo, já que a pequena Celia exala a feminilidade e a doçura que tanto conforta Eva. É plausível que Kevin seja uma criança problemática e que tenha realmente cometido todos os pequenos delitos infantis que a narradora elenca, mas são dúvidas que nunca serão respondidas e o que nos resta é ter tal consciência e nos deixar estremecer toda vez que o pequeno Khautchadorian entra em cena (com nãnãnãnã, revólveres de brinquedos ou à la Robbin Hood).

A adaptação do livro para as telas, apesar de render um post à parte, sem dúvida é algo que deve ser ressaltado por aqui. Sem a burra pretensão da fidelidade que tanto estraga esse tipo de trabalho, Lynne Ramsay tem consciência da transposição das letras para frames da história de Shriver, e realiza da melhor maneira possível (me arrisco em dizer que talvez seja essa uma das mais brilhantes adaptações que já houve). A cronologia inexistente e arrebatadora é o elemento perturbador da película, que é deliciosamente perpassada por pelo menos um detalhe vermelho em todas as cenas (o que renderia uma grande discussão sobre a simbologia do Vermelho e o Negro na história). Eva é incrivelmente representada por Tilda Swinton, e consegue passar toda pulsação de culpa x inocência presente na narrativa, apenas com o olhar. O livro e o filme são obras distintas que dialogam (e não necessariamente se encaixam) e criam dois universos sobre este fato.

Tilda Swinton interpretando Eva Khatchadourian na adapatação de Lynne Ramsay

Um tapa na cara e um soco no estômago: é a sensação que se expande depois de cada capítulo. Apesar de não haver tal necessidade para o livro ser classificado como excelente, o final é algo catártico, chocante, desesperador que, se até lá o leitor não tiver conseguido responder, Shriver mostra a resposta para a questão cerne do romance. Sem mais delongas (o texto é curto porque é quase impossível comentar sobre o livro sem disparar um importante spoiler), sem dúvidas Precisamos falar sobre o Kevin é um livro que merece ser lido, lido, estudado, escondido, flechado, temido, lido e comentado.

por Otávio Campos

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4 comentários em “Precisamos falar, rapidamente, sobre o Kevin

  1. “[…] você tanto berrou e vomitou que ela se foi. Qual é o problema com você, seu merdinha? Está satisfeito, agora que arruinou a vida da mamãe? Você pode até poder ter enganado o papai, mas a mamãe sabe muito bem qual é a sua. Você é um merdinha, não é? […] A mamãe era feliz antes que o Kevin mijão viesse ao mundo, você sabia disso? E agora a mamãe acorda todos os dias querendo estar na França. A vida da mamãe agora é uma droga […] Você sabia que em certos dias a mamãe preferia estar morta […] para não escutar você guinchar nem mais um minuto, tem dias em que mamãe gostaria de se jogar da Ponte do Brookyn…”.

    Eu ainda tenho dúvidas se tudo o que ele era foi uma questão de gene ruim ou se quem errou foram os pais. Não li o livro, mas fiquei perturbadíssima com o filme.

  2. Leonardo Lina disse:

    Palavras com vida sobre o tema, spoken poetry: http://www.youtube.com/watch?v=5xyKKoL1NSM

  3. Dani Veloso disse:

    Nossa, esse livro chegou até mim super por acaso e eu resisti à tentação de lê-lo por medo da ausência de recomendações. A resenha me deixou com vontade não só da leitura, mas também do filme. Vão para minha lista com certeza.

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